domingo, 16 de agosto de 2015

Sorte política

Todos os anos, nesta época, multiplicam-se nos órgãos de comunicação social as chamadas para uma tal de rentrée política. É certo que os tempos são de crise e empregar tradutores competentes é uma coisa que sai cara, mas neste caso, uma simples entrada no Google Tradutor resolveria bem o problema: regresso, retorno, reentrada...

Também é certo que o uso faz a língua e, no caso em questão, o dicionário da Priberam até considera a tal rentrée como bom português. Só não esclarece como se deve ler a palavra: deverá ser rentré (à portuguesa), rantrê (foneticamente mais próxima do françês) ou mesmo rantrrê (com o segundo r bem carregado) como no francês? Aqui deixo as minhas dúvidas.

Sem dúvida: com os protagonistas que temos tido, todos os anos aguardo ansiosamente, não pelos dias das rentrées, mas pelo dia de uma grande sortie. E desde já aqui deixo a minha sugestão para uma boa tradução dessa hipotética — talvez não mais do que isso, infelizmente — sortie política: sorte política! Eu sei que a tradução está longe de ser literal, mas ao nível do conteúdo, duvido que haja melhor.

segunda-feira, 3 de março de 2014

O baile de Carnaval

«Se temes o desconhecido, nunca cries 
condições para que ele se revele»
Autor Desconhecido

O Meireles e a Rosalina eram fiéis seguidores de uma tradição carnavalesca que, ofuscada por falsas imitações de realidades tropicais, cada vez mais se vai perdendo: os bailes de carnaval. Ano após ano davam largas à imaginação, entrando em personagens nos quais depois davam largas ao corpo no baile da Associação Cultural e Recreativa da freguesia onde residiam. Mickey e Minnie, Super-Homem e Super-Mulher, Bucha e Estica, Duarte Pio e... e... — como é mesmo o nome dela? —, eram apenas alguns dos muitos personagens que eles já tinham incorporado.

Nesse ano, condicionados por um orçamento familiar que cada vez mais dava para menos, ocorreu-lhes uma solução simples e original: o Meireles iria vestir-se de Rosalina e a Rosalina vestir-se de Meireles. O facto de ele ser um homem não muito alto e ela uma mulher não muito baixa, fazia com que as roupas de cada um se ajustassem razoavelmente bem ao corpo do outro, sem necessidade de ajustes.

Enquanto a Rosalina escolheu de imediato, dentre as roupas do Meireles, um fato, gravata e camisa — com colarinho à Paulo Portas —, o Meireles acabou por sentir mais dificuldades na sua escolha. Não só por haver maior diversidade de roupa feminina no roupeiro, mas, principalmente, porque o Meireles resolveu desde logo incorporar um certo espírito feminino, experimentando quase tudo o que por lá havia antes de fazer a sua escolha. Escolha essa que acabou por recair sobre um vestido comprido e bem justo ao corpo (e um sutiã recheado com esponja para dar volume ao busto, claro está).

Chegado o dia do baile, cada um vestiu-se como sendo o outro e saíram para cumprir a tradição no baile da Associação Cultural e Recreativa. O Meireles não dispensando o batom, o rímel e o verniz nas unhas. Inicialmente sentiu alguma dificuldade para se movimentar nos sapatos de salto alto, mas depressa pegou o jeito. E não mais o largou. Pegou tanto jeito que dançou a noite toda sem a menor queixa do salto alto ou da justeza do vestido. Muito pelo contrário, adorou!

No caminho de volta para casa, o Meireles fez comentários bastante elogiosos ao baile desse ano, notando-se-lhe até uma pontinha de nostalgia nas palavras sobre o baile que acabavam de terminar. Mais tarde, deitado na cama, olhando o teto, voltou a manifestar o seu agrado pelo baile desse ano:
— Pena que não seja como no Rio de Janeiro.
— Como «como no Rio de Janeiro»? Querias que saíssemos neste frio enfeitados de plumas e lantejoulas e com pouca roupa no corpo?
Apesar da ideia das plumas e lantejoulas não ter desagradado ao Meireles, ele respondeu:
— Não... não é isso!
— Então o que é?
— No Rio, há novo desfile no próximo sábado.
— Ai é?
— O desfile das campeãs...
— Vejo que gostaste do baile deste ano.
— Muito!
Tanta foi a ênfase do Meireles nesse «muito» que a Rosalina desconfiou. Não sabendo muito bem do que desconfiava, mas desconfiou. Poder-se-ia mesmo dizer que ficou relativamente apreensiva.

Dois dias depois. A Rosalina, que sempre regressava do trabalho bastante mais tarde do que o Meireles, nesse dia chegou mais cedo do que o habitual. Entrando no quarto, deparou-se com o Meireles vestindo roupas femininas em frente ao espelho.
— Que fazes tu?
— Experimento as tuas roupas.
— Com batom e rímel?
— Queria ver como ficava o conjunto.
— Para quê?
— Para nada... Só para saber se podia ter feito melhor escolha...
A Rosalina nada mais disse. É bastante provável que ainda fosse meditar sobre o assunto. Mas, desde logo, resolveu ficar um pouco mais apreensiva.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Dia dos namorados

O Américo ainda não tinha entrado em casa quando começou a sentir um suave odor a incenso. Já na sala de jantar, o Américo viu a mesa posta com pompa e circunstância — com velas e tudo! Não fosse ter visto apenas dois pratos sobre a mesa e juraria que nessa noite iriam receber visitantes ilustres.

Aniversário dele não era, dela não era, de casados ainda só tinham quatro meses, o começo namoro foi no verão... Não ocorreu ao Américo motivo para ambiente tão especial em casa. Aproximando-se da Detinha para o beijo de boas-vindas, o Américo fez a inevitável pergunta:
— Jantar especial?
— Datas especiais merecem jantares especiais.
— Data especial?
— Ora, não sabes que dia é hoje?
— ...
— Dia dos namorados, esqueceste-te?
Não era bem o caso de se ter esquecido, mas como podia o Américo lembrar-se que a Detinha queria celebrar esse dia? O Américo tentou justificar-se:
— Mas agora já somos casados, querida!
— E daí?
— Daí que este é o dia dos namorados, não o dia dos casados...
Começando a sentir que a Detinha não estava para brincadeiras, o Américo tentou aproximar-se dela para mais um beijo, mas ela prontamente repeliu-o. E perguntou-lhe:
— Significa isso que não pensaste em nada para hoje?
O Américo abanou a cabeça em sinal negativo. A Detinha continuou:
— Não compraste nada para mim?
O Américo abanou a cabeça em sinal negativo. A Detinha insistiu:
— Bombons, lingerie, flores... nada?
Sinal negativo.

O ambiente ficou pesado e jantaram praticamente sem se falarem. O Américo ainda tentou, mas nas três abordagens da noite a Detinha só respondeu por monossílabos. E foi dormir com a cara fechada. Com a cara fechada, com o corpo fechado, com tudo fechado!

Só voltou a esboçar um ligeiro sorriso no dia 17 de fevereiro. Desse mesmo ano, felizmente.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A sangria ibérica

Por estes dias fiquei a saber que, de acordo com uma decisão recente do Parlamento Europeu, a sangria só poderá ser denominada como tal se for produzida em Portugal ou na Espanha. Acho essa uma excelente decisão, mas gostaria de saber qual o verdadeiro alcance desta medida: aplica-se àquelas bebidas empacotadas ou engarrafadas (que eu não compro nem a tiro!) denominadas de sangria que se podem ver em supermercados por essa Europa fora? Ou visa punir os restaurantes e bares europeus que imitam a bebida ibérica e depois até nos desgastam a palavra sem pagarem os devidos royalties?

Julgo até que esta decisão constituirá uma excelente alavanca para a rastejante economia ibérica, mas, antes de mais, gostaria que me esclarecessem sobre o que verdadeiramente me preocupa: quando voltar a exilar-me (temporária ou definitivamente, o tempo o dirá...) em algum país não ibérico da União Europeia, poderei convidar amigos para tomar uma sangria na minha casa de lá? Ou só poderei fazer isso se levar a bebida já preparada de cá? Poderei continuar a chamar-lhe sangria, se levar fruta, vinho, espirituosa e gaseificada de cá e depois misturar tudo lá? E se preparar a bebida fora da União Europeia, já poderei denominá-la de sangria sem que esteja sujeito a algum tipo de sanção por cá? Urge que estas e muitas outras dúvidas de primordial importância sejam rapidamente esclarecidas para que eu não viole o que quer que seja desta nossa bela Europa!

Há meses tivemos uma decisão sobre a qualidade dos autoclismos, há uns anos uma decisão sobre a qualidade de vida das galinhas, agora uma decisão sobre a nossa tão querida sangria. Pelo andar da carruagem, não tardará muito para que o Parlamento Europeu legisle sobre o sexo dos anjos e resolva, de uma vez por todas, um problema que apoquenta a humanidade há séculos (ou milénios, muito provavelmente).

E já que entramos num registo mais religioso, louvemos esta maravilhosa harmonia europeia: enquanto os deputados vivem na doce ilusão de que têm algum poder (até aprovam leis!), os verdadeiros chefões (e a chefona) desta pseudo-democracia impõem aquilo que muito bem lhes apraz, sem que o Parlamento Europeu seja sequer chamado a opinar. Convenhamos, se é para ter um sistema como o português, onde o parlamento toma decisões realmente importantes, mas os deputados deixam as consciências (quiçá, outras coisas mais) penduradas à entrada e votam de acordo que o que manda o líder partidário, melhor mesmo um sistema como o europeu no qual os deputados ficam entretidos com leis como esta, mas podem entrar para o parlamento com a consciência no seu devido lugar.

Já agora, por uma questão de coerência e respeito para com a vizinhança mundial, aproveito para recomendar que o Parlamento Europeu aprove regras mais rígidas sobre a utilização de determinados nomes de outras bebidas. Como sugestão, para começar: caipirinhas só no Brasil, margaritas só no México, piscos sour só no Chile ou Perú!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Os três amigos do Patrício

O Patrício era um fulano com um passado financeiro já de si muito pouco brilhante, mas nos últimos tempos deu para cometer alguns excessos. Os apelos constantes da banca com crédito farto e fácil fizeram com que o Patrício desse passos maiores do que as pernas e mais passos do que devia. Ele contraiu crédito para a casa, crédito para o carro, crédito para uma vida de luxo e outras coisas que mais adiante ficarão evidentes. Depois começou a contrair crédito para pagar outro crédito, até que... Até que chegou a implacável crise financeira e a torneira do crédito secou.

O caso do Patrício começou a ficar tão complicado que, antes de tomar medidas drásticas — só o diabo saberá quais! —, decidiu recorrer à ajuda de amigos. A três muito próximos, em particular: o Branco, o Conceição e o Firmino. Lançado o alerta pelo Patrício, os três acudiram pressurosos a resgatá-lo nessa hora de grande aperto, pois os amigos são mesmo para essas coisas. Começaram por emprestar-lhe dinheiro para os compromissos mais urgentes — a taxas de juro relativamente altas, mas amigos amigos negócios à parte... — e prometeram mais emprestar, conquanto o Patrício se disponha a cortar nos gastos.

Experientes como eram nos negócios, prontificaram-se a arranjar um plano de recuperação para a calamitosa situação financeira do amigo em desgraça. Reuniram com o Patrício e começaram por lhe pedir que descrevesse as suas atividades regulares onde achava que poderia economizar uns cobres.

O Patrício passou rapidamente a sua vida em revista e lembrou-se do vício do jogo, onde por vezes ganhava mas muito mais eram as vezes em que perdia.
— Não, não, isso não! — Vetou imediatamente o Branco. — Um homem precisa do jogo para manter a mente ativa. Cortar nisso é morrer.
Claro que o facto do Branco ser dono da casa onde o Patrício costumava jogar teve a sua influência no veto do Branco.

De seguida, o Patrício reconheceu que tinha gastos exagerados com a bebida. Sabia que seria difícil cortar nesse vício, mas podia tentar fazer um sacrifício.
— Não, não, isso não! — Vetou prontamente o Conceição. — Um homem precisa da bebida para libertar o espírito. Cortar nisso é morrer.
Claro que o facto do Branco ser dono do bar onde o Patrício mais regularmente afogava as suas mágoas teve alguma influência no veto.

O Patrício mencionou depois as visitas regulares às profissionais do prazer. Seria um sacrifício abdicar desse hábito, mas prontificava-se a tentar.
— Não, não, isso não! — Vetou de imediato o Firmino. — Um homem precisa dessas mulheres para libertar a tensão corporal. Cortar nisso é morrer.
Claro que o fato do Firmino ser dono da casa de alterne frequentada pelo Patrício também teve a sua influência no veredicto. 

Começava a ficar claro que o Patrício sozinho não iria apontar a solução para o seu problema. Meditaram bastante e, em conjunto, chegaram à conclusão de que havia gastos regulares onde Patrício poderia cortar: na qualidade da comida dos filhos. Afinal, conseguiriam sobreviver sem o leite matinal, passavam bem sem peixe nem carne e a fruta e os legumes, por natureza, já não eram muito do agrado das crianças.

Os três bons amigos do Patrício passaram a visitá-lo com alguma frequência (para arrecadarem o seu quinhão de juros) e, com muito agrado, constatavam que o brilhante plano por eles gizado estava a fazer o Patrício economizar uns trocados extra. Notavam as crianças com aparência algo escanzelada, mas nada de alarmar: ainda se seguravam de pé e até conseguiam caminhar! Havia que manter o plano de contenção de gastos, pois era óbvio que estava a dar certo!

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Finais infelizes

Tendo em conta (o que eu entendo por) certas correntes freudianas da psicanálise, não será de todo disparatado considerarmos a infância como a fase da vida onde entronca grande parte dos problemas que nos atormentam em adultos, resultando com frequência de uma análise mais detalhada de certos casos a atribuição de culpa aos progenitores — à inigualável mãe, muito em particular —, não raras vezes por excesso de proteção.

Não me parece difícil aceitar essa teoria, tendo em conta as surpresas desagradáveis com que nos vamos deparando ao longo da vida e que, muitas vezes, nos pegam completamente desprevenidos. Já que assim é, julgo ser da mais elementar justiça distribuir culpas por todos os agentes da nossa formação e não apenas pelos progenitores ou educadores diretos. Uns que, na minha opinião de leigo no assunto, têm papel perverso, mas dificilmente são chamados a prestar contas no processo de esclarecimento psicanalítico, são os criadores de histórias infantis. Sim, esses que nos povoam as ideias com histórias onde os vilões sempre são castigados e os príncipes e princesas são felizes para sempre.

Sendo a nossa formatação também muito baseada nas histórias que nos contam na infância, que preparação teremos nós para encarar a realidade quando os agentes do mal se dão bem? Como aceitar a nossa história quando um Sócrates nos deixa à míngua e vai estudar filosofia em Paris, vivendo à grande e à francesa, e ainda volta para comentador influente da nação? Como aceitar a nossa história quando ela é condicionada por um Coelho que não se cansa de atacar os mais desprotegidos e ninguém o tira do poleiro? (Eu sei que os coelhos não costumam estar em poleiros, mas este a que me refiro infelizmente está).

E se nas história infantis os maus nem sempre se dão totalmente mal — se o lobo mau quis comer a avozinha, algum prazer há de ter tido... — onde a porca torce verdadeiramente o rabo é nos finais das histórias. Desde quando, na vida real, príncipes e princesas — ou plebeus e plebeias, tanto faz — são felizes para sempre? Na melhor das hipóteses, ambos morrem de velhos. Sendo a morte inevitável, por que não refletir esse facto em alguns personagens bons das histórias infantis? Que tal por vezes dizer que foram felizes até que a princesa (já rainha) morreu de enfarte do miocárdio? Ou que o príncipe (já rei) morreu de cancro no pulmão? Neste último caso, poder-se-ia até acrescentar que isso aconteceu porque fumava muito, lançando assim um alerta sobre os malefícios do tabaco.

Querendo evitar uma visão tão fatalista da história, poder-se-ia ainda pensar em finais de outro tipo, também bastante frequentes na realidade, mas nunca refletidos em histórias infantis. Por que não dizer que o príncipe e a princesa foram felizes até que já não se aguentavam mais? Ou até que apareceu mais alguém na jogada? Só a título de exemplo: e foram felizes até que contrataram um novo jardineiro para o palácio e a princesa se encantou por ele. Ou até mesmo o príncipe se encantou por ele. Este último final com a vantagem de contribuir para a formação de cabecinhas com menos preconceitos homofóbicos.

Enfim, não sei se será caso para levar a questão tão a peito, mas se tal fosse viável, a humanidade devia mover um processo coletivo em alguma instância internacional contra esses pintores de mundos em tons exclusivamente cor-de-rosa e azul-celeste.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Peque & Pague

«Alguns elevam-se pelo pecado, 
outros caem pela virtude»
W. Shakespeare

Nas minhas noites de insónia da época em que morava no Rio de Janeiro, uma das atividades que me despertava algum interesse — sociológico, diria — era observar a intensa atividade religiosa em vários canais da televisão brasileira a altas horas da madrugada. Num simples zapping, deparava-me com excelente oferta de cultura religosa que muito me enriquecia — na época, apenas espiritualmente — e rapidamente me fazia voltar ao sono. A oferta tinha uma concentração maior na componente evangélica, mas também por lá se podia encontrar outras formas de menor expressão como o espiritismo ou a umbanda.

Juntando ao conhecimento adquirido nesses anos a minha ancestral formação na Igreja Católica (IC), posso dizer que tenho um razoável nível de conhecimento num vasto leque de religiões cristãs — sobre o Islamismo nada sei e peço desculpa por qualquer coisinha. Na mesma medida em que foi aumentando o meu conhecimento em diversas religiões, foi diminuindo a minha atividade religiosa — não sei como provar uma correlação entre ambos, mas desconfio que exista —, chegando ao ponto de me considerar completamente fora do circuito e acreditando não ter nenhuma necessidade de transcendência por esses lados. É mais ou menos neste ponto que deixo a minha pobre vivência não religiosa dos últimos anos.

***

Passava eu há dias, em plena época da grande crise em que vivemos, em frente ao (há não muito tempo inaugurado) faustoso Cenáculo do Espírito Santo, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), no Porto, quando dei por mim a pensar se será realmente assim: não terei mesmo nenhuma necessidade de transcendência religiosa?

Posta a pergunta, debrucei-me sobre os meus anteriores conhecimentos religiosos na vertente cristã — como já disse, sobre o Islamismo nada sei nada e peço desculpa por qualquer coisinha —, particularmente naquelas que considero serem os expoentes máximos da nossa cultura latina: a IC e a IURD. Se, por um lado, a IC tem preços para serviços básicos e aposta na confissão e no arrependimento como caminho para a salvação eterna, a IURD aponta o dízimo como solução para todos os males que possam apoquentar os seus fieis, preservando-os de toda e qualquer forma de vida terrena menos recomendável. Na IURD não há uma ideia explícita de confissão e arrependimento como via de salvação, mas há um implícito estimular de mecanismos de autocensura, por vezes sobres pecadilhos de nada. Em suma, nem a IC nem a IURD estimulam o fiel a pecar sem culpa. 

Sendo certo e sabido que pecar faz parte da condição humana, tentemos então situar o pecado no quotidiano como algo muito natural. Tão natural como a vontade de pecar. Foi por aí que cheguei à conceção de uma Igreja Peque & Pague (IPP), na qual o fiel é estimulado a pecar e pagar (como o próprio nome indica), havendo uma lista de pecados, tão exaustiva quanto possível, e o preço que o redime. Não me refiro a pecados que possam constituir crime — respeitemos as leis civis, mesmo que nem sempre elas nos respeitem a nós — ou que violem princípios éticos ou morais. Não. Refiro-me a pequenos pecados quotidianos que praticamente toda a gente gosta de praticar mas, por um motivo ou por outro, censura. A mim, por exemplo, assolam-me com certa frequência a Gula, a Preguiça (que na IPP deverão ser sempre escritos com maiúsculas) e até outros menos confessáveis — lá está a tal autocensura. 

Fundada a IPP, faremos — a passagem ao plural é deliberada, pois confere maior credibilidade ao discurso — simultaneamente grandes campanhas no estímulo aos pequenos pecados e apostaremos na facilidade de pagamento. Aceitaremos pagamento parcelado, cartão de crédito, Paypal e transferência bancária. Haverá cartão de fidelização e modalidades de pré ou pós pagamento com débito em conta. E, para os pecadores mais fervorosos, criaremos um Cartão PPP (Peque & Pague Premium) com acesso privilegiado a um sem-número de lugares não propriamente muito recomendáveis por outras religiões. Temos entre os nossos grandes objetivos a criação de um canal de TV com muitos filmes da Scarlett Johansson e outro com muitos filmes do... do... — aceito sugestões das(os) que preferem belos exemplares de outro sexo. A cereja no topo do bolo será um programa diário de Nutícias com a Scarlett como apresentadora, para podermos dar largas à Luxúria. Mas isso só depois que a IPP estiver muito pujante financeiramente e ela se converter.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O T

Quando ele nasceu não houve quem ousasse arriscar que aquele garoto pudesse vir a dar grande homem, tal o seu reduzido tamanho à nascença — mesmo cumpridos a preceito os nove meses de gestação. Armindo foi o seu nome de registo, mas desde o primeiro instante foi por todos tratado por Mindinho.

As previsões não enganaram: o Mindinho veio, de facto, a revelar-se um homem de muito baixa estatura. Na vertical.

Apesar da estatura nada condizente com os normais — e muito preconceituosos — padrões de boa dotação para o galanteio, atingida a idade adulta — talvez mesmo antes, mas evitemos insinuações de teor pedófilo — o Mindinho veio a revelar-se um sujeito com enorme sucesso entre as mulheres. Avesso a poiso certo, foi espalhando o seu encanto pelos quatro cantos — e muitas camas — da região. Uma aqui, outra ali, sem qualquer impedimento de simultaneidade temporal, muitas mulheres lhe fizeram a corte, mas nenhuma logrou conduzi-lo ao altar. Filhos não teve. Que ele soubesse.

Ainda com perspetiva de muita vida pela frente o Mindinho morreu. Inesperadamente. E, como será fácil de prever, ao seu funeral compareceu um considerável número de mulheres tristes. Algumas com cara de viúva, apesar do Mindinho nunca se ter casado, como já foi dito. Todas elas em estado muito choroso e nos mais diversos estados civis: solteiras, casadas, divorciadas e umas quantas efetivamente viúvas — não do Mindinho, claro. Todas lhe deixaram belíssimos buquês e bilhetinhos a acompanhá-los com palavras de apreço e sentido pesar, muito lamentando a sua partida.

Cumprido o ritual do enterro, os amigos mais chegados recolheram os bilhetinhos. Bastante lhes chamou a atenção a forma como muitas delas apodaram o Mindinho nas dedicatórias: algumas como «Mindinho T», outras como «meu T» e umas quantas até como «meu Tesinho»!

Os amigos ficaram intrigados. Suspeitaram que houvesse no Mindinho algum avantajado predicado de cuja existência eles nunca tinham sequer desconfiado. E ficaram a pensar em como os homens não se medem aos palmos. No mínimo, haverá que considerá-los em todas as direções!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Nascidos na hora exata

A cada começo de novo ano os blocos noticiosos dos canais de televisão em Portugal incluem notícias que, não fosse a escassez noticiosa que caracteriza a época, dificilmente poderiam incluir num noticiário minimamente respeitável — mesmo levando em conta uma certa tendência jornalística para a promoção do facto não noticioso. Reportagens sobre banhistas a tenir de frio que entram em águas geladas no primeiro dia de janeiro, ou de mães que dão à luz em cima da transição de ano já se tornaram tão naturais como a sequência dos anos.

Como manda a tradição, no primeiro dia de 2013 surgiu a notícia de que «o primeiro bebé do ano» — por vezes referido até como «o bebé do ano»! — tinha sido uma menina nascida numa maternidade do Porto. À meia-noite e um segundo. Foi muito agradável começar o ano a saber que na capital nortenha se realizam feitos de tão grande envergadura. O que mais me atraiu na notícia nem foi o facto de que a primeira criança de 2013 tivesse nascido no Porto — ainda não descobri como tal facto pode contribuir para a felicidade de alguém —, mas sim saber que no Porto há um centro hospitalar com tecnologia tão sofisticada a ponto dos nascimentos poderem ser cronometrados com esse grau de precisão.

Desde logo, questões importantíssimas se levantam sobre o tema: qual será o momento exato de um nascimento? Será o instante em que a criança abandona por completo o ventre materno, será o instante em que algum membro da equipa médica observa a criança nesse ventre ou será o momento em que alguém dessa equipa se lembra de olhar para o relógio? Haverá sempre um especialista em cronometria na realização de cada parto?

Levantadas as questões importantes, voltemos à dura realidade dos factos: entre o noticiário da manhã e o da noite descobriu-se que, afinal, «o bebé do ano» não tinha nascido no Porto à meia-noite e um segundo, mas sim em Lisboa à meia-noite em ponto. Por um mísero segundo a cidade do Porto via fugir mais este grande mérito para Lisboa! Para lançar ainda maior confusão sobre o tema, no dia seguinte há um jornal que noticia que «o bebé do ano» não foi menina nenhuma de Lisboa ou do Porto mas sim um menino de não-sei-onde. Ou seja, mais um ano que começa com uma enorme trapalhada sobre assunto tão importante!

Ainda bem que de permeio tivemos o senhor presidente da república a tranquilizar-nos: vamos ter Orçamento de Estado para 2013! Acredita que o orçamento está pejado de sérios atropelos à Constituição e contribuirá ainda mais para a espiral recessiva que nos ataca, mas em mais um raciocínio que caracteriza a sua espiral recessiva de capacidade política, chegou à conclusão de que, mesmo com tudo isso, passaremos para o exterior uma imagem de maior tranquilidade do que a que passaríamos se ele mandasse logo o orçamento que Gaspar & Cia congeminaram para o Tribunal Constitucional. Pelos vistos, esses senhores do exterior ficam mais tranquilos se souberem que neste resto de Europa se atropela a lei e não se faz nada para mudar o rumo do afundamento económico. Deduzo que mais importante do que tudo isso será termos o orçamento a nascer na hora exata!


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A cena do presépio

Diz com alguma frequência quem na vida passa a desempenhar o papel de progenitor que forma de amor maior não há do que o amor sentido por um rebento. Sendo provavelmente essa uma grande verdade, não é menos verdade que o objeto desse amor tão singular é muitas vezes utilizado como veículo transmissor de missivas em diversos diferendos entre os progenitores macho e fêmea.

Imagine-se uma cena familiar num final de tarde de novembro, com mãe, pai e uma filha em idade escolar. A menina acaba de chegar da escola, larga a mochila e dirige-se à cozinha, onde a mãe prepara o jantar e o pai aguarda o jantar preparado. Cumprimenta os pais quase mecanicamente e encosta-se a um canto amuada. O pai pergunta-lhe:
— Que se passa?
— A peça de Natal...
— Não conseguiste papel?
— Consegui.
— Então porquê essa cara?
— Queria um papel, mas não o que me deram.
— Que papel foi esse?
— De vaca... Vou fazer o papel de vaca!
— Deixa lá, filha, o importante é participar.
— Pois, mas a Inês vai fazer de Virgem Maria!
Apesar do facto não ser importante para o desenrolar da história, não será de todo despropositado assinalar que essa tal de Inês era a melhor amiga da menina — e talvez o recíproco não fosse assim tão verdade.

O papel de vaca, mesmo que a do presépio, não é papel que um pai possa ter muito orgulho para a representação teatral de uma filha. No entanto, pretendendo desenvolver na menina mecanismos de racionalização, o pai tenta fazer com que ela veja naquela adversidade um lado positivo:
— Não é um papel tão simples quanto possa parecer!
— Não?!
— A história do cinema está cheia de grandes papeis onde os atores praticamente não dizem nada.
— Pai, é o papel da vaca do presépio: vou ficar quieta o tempo todo a bafejar o boneco que faz de menino Jesus e de vez em quando dizer muuuuu. Só isso!

Este é o momento chave. A partir daqui não fica claro se o discurso do pai é apenas fruto do amor paternal, visando o conforto da filha, ou passa a utilizar a conversa como forma de reacender a fogueira de velhas querelas com a mulher. Diz o pai:
— O papel é muito exigente para uma menina. Imagina tu a dificuldade de teres que ficar caladinha o tempo quase todo. As pessoas do sexo feminino têm uma relação muito difícil com o silêncio!
A mãe, que não tinha qualquer tipo de problema auditivo e naturalmente tinha escutado toda a conversa, conseguiu, com algum esforço, manter-se em silêncio. A menina dirigiu-se à mãe:
— Que achas, mãe?
— Não sei... Mas pensa que podia ser pior: se fosses menino, talvez te calhasse o papel de burro!
Não fica também claro se a mãe tentava com esta resposta enviar alguma missiva ao pai da menina. Mas é certo que o amor maternal por vezes também tem as suas fraquezas.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

21122012

Se há aspeto no qual podia considerar a minha existência uma absoluta nulidade, esse é seguramente o das experiências esotéricas. Até ontem. Suspeito mesmo que o mais perto que cheguei de uma experiência com algum grau de esoterismo foi há aproximadamente uma dezena de anos no Père Lachaise, em Paris. Deambulava eu alegre e perdidamente pelo cemitério em visita às moradas eternas de alguns dos mestres universais das letras e da música lá sepultados, quando fui abordado por uma jovem que, notando-me algo perdido, me perguntou (num idioma estrangeiro, já não me lembro qual): «Buscas o Jim?». E imediatamente apontando para um lugar relativamente escondido, acrescentou: «Está ali». Quando lá cheguei já só vi o túmulo do Jim Morrison, mas do jeito que ela me falou, acredito que viesse de algum contacto de elevado grau com o próprio.

É muito pouco, eu sei, mas até ontem foi o que de melhor consegui: acreditar que estive a uns escassos metros e alguns segundos de um contacto transcendente com o Jim. Claro que para uma existência tão pobre nessas matérias muito tem contribuído uma grande dose de ceticismo da minha parte. Um ceticismo congénito e alimentado ao longo das minhas já consideráveis décadas de existência. Acredito que seja uma grande limitação minha e não a confessaria aqui se não fosse para deixar claro que qualquer manifestação nessa direção, ainda que ténue, merece ser levada em consideração.

Era precisamente aqui que queria chegar: se um cético da minha estirpe, que nunca conseguiu ver nada de transcendente — e mesmo quando viu não acreditou — agora lhe confessa acreditar que algo de tenebroso está para acontecer, parece-me que qualquer pessoa minimamente razoável só pode ter uma atitude: dar-lhe crédito. Literalmente.

Não sei o que se passou comigo durante a noite passada, mas sei que hoje de manhã despertei com uma sequência de misteriosos números na cabeça: 21122012. O mais estranho é que esses números me foram zumbidos ao ouvido pela abelha Maia. A princípio não liguei, pois era ainda muito cedo e nem suspeitei que já estivesse acordado, mas depois que liguei os neurónios e parei para refletir...  21 12  20 12... abelha Maia... óbvio não é? A profecia Maia... o fim do mundo! Felizmente a querida abelhinha não só zumbiu esses números ao meu ouvido — acho que foi o esquerdo —, como se dirigiu de imediato para cima do melhor manual de Teoria dos Números que tenho em casa.

Foi para mim claro que a Maia queria dizer-me que se o problema estava na terrível combinação de números, era nesse livro que eu deveria encontrar a resposta. Não fiquei parado — como poderia? —, estudei profundamente o problema, enchi várias páginas de cálculos e cheguei à seguinte solução: 0018 0004 19892068020 05. Coincidência das coincidências, trata-se do meu NIB! Podia tentar explicar-lhe em detalhe o processo que me conduziu a este número mágico, mas o tempo é escasso e é melhor irmos diretos ao que interessa: se quer investir na sua salvação, transfira tudo o que tem para essa conta — eu já faço isso há anos. E para que acredite que não há o menor grau de charlatanismo nesta história, aqui deixo a minha solene promessa de que, falhando a solução, eu devolvo 100 vezes aquilo que investiu na sua salvação. É mesmo isso, se a minha solução falhar e o mundo acabar, eu devolvo-lhe 100 vezes o que transferiu para a minha conta. Pense bem, pois nem nos seus tempos áureos o BPN dava lucros desta ordem a Cavaco & Associados!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A arte imita a vida

«Há três coisas que os homens podem fazer com as mulheres: amá-las, sofrer por elas ou transformá-las em literatura»
S. Stills

Há homens extremamente simples cujo supremo ideal de vida – e de morte, quem sabe... – se resume a muito pouco: uma boa cama e uma mulher nela deitada – de preferência já sem roupa – é tudo quanto de mais profundo almejam.

Devo confessar que não me lembro de alguma vez ter conhecido algum homem com este grau de simplicidade, mas como homens deste tipo abundam por aí na literatura e nos filmes, deduzo que, possivelmente, também existam na vida real. É que a arte imita a vida...

Provavelmente era o caso do Pires. Um belo dia o Pires sentiu-se despertar num lugar muito incomum: um lugar claro, amplo, sem paredes laterais visíveis, nem teto. Apesar da sua vasta experiência de despertares em lugares inusitados, nunca tinha acontecido ao Pires de se sentir tão desnorteado como no despertar daquele dia. A primeira impressão que teve foi de ter despertado no meio das nuvens. E com a sensação de ter dormido um sono de vários dias consecutivos.

Quando o Pires se virou, viu deitada a seu lado uma mulher serena, bela e nua, que parecia dormir um sono profundo. Uma mulher que o Pires não se lembrava de ter visto antes — não pensou que fosse caso fortuito de véspera, pois continuava com a sensação de ter dormido vários dias seguidos. Apesar de tanta estranheza, o Pires sentiu o cenário como idílico.

Pouco depois o Pires viu surgir um homem ao longe que, lentamente, se foi aproximando. Já mais perto, reconheceu nesse homem a figura relativamente familiar de alguém com vestes longas e uma grande chave na mão. O Pires foi invadido por uma sensação muito estranha. Começou a temer o pior. Logo que o homem chegou a uma distância razoável, o Pires interpelou-o:
— Quem és tu?
— Pedro.
— Pedro?... Pedro quê?
— Pedro, simplesmente. A História nunca me deu mais do que um nome próprio.
— Que lugar é este?
— O purgatório.
— Morri?!
— Morreste.
— Ai caramba!
— Exageraste nas pastilhas do amor, o teu coração não aguentou.
— E que faz aqui esta mulher?
— Dorme um sono que pode ser eterno.
— Assim, nua...
— É uma tentação, não é?
— Sem dúvida!
— Podes tocá-la enquanto dorme.
— Posso mesmo?!
— Podes fazer tudo o que quiseres com ela. Esse será o teu céu!
— Ena!
— Porém...
— Há um porém?
— Deves ter cuidado para não despertá-la, pois ela é do tipo que fala sem parar, alega frequentes dores de cabeça e reclama de tudo que um homem faz. Esse será o teu inferno!

Devo dizer que tampouco conheço pessoalmente mulheres com estas caraterísticas, mas como é frequente vê-las por aí na literatura e nos filmes, deduzo que possivelmente também existam na vida real. Como já disse, a arte imita a vida...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Carta aberta ao mago Gaspar

Escrevo estas palavras com o intuito de lhe pedir um favor. Não mais do que um singelo favor. É muito provável que pense que não me deve favores nenhuns, mas analisando bem a situação, facilmente chegaremos à conclusão de que já tenho algum crédito quanto a isso. Ora vejamos: por um lado, desde que o senhor encabeçou este governo de devotos do confisco e passou a ditar as suas impiedosas leis fiscais, já me tomou (confiscado ou roubado, o senhor dirá) um respeitável quinhão de rendimentos; por outro lado, nas altas esferas financeiras que o senhor tão bem conhece e venera, dinheiro e favores são duas faces da mesma moeda. Confio na sua prodigiosa inteligência para que chegue à conclusão certa...

Desde já esclareço que não escrevo estas linhas com o intuito de lhe pedir que me devolva — ora aí está um verbo que o senhor muito gosta de deturpar — o dinheiro que me tomou (confiscado ou roubado, o senhor dirá), porque do jeito que a realidade que nos quer impor perdeu qualquer sentido de verdade, acredito mais que um rei Gaspar apareça no dia 6 de Janeiro no Palácio de Belém montado num camelo carregado de ouro, incenso e mirra do que o senhor, mago Gaspar, montado no seu coelho, sequer pense deixar de tomar (confiscado ou roubado, o senhor dirá) aquilo que me é devido. São apenas rendimentos do trabalho que o senhor veementemente despreza — os rendimentos, não trabalho, claro —, não são fruto de sagazes jogadas de alta finança, daí a minha descrença.

Fazendo uma pequena análise da sua atuação ministerial, facilmente constatamos que o senhor entrou na lide como o grande mago que chegava para nos salvar do descalabro financeiro. Contudo, à medida que as suas receitas e a realidade se foram mostrando inconciliáveis — algo que muitos desde cedo previram e o senhor provavelmente também, mas nunca disse —, o senhor foi paulatinamente dirigindo a sua atuação para o campo da política.

Atuação política fraca e profundamente demagógica, diga-se de passagem. Primeiro, querendo pintar-nos como um rebanho de ovelhas bem comportadas, depois querendo o senhor mesmo colocar-se no papel de cordeiro em dívida para com as outras ovelhas do rebanho e, ultimamente, querendo pintar de negro as ovelhas com voz dissonante da sua. É verdade, da sua miserável atuação política faz parte essa tentativa recente de fazer passar uma visão maniqueísta da cena política nacional — com os bons à direita e os maus à esquerda, obviamente. Se for para pintarmos uma visão maniqueísta da cena, o que melhor distingue os políticos portugueses da atualidade não é a tendência de direita ou de esquerda, mas sim o caráter: os que o têm e os que o não têm! E, para nosso grande mal, os da bancada da maioria estão todos — talvez com uma honrosa exceção — do lado do não!

Simultaneamente com as medidas de austeridade que o senhor impiedosamente nos tem imposto vem sempre, ao jeito de banda sonora no seu tom pausado e monocórdico, essa lengalenga de que é necessário cortar nos benefícios sociais para corrigir o défice da república. Poderia ser. Mas não é. Já toda a gente — o senhor incluído — se apercebeu de que, do jeito que a situação evolui, a correção do défice vai ficar para as calendas gregas. E qualquer pessoa minimamente atenta se apercebe que o caso não é o corte no estado social ser o meio inevitável para atingir o objetivo do défice, mas sim o défice ser uma ótima desculpa para atingir os cortes no estado social. Ninguém duvide que os seus fiéis amigos do investimento anseiam pelo momento em que o estado social seja desmantelado e servido em bandejas de ouro para eles se banquetearem.

Posto que o seu mago conhecimento técnico se está a revelar ineficiente, a sua desastrosa atuação política cada vez mais nos desconcerta e entramos em quadra natalícia — época em que sentimentos nobres por vezes falam mais alto —, acalento a esperança de vê-lo aceder ao favor que lhe peço. Tão singelo quanto isto: bata com as portas, largue o inqualificável coelho a pastar nas suas desqualificadas relvas e deixe-nos em paz!

Pode esquecer a sua dívida de gratidão para com Portugal, pois este bom povo também facilmente a esquecerá. Pode até partir montado no tacão alto da sua altivez, seguro de que não foram os gráficos e as folhas de Excel que não se adaptaram à nossa realidade, mas sim a realidade que não teve um mínimo de capacidade para adaptar aos seus excelentes gráficos e folhas de Excel. O importante é que vá... que parta! E não tenha problemas de consciência por nos deixar ao Deus dará. Com a matriz católica que nos caracteriza, depois que nos virmos livres da tragédia grega que nos impõe o senhor e a sua legião do confisco, facilmente acreditaremos que Deus novamente algo de bom nos dará — quase nove séculos de existência já dão algum conforto quanto à sobrevivência mesmo sem magos. Talvez mais uma breve ilusão, pouco importa. Afinal, o que seria da vida sem ilusões? É que já não são só os rendimentos que nos toma (confiscados ou roubados, o senhor dirá) que me preocupam: com o senhor por muito mais tempo no poder serão as últimas réstias de esperança que se esvaem. E sem esperança não há futuro!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Tamanhos

Os benefícios em termos psíquicos decorrentes da prática de qualquer atividade artística são sobejamente conhecidos e cientificamente reconhecidos, podendo esses benefícios ser obtidos de modo direto, através da libertação psíquica do indivíduo no processo de criação, ou de modo indireto, aproveitando a criação artística como veículo para o autor desabafar sobre os seus vícios/prazeres menos confessáveis, sem que daí advenha grande comprometimento para si.

Na arte da escrita, o aproveitamento de forma indireta é bastante frequente. Um dos subterfúgios mais utilizados nessa arte ficcionada — por vezes só aparentemente — consiste na criação de personagens: querendo o autor abordar um tema delicado sem qualquer tipo de comprometimento para a sua postura, inventa um personagem para dar o corpo ao manifesto e manchar o seu — do personagem — bom nome com posições menos recomendáveis — que, no fundo, são as do autor.

Não me parecendo verdade que os textos que aqui tenho vindo a publicar possam ser considerados arte, também não me parece menos verdade que se tratam de escrita. E mesmo sem arte, os efeitos psicoterapêuticos têm sido evidentes. Sinto-os.

É isso que aqui farei mais uma vez, com variante de que desta vez o confesso.

Avancemos então com um nome para o nosso personagem: Amâncio. Para começo de conversa, coloquemos o Amâncio a meditar sobre um dos seus maiores vícios/prazeres. E dêmos um indício sobre o rumo que a exposição pode levar, deixando o nosso personagem a recordar uma velha máxima brasileira que assegura que «tamanho não é documento». E talvez nem seja.

Mesmo sem acesso a dados estatísticos que o confirmem, o Amâncio sabe que em Portugal sempre houve grande moderação quanto à preferência pelo tamanho. E, pese embora, desde tempos imemoriais as grandes andarem por aí, tem sido nas de tamanho médio que tem recaído a massiva preferência nacional.

O Amâncio, homem muito dado a experimentar dessas coisas pelo mundo fora, recorda-se que parecido com Portugal lhe pareceu ser o Chile — embora com ligeira preferência pelas grandes, especialmente quando partilhadas entre a população estudantil. Mas é bom ressalvar que o Amâncio não teve no Chile uma experiência tão vasta quanto isso para poder tirar grandes conclusões sobre esse país.

Experiência vasta e grandemente prazerosa teve o Amâncio no Brasil, onde em média elas são maiores do que em Portugal — sem, no entanto, chegarem a ser tão grandes quanto as maiores portuguesas.

O que ultimamente tem deixado o Amâncio bastante apreensivo é a constatação de que, tanto no Brasil como em Portugal, há uma acentuada tendência para a proliferação das de tamanho reduzido. Se ainda fosse como na Bélgica, onde as mais pequenas são normalmente compensadas com maior potência e qualidade, ainda menos mal. Mas não, tanto em Portugal como no Brasil, reduzem-lhes o tamanho sem nada lhes acrescentarem em compensação.

Abaixo as minis! Defende o Amâncio, obviamente.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O absurdo mora ao lado

O Pereira já fez parte do imenso — talvez nem tanto — contingente de homens com tendência para brincar com o fogo (emanante das mulheres alheias). Uma vez levou a brincadeira longe de mais e fugiu de casa, tendo deixado ao abandono a mulher e os filhos. Como nem tudo que reluz é ouro, não tardou muito para que o fogo da mulher alheia se apagasse e, consequentemente, despertasse no Pereira uma profunda, sentida e merecida dose de arrependimento. A mulher do Pereira, que tinha vocação para a santidade, dessa vez perdoou-o.

Perante essa lição de vida, o Pereira transferiu-se para o imenso — agora sim — contingente de homens que não pretende mais do que levar uma vida sossegada em função da mulher e dos filhos. Mas o episódio da fuga e arrependimento deixou as suas marcas no Pereira. A experiência ensinou-lhe — e ele jamais esqueceu — que, ao menor deslize, paixões fortuitas entram de mansinho, destroem felicidades conjugais e depois passam.

Daí em diante, não só o Pereira abandonou certas palavras e atos relativamente às mulheres alheias, como passou também a tentar mantê-las afastadas até dos seus pensamentos. Custasse o que custasse. Esse o grande erro do Pereira: quis levar longe demais o seu esforço. É sabido que em matérias do pensamento a radicalização facilmente gera descompensação. O absurdo mora ao lado.

No escritório onde trabalhava o Pereira todos — elas, principalmente — sabiam da sua conversão ao mundo dos homens que não pretendem mais do que levar uma vida sossegada em função da mulher e dos filhos. E ele parecia feliz nessa nova postura de vida. Até que, aos poucos, começaram a sentir o Pereira padecer dum certo tipo de estranheza — sobejamente conhecida — que consiste em ficar introspetivo o tempo todo.

O Augusto, que tinha uma relação de maior proximidade com o Pereira, foi incumbido de ter uma conversinha com ele. Vai que o Pereira precisava de se abrir. Saíram juntos para o almoço e à primeira palavra de provocação o Pereira abriu-se num lamento:
— Acho que estou apaixonado!
— Como?!
— Uma paixão impossível...
O Augusto deduziu que o Pereira não se referia à madame Pereira.
— Invade-me o pensamento nas situações quotidianas mais simples.
— Relaxa, deve ser coisa passageira.
— De há uns tempos para cá, não há vez em que lave os dentes ou coma um bife que não pense nela!
— Ela quem?
— A Isabel Jonet!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Exercício especulativo sobre a ociosidade divina


Na minha modesta e pouco fundamentada opinião, a grande riqueza bíblica não reside propriamente nas belas histórias que o texto sagrado conta, mas sim na parte dessas histórias que o texto não conta. Portento de provocação à inteligência humana, as suas inúmeras lacunas são um manancial de pretextos para os amigos da sabedoria especulativa.

Exemplifiquemos.

Parece-me de todo razoável especular que Deus, com a omnipotência que o caracteriza, na sua conceção de mundo tenha gizado um plano bastante diferente daquele que é costume ser contado na transmissão do pensamento religioso — vulgo fé. E faço esta afirmação sem qualquer tipo de contradição com o texto sagrado, obviamente. Faço-o entre as lacunas do texto.

O plano inicial de Deus não teria sido propriamente trabalhar seis dias e descansar ao sétimo — repetindo-se daí em diante o ciclo com periodicidade semanal —, mas sim trabalhar seis dias e descansar para todo o sempre. Ao sétimo, ao oitavo, ao nono... Deus todo-poderoso e perfeito teria pensado, para a infindável sequência dos dias, em algo muito melhor do que a eterna azáfama de ter que voltar ao trabalho a cada segunda-feira. No pior dos casos, teria reservado os dias a partir do sétimo para a atividade que mais frutos colhe da ociosidade: a arte.

O problema de Deus foi ter criado um animal chamado Homem — por vezes com h minúsculo. Não só criou um macho manhoso, como ainda lhe arranjou uma companheira que trouxe — ao Homem e a Deus — problemas constantes. Esse o grande erro. Daí em diante tudo foi consequência desse passo mal medido que obrigou Deus a voltar ao trabalho na segunda-feira seguinte para tentar consertar o erro. Milhares de milhões de anos depois ainda tenta consertá-lo sem jamais conseguir. Descansa apenas um dia por semana e quando dá.

É sabido que Deus está em todo lado. Onde houver multiplicação humana, aparece Deus a tentar consertar. Mas em alguns lugares a sua presença é mais visível do que noutros — não nos esqueçamos que Deus, como ser perfeito que é, tem bom gosto e, por conseguinte, prefere frequentar os melhores lugares.

Despertou em mim a ideia de um Deus com vocação ociosa quando há uns anos morei em Salvador da Bahia. Ali, onde o tempo flui mais devagar e os sabores são mais intensos. Ocorreu-me esta conceção divina num momento — felizmente não único — em que, deitado numa rede, saboreava a brisa marinha e observava uma linda morena — talvez ao contrário, já não me lembro. Nesse preciso momento, pela primeira vez na vida senti-me impelido a especular que um Deus que deixou espalhados pelo mundo verdadeiros hinos à ociosidade, só pode ter uma profunda inspiração ociosa.

Outra vez em que voltei, de forma mais intensa que o normal, à atividade especulativa sobre a inspiração ociosa de Deus — veja-se a coincidência — foi numa visita ao Alentejo — a Bahia lusitana. Também aí, onde o tempo flui mais devagar e os sabores são mais intensos, constatei com clareza uma maior presença de Deus. Mais concretamente em Arronches, depois de me lambuzar nuns maravilhosos pezinhos de coentrada, regados com um excelente tinto da terra, excelentemente rematados por uma sericaia. Depois desse manjar divino, recostei-me numa árvore e entrei em profunda atividade especulativa sobre a natureza ociosa de Deus. Já mais do que especulação: praticamente com a certeza de que é em lugares como esse que Deus mais tempo passa! Para dar largas ao seu desejo oculto de ociosidade, obviamente.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O linguista

Disse Millôr Fernandes que um escritor só é realmente famoso quando os seus erros de linguagem passam a ser considerados regras gramaticais. Não me ocorrem estas palavras a propósito de um escritor, dado que sobre o personagem que aqui vou considerar não tenho informação de quaisquer registos escritos, mas sim sobre esse orador — cuja máxima de Millôr Fernandes também se aplicará, acredito — que dá pelo nome de Passos Coelho e que, num dos seus últimos discursos, avançou com uma ousada proposta de "refundação" do memorando com a troika — ou do estado português... ou lá que diabo queria ele refundar...

Perante a imprecisão — ou vacuidade? — da proposta, muitos foram os comentadores e analistas que se debruçaram sobre as enigmáticas palavras de Passos Coelho, especificamente sobre a palavra "refundação" — que o meu corretor ortográfico continua a sublinhar a vermelho.

Imbuído do rigor matemático que me caracteriza, antes de tentar descobrir o que Passos Coelho queria dizer com a palavra, fui tentar descobrir o que a palavra queria dizer. Consultado o dicionário online da Priberam, cheguei à conclusão de que a palavra "refundação" não existia e "refundar" tinha um significado que, no contexto, não combinava nada com o que me parecem ser as ideias políticas de Passos Coelho. Mais tarde consultei o meu velho dicionário da Porto Editora e cheguei essencialmente às mesmas conclusões. Ousei até postar um comentário no Facebook:
De acordo com o que me parecem ser elementares regras da língua portuguesa, presumo que "refundação" será o ato ou efeito de "refundar". E diz o meu dicionário que "refundar" tem o significado de "tornar mais fundo, profundar, afundar". Será que Passos Coelho, finalmente, começou a falar verdade ao país? Ou será que Passos Coelho, simplesmente, não sabe o que diz?
Tive até um amigo que gostou! Qual não foi o meu espanto quando, poucos dias depois, um outro amigo me alertou para o conteúdo deste meu comentário, observando que tinha consultado o dicionário online da Priberam e, surpresa das surpresas:
refundação
s. f.
Ato ou efeito de refundar. 
refundar
v. tr.
1. Tornar mais fundo. = AFUNDAR, APROFUNDAR, PROFUNDAR
2. Tornar a criar, a estabelecer algo; fundar novamente.
No espaço de alguns dias, não só a palavra "refundação" ganhava vida própria, como "refundar" adquiria um novo significado. Confesso que se não houvesse aqui e ali outros comentários com o mesmo teor do meu comentário facebookiano, eu ia começar a desconfiar da minha própria capacidade de leitura — ou até da minha sanidade mental, quem sabe. Desta forma, vou apenas achar que a erudição linguística de Passos Coelho tem esse dom de nos enriquecer a língua. Se outra riqueza não consegue criar para o país, pelo menos essa ele consegue. 

Julgo ser da mais elementar sensatez que de futuro eu passe a prestar atenção redobrada às palavras de Passos Coelho. E digo mais: quando tiver tempo vou tentar reinterpretar todos os seus discursos passados. Agradeço desde já à Priberam que inclua no seu dicionário significados ocultos de palavras como "já", "ouvi", "dizer", "que", "nós", "queremos", "acabar", "com", "o", "décimo", "terceiro", "mês", "mas", "nós", "nunca", "falamos", "disso", "e", "isso", "é", "um", "disparate", entre muitas outras. Não acredito que Passos Coelho tivesse utilizado estas palavras com os seus significados mais óbvios. Na minha conceção, o Passos Coelho linguarudo dá lugar ao linguista!

E para que não volte a cair em más interpretações, numa próxima campanha eleitoral só ouvirei Passos Coelho com dicionário na mão. Dicionário da Priberam, claro!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O futuro das coisas

A Clotilde, a Maria Teresa e a Rosa Manuela conheceram-se há cerca de uma dúzia de anos, quando os seus filhos começaram a frequentar a mesma escola. A forte amizade que logo no primeiro ano nasceu entre os meninos estendeu-se com alguma naturalidade às respetivas mães. Jantares, lanches — muitos lanches — e incontáveis telefonemas selaram a amizade de tal forma que, mesmo agora, com os rapazes já crescidos e seguindo caminhos distintos, as três mães continuam a encontrar-se com alguma regularidade. Os telefonemas já escasseiam, para os jantares não há muito tempo, mas pelo menos um lanche, no começo de cada ano letivo, mantêm como hábito sagrado.

Desde cedo, o filho da Clotilde começou a revelar excelentes aptidões para as Ciências Exatas, o filho da Maria Teresa para as Humanidades e o filho da Rosa Manuela... bem, o filho da Rosa Manuela foi ficando para atrás e tardava em revelar aptidões para o que quer que fosse. Na falta de alguma aptidão especial, foi repetindo anos, com o intuito de tentar melhor descobrir a sua vocação. Assim dizia a Rosa Manuela.

Com os filhos da Clotilde e da Maria Teresa acabadinhos de entrar na universidade, no lanche deste ano conversaram naturalmente sobre as opções recentes e as perspectivas de futuro dos filhos.

— O meu filho entrou para Matemática, em Ciências — disse a Clotilde.
— E como são as perspectivas de emprego? — perguntou a Maria Teresa.
— Já foram muito melhores, mas esperemos que as coisas mudem — respondeu a Clotilde.
— Pois é, esperemos que as coisas mudem — concordou a Maria Teresa.
— As coisas?... Quais coisas?! — perguntou a Rosa Manuela.
— A conjuntura, a situação... — esclareceu a Maria Teresa.
— Ah! — apenas disse a Rosa Manuela.

Após um breve silêncio, a Clotilde dirigiu-se à Maria Teresa:
— E para que curso entrou o teu filho?
— Para Filosofia, em Letras — respondeu a Maria Teresa.
— Complicado, em termos de emprego — afirmou a Clotilde.
— Sempre foi, imagina agora! — acrescentou a Maria Teresa com ar de preocupação.
— Bom, esperemos que as coisas mudem! — concluiu a Clotilde.

Após mais um período — um pouco menos breve que o anterior — de silêncio, a Rosa Manuela interveio:
— É para ver como são as coisas: o meu filho ainda não terminou o secundário, mas eu não estou nada preocupada.
— Nada? — perguntaram admiradas a Clotilde e a Maria Teresa.
— Nada! — reafirmou a Rosa Manuela.
— E o que fará ele sem um curso? — perguntou a Clotilde.
— O que fará eu não sei, mas para lhe garantir um bom futuro o pai já o inscreveu na JS e na JSD! — respondeu a Rosa Manuela. E acrescentou: — E esperamos que as coisas não mudem!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Bem-vindo ao Faroeste


No domingo passado ouvi o Professor Marcelo propor a realização de um filme, dirigido à opinião pública alemã, sobre os enormes sacrifícios que estão a ser exigidos aos portugueses — abaixo o eufemismo mediático dos «sacrifícios pedidos aos portugueses», pois a mim ninguém me pediu nada!

Suponho que o objetivo de um tal filme é provocar nos alemães a compaixão por este desafortunado povo no extremo mais ocidental da Europa. A ideia não é original e já teve uma primeira tentativa — não sei se muito bem sucedida — com um pequeno filme, contendo alguns chavões e imprecisões históricas, dirigido ao distante povo finlandês. Se é para enveredar novamente por esse caminho, desta vez faça-se a coisa bem feita: lance-se um repto a Brancos, Canijos, Oliveiras, Vasconcelos — e a sua inefável amiga dos peitos — e outros cineastas renomados deste país e realize-se um filme como deve ser! Julgo que a tragicomédia será o género que melhor se adequará ao objetivo, pois terá o mérito de conseguir despertar a atenção dos alemães para os nossos problemas e, simultaneamente, deixá-los bem dispostos — algo recomendável...

Nessa linha, um filme que pode ser levado em conta como inspiração para a obra cinematográfica de resgate da imagem do povo português é a comédia francesa de 2008, Bienvenue Chez les Ch'tis — Bem-vindo ao Norte, em Portugal —, realizada por Dany Boon. Trata-se de um filme que lida muito bem com a questão do deslumbramento do francês típico em relação o sul e o simultâneo preconceito com o norte. Norte e sul de França, no caso. Como seria de esperar, o desdém do personagem principal — e dos espectadores, acredito — pelo norte vai, ao longo do filme, dando lugar a um certo encanto e no final... bom, não quer que lhe conte o final, pois não?

Só a título de curiosidade, refira-se que o filme se tornou a produção francesa com maior sucesso de bilheteira e o segundo filme de sempre mais visto em França. O primeiro continua a ser o Titanic, mas nem queria mencioná-lo neste texto — longe de mim qualquer acusação de mau presságio sobre a realidade portuguesa!

Bienvenue Chez les Ch'tis inspirou já a versão italiana Benvenutti al Sud (Bem-vindo ao Sul). Na Itália, por comparação com a França, há uma generalizada simetria de opiniões quanto a norte e sul. Penso que no caso do nosso filme para os alemães, será fundamental que nos demarquemos da típica imagem de sul da Europa boémia e gastadora. Como também é verdade que geograficamente nos encontramos no extremo mais ocidental da Europa, «Bem-vindo ao Faroeste» será um título que assenta que nem uma luva!

Que alemão poderia sentir compaixão de nós se lhes mostrássemos como imagem portuguesa um Algarve cheio de sol, praia, campos de golfe, mariscadas e boa vida noturna? Praticamente nenhum. Que me perdoem as gentes trabalhadoras do Algarve, mas proponho até que no filme incluamos um algarvio no papel de vilão da história. Por exemplo, um sujeito com aura de político sério, mas que, eleito primeiro ministro, esbanje recursos europeus sem grande critério, dizime a agricultura e as pescas e se rodeie de um bando de amigos banqueiros que lhe deem grandes retornos financeiros e criem um monstro bancário capaz de deixar o país atolado. Para acentuar o tom de tragicomédia da película — e ilustrar a má sorte dos portugueses —, pode-se até fazer com que tal personagem algarvio ascenda ao lugar de figura maior do estado português.

Demasiado ficcionado? Talvez. Mas não esqueçamos que o objetivo de um tal roteiro cinematográfico é tentar convencer os alemães que somos um povo trabalhador, apenas muito mal governado. Como num passado não muito distante eles elegeram presidente um tal de Adolf Hitler, não será difícil aceitarem essa nossa história mirabolante e desafortunada como verosímil.