quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Três grandes desilusões

Não sei que poder mágico possui o número três, mas coisas verdadeiramente importantes acontecem com muita frequência aos trios: três desejos, três poderes, três reis magos, três mosqueteiros (mesmo sendo quatro....), santíssima trindade, ménage à trois, trilogias aos molhos! É inequívoco que existe algo de transcendente no número três. De um ponto de vista meramente matemático, no máximo do brilhantismo, consigo chegar à conclusão de que três é o primeiro primo ímpar. Sim, e daí? Tem que haver algo mais para lá da Matemática!

Querendo também eu aproveitar o enigmático simbolismo numeral, resolvi abordar o tema das grandes desilusões da vida em número de três. A primeira digna de registo ocorreu num chuvoso fim de tarde de Dezembro, aos sete anos de idade. Chovia de forma tão copiosa que a professora resolveu reter-nos na sala de aula mais alguns minutos além do tempo regulamentar. Para nos entreter, pediu-nos que falássemos sobre o Natal. Nem foi a revelação de que o Pai Natal não existe que me causou tão grande desilusão, mas a forma como o meu colega Baptista começou a abordagem: «Toda a gente sabe que o Pai Natal não existe». Pouco importa o que disse a seguir. O que realmente importa, a ponto de me marcar para sempre, foi a forma como assumiu que TODA a gente sabia. Toda a gente?! Eu não sabia... e nem desconfiava! Senti-me um tremendo idiota. Apesar da tenra idade, dificilmente voltei a sentir-me tão desiludido comigo mesmo. Como pude andar anos (não muitos, tinha só sete) a acreditar que aquela fugaz visão de algo escuro na chaminé, numa anterior madrugada de 25 de Dezembro, eram os pés do Pai Natal? No mínimo, devia ter desconfiado que pudesse haver remela no olho!

Depois dessa, muitas outras desilusões: amorosas, desportivas, profissionais, religiosas, de tudo um pouco, mas quase nenhuma que me venha à memória sem a árdua tarefa de ter que puxar por ela. É então, por volta dos meus trinta anos, que surge aquela que pode ser guindada ao mesmo patamar da desilusão provocada pelo Baptista. A expectativa era tão grande nos momentos que antecederam aquela minha primeira visita ao museu do Louvre que, mal entrei no museu, dirigi-me apressadamente para a sala onde estava exposta a Mona Lisa. Eu já devia saber que o quadro tinha apenas 77cm × 53cm, e assim ter evitado o primeiro impacto negativo. Mas o pior foi a inacessibilidade e a falta de ambiente para apreciar, frente-a-frente com a obra original, o sorriso enigmático da retratada, a posição das mãos, as pinceladas do Leonardo da Vinci. Aquele magote de japoneses que não arredava pé venceu-me de forma implacável e deitou por terra toda a minha expectativa de um momento de raro deleite artístico.

Quanto à terceira grande desilusão... Bem, aflorá-la é complicado. Tenho uma vaga ideia de que, entre as duas já citadas, o Veloso falhou um penalti que ditou uma derrota numa final da Liga dos Campeões. Mas essa levou tanto tempo a curar que continuo a preferir não entrar em detalhes.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um Natal singular

A Alzira não conseguia entender o que provocara no Nicolau tão profunda mudança de comportamento nos dias que antecederam este Natal. Sempre lhe dissera que nem em criança atribuiu muito valor à data: digno de registo, apenas uma ligeira motivação religiosa, mas apenas enquanto a promessa da avó de um chupa-chupa após a missa se revestiu de algum interesse. Daí para a frente, só as filhoses da avó conseguiam despertar-lhe igual interesse pela data. Chegou a propor à avó filhoses noutras datas, mas em vão. Até aos últimos dias de vida, a avó mostrou-se sempre renitente: filhoses só no Natal e Natal só em Dezembro. Nem em Maio, no aniversário do Nicolau.

A Alzira acreditava que o ambiente familiar onde crescera teria contribuído de forma decisiva para a postura do Nicolau. Especialmente a forma relativamente austera com que os pais encaravam os bens materiais que não eram considerados estritamente necessários. Do lado espiritual, nem a religiosidade da avó empolgara o Nicolau mais do que nos anos do chupa-chupa. Rapidamente deu por perdida a tentativa de catequização de mais uma geração.

Este ano, algo de anormal se passou nos dias que antecederam o Natal: primeiro, a revelação de que pretendia trajar de Pai Natal para distribuir os presentes pela família; depois, a forma abnegada como procurou os adereços para trajar a preceito. Não pareceu à Alzira que o Nicolau tivesse feito isso para agradar aos filhos, pois havia já dois anos que o mais velho deixara de acreditar no Pai Natal e já se pressentia que também o mais novo estava a ponto de converter-se em descrente. Teria que haver motivo mais forte para que o Nicolau tivesse percorrido meia cidade à procura de botas, calças, casaco, gorro e, especialmente, a barba. Esta última, particularmente difícil de encontrar. Foi quase rude a indignação dele perante a sugestão da Alzira para que improvisasse uma barba em algodão. O desentendimento só não tomou maiores proporções, porque estavam ambos sem tempo para discussões.

A morte dos pais do Nicolau no curto espaço de um ano e o crescente cansaço da mãe da Alzira contribuíram de forma decisiva para que, após nove anos de casados, passassem a primeira noite de Natal em casa. A azáfama foi muito maior do que a previsão inicial da Alzira, mas tinha valido a pena. Esteve tudo perfeito: as entradas, o bacalhau e as sobremesas. Recebera elogios dos pais, da irmã, do cunhado e até do Nicolau (pelas filhoses). Até o ingrediente extra do enigmático trajar do Nicolau conferiu um colorido inesperado à noite.

A irmã e o cunhado já tinham voltado para casa. No andar de cima, os pais da Alzira dormiam num quarto e os meninos no outro. Restavam apenas a Alzira e o Nicolau, lado a lado no sofá. A Alzira observava o Nicolau ainda com as vestes vermelhas e a enorme barba branca. Sentia-o distante, mas era inequívoco o seu olhar de felicidade por entre o emaranhado de pelos na cara. Chegava a cofiar a barba! A Alzira acreditava que com algum tempo para conversarem, finalmente ouviria do Nicolau explicação razoável para mudança tão radical do seu comportamento neste Natal. No exato momento em que se aprestava para abordar o tema, o Nicolau abandonou o seu ar introspetivo e, numa observação em ligeiro tom de lamento, deixou-a desarmada: 
— Faltaram as renas...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Fédération Nationale d’Achats des Cadres

A FNAC, tratando-se de uma multinacional de grande sucesso, é natural que encerre alguns mistérios. A começar pelo seu nome, que em francês é sigla para algo como Federação Nacional de Compras dos Quadros (não se infira do nome que a FNAC surgiu como uma federação de galerias de arte pictórica, ou algo do género, pois a palavra "quadro" é aqui utilizada para designar gerente de empresa). Quem visita alguma das atuais lojas da cadeia não imagina que na génese daquele lugar esteve uma federação com esses objetivos. Mas o maior e mais ambicionado dos mistérios será, certamente, a sua fórmula de sucesso para a captação e fidelização de clientes.
 
Há dias, recebi uma mensagem eletrónica da FNAC anunciando uma pré-venda. Ciente de que tais pré-vendas são, normalmente, lançadas para os produtos mais desejados pelo grande público (produtos esses que rapidamente chegam à condição de esgotados), é com satisfação que me sinto brindado por tais anúncios. Aberta a mensagem, constato que se trata de um CD+DVD do Tony Carreira, incluindo (como brinde) um CD single da nova balada do artista, com a possibilidade de (pagando mais cerca de 50%) receber uma edição especial limitada, num exclusivo FNAC, autografada pelo artista. Tentador, muito tentador!

Duas reflexões me surgiram na sequência dessa mensagem. A primeira delas, o titulo da obra fono/videográfica: «O Mesmo de Sempre». A reflexão foi mais ou menos nos seguintes termos: «Ora, aí está um artista honesto. Assume aberta e francamente que não traz nada de novo: o mesmo de sempre. E daí? Quantos não se perpetuam em sequências de trabalhos que nada acrescentam de novo? Muitos o fazem e disfarçam, este tem a honestidade de o confessar. Boa Tony, os fãs apreciam um artista com caráter. Pena eu não ser fã, senão comprava!»

A segunda, e última, reflexão (convenhamos que para o artista em causa até já foram reflexões a mais), surgiu sob a forma de questionamento: «Julgava que uma empresa como a FNAC, que até tem um cartão de fidelização de clientes, pessoal e intransmissível, tinha uma política de publicidade direcionada. Mas, pelos vistos, enganei-me. Ou não me enganei? Se não me enganei, que diabo de produtos andei eu a comprar para agora receber esta proposta com o produto do Tony?» 


Com tais questionamentos, fica claro que continuo pouco esclarecido sobre a fórmula de sucesso da FNAC para a captação e fidelização de clientes: se, por um lado, no caso do Tony a mensagem eletrónica falhou redondamente, por outro lado, não esqueço que há uns anos funcionou na perfeição, pois foi precisamente por essa via que tive o meu primeiro contacto com a Carla Bruni. A intermediação da FNAC foi de tal forma eficiente que, num ápice, ela passou a invadir-me as noites com a sua voz quente e sensual e, em privado, fazer-me sentir Le Ciel Dans Une Chambre. Isso antes, muito antes do Nicolas Sarkozy lhe ter posto o olho em cima!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O cafeteiro Mr. Clooney

Aquém e além fronteiras nunca me canso de enaltecer os méritos do café expresso que se pode tomar em Portugal. A par da Itália, o país onde mais facilmente se encontra (quase ao virar de cada esquina) um excelente café com notas altas em sabor, aroma, concentração, temperatura e preço. Sendo certo que não temos o mérito de produzir o grão, nem de ter inventado a máquina, temos o grande mérito de saber utilizar o que outros produzem de bom. Pode parecer fácil, mas, a grande verdade, é que muitos tentam e só poucos conseguem.

No entanto, há algum tempo que sinto pairar no ar uma forte ameaça a essa nossa excelente tradição: um número significativo de portugueses, quiçá com sede de modernidade, têm resolvido dar protagonismo desmesurado a um americano que por aí apareceu a apregoar um tal de nespresso, ameaçando colocar em risco a verdadeira arte do café que tão bem aprimorámos. Se se tratasse de uma mulata tropical, até entendia que tivesse chegado para dar um sabor mais apimentado ao grão, mas um americano? Esses americanos lá sabem o que é um bom café? Nos Estados Unidos, pede-se um café e recebe-se em troca um balde de água quente, onde, na melhor das hipóteses, pode ter sido lavada uma chávena de café.

Custa-me a entender o sucesso desse nescafé expresso em pastilhas coloridas e máquinas futuristas. Estarão os portugueses e as portuguesas assim tão rendidos ao charme e à presunção de Mr. Clooney? Confesso que só encontro essa explicação para que, Natal após Natal, continuem a formar-se extensas filas de sedentos do produto que o americano apregoa no interior de templos nespressados. Caramba, se fazem isso para poderem continuar a ver com frequência o grisalho em campanhas publicitárias de TVs e painéis publicitários, contratem-no para vender muffins... Ou donuts.  Disso os americanos entendem! E, no caso dos donuts, até os sabem confecionar com suficientes variantes para, de igual forma, conferirem um belo colorido às prateleiras.

Há quem alegue, em defesa desse tal nespresso, a forma prática e higiénica como tudo se processa. Veja-se o ponto que isto chegou: ameaça-se dar cabo de uma excelente tradição de longa data só para se economizar no trabalho de colocar o pó, deitar fora a borra e lavar o filtro de uma tradicional máquina de café expresso. Continuando a enveredar por esse caminho abstruso, temo muito que, a breve trecho, tenhamos, na boa tradição da mesa portuguesa, a alheira de Mirandela substituída por alguma barra de cereais!

domingo, 12 de dezembro de 2010

Entre o garrote e a intervenção cirúrgica

O garrote foi um método de execução introduzido em Espanha no início do século XIX. Consistia esse método em colocar uma ligadura, corda, arame, ou similar, em torno do pescoço da vítima e apertar até ao estrangulamento. Hoje em dia, o garrote é apenas um artifício de primeiros socorros visando a compressão de um membro corporal afectado por uma hemorragia grave. Trata-se de um recurso extremo, que deve ser aplicado com grande precaução e por um curto período de tempo, até que intervenção cirúrgica possa ser assegurada.

Em sentido metafórico, não será difícil conceber a aplicação de garrotes nas mais diversas situações. Assim podemos considerar os casos da intervenção militar nas favelas do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e as medidas de austeridade financeira aplicadas a algumas faveladas economias europeias. Lá, como cá, houve nos últimos anos traficantes confortavelmente instalados no alto do morro, de lá ditando leis sobre um território aparentemente sem lei e perante a complacência daqueles que tinham por obrigação controlar o espaço. Traficantes de droga, no caso carioca, e traficantes da alta finança, no caso europeu. Aplicar um garrote a qualquer uma destas zonas problemáticas e deixá-la a definhar é sempre uma opção fácil, se não houver preocupação com o dia seguinte. Difícil é ter engenho e arte para reunir os meios indispensáveis de complementá-la com uma intervenção cuidadosa visando sanar a origem do mal.

No caso carioca, foram vários os governadores que passaram pelo estado do Rio de Janeiro e prolongaram o abandono a que vinha sendo deixado o povo nas favelas, constantemente oprimido pelo poder bélico (entenda-se lei) dos traficantes de drogas. Cabe o grande mérito na mudança de rumo ao atual governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, em colaboração com o Ministro da Defesa brasileiro, Nelson Jobim. Resulta já dessa ação algumas dezenas de traficantes neutralizados e uns quantos que escaparam pelo esgoto. Ficará para o futuro um morro mais limpo, que proporcionará uma vida mais digna a uma larga maioria de gente trabalhadora e honesta que durante todo este tempo tem habitado a favela.

No caso europeu, dada a complexidade do emaranhado poder da União Europeia e a necessidade de uma posição firme para "acalmar os mercados", seria quase inevitável que o comando de uma bem sucedida intervenção financeira ficasse a cargo de um dos líderes das quatro grandes potências que integram a União. Quase por exclusão de partes (e alguma vontade própria), essa responsabilidade acabou por cair nos ombros de Angela Merkel. Nicolas Sarkozy, ainda no rescaldo de uma lua-de-mel, e a braços com inúmeros problemas internos causados por um povo reivindicador e contestatário, mostrou-se sem tempo para esse papel; Silvio Berlusconi, pública e reconhecidamente vivendo numa onda de consecutivas luas-de-mel, menos tempo tem ainda; David Cameron, fiel aos preceitos da velha política britânica, quer primeiro resolver os problemas da ilha, depois os problemas da ilha e, só no final, os problemas da ilha  apesar de algumas singularidades vigentes na ilha, os dias por lá continuam a ter apenas 24 horas.

A tarefa sobrou inevitavelmente para a zelosa chanceler alemã, aquela que é descrita pelos diplomatas americanos como "contrária à tomada de riscos e raramente criativa". Se, numa primeira fase, é plausível admitir-se a adoção do garrote como solução de emergência para acudir ao sangramento das problemáticas finanças de alguns países da União, urge também que esse seja complementado com uma minuciosa ação cirúrgica, de modo a fazer descer pelo esgoto os traficantes da alta finança e, ao mesmo tempo, assegurar dias melhores aos habitantes das zonas afetadas, vítimas maiores dos ímpetos gananciosos desses mesmos traficantes. Contudo, Angela Merkel tarda em dar mostras de querer aliviar o garrote que, aplicado de forma cruel e cega, estrangula as já deprimidas economias e, inevitavelmente, acabará por causar sérios danos às zonas financeiramente mais problemáticas.

E assim vai  uma parte significativa do nosso mundo nos tempos que correm: entre a cirúrgica intervenção militar nas favelas do Complexo do Alemão e o garrote financeiro aplicado às faveladas economias europeias sob comandado da simplista alemã.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A lógica do dragão

Acredito que seja necessária alguma capacidade filosófica para entender que o todo é maior do que a soma das partes. No entanto, já não acredito que seja necessária mais do que mediana capacidade lógica para entender que o todo é maior do que qualquer uma das partes. Acredito eu, mas pelos vistos, nas estruturas diretivas do FCP impera um outro tipo de lógica. Pensarão desde já alguns que impera a lógica da vitória; pensarão outros, muitos mais, que impera a lógica da vitória a qualquer preço. Desta vez vou abster-me dessas polémicas aparentemente subjetivas e focalizar-me em questão lógica e inequivocamente objetiva.

A estrutura do FCP encontra-se organizada essencialmente em quatro categorias: dirigentes, associados, atletas e árbitros. Faz parte da filosofia dessa agremiação acariciar os interpretes destas três últimas categorias com prémios. Anualmente, no caso dos associados e atletas, e com maior frequência, no caso dos árbitros. Sabe-se, com base em irregularidades atrozes perpetradas por juízes e agentes judiciários que as decisões sobre os árbitros acariciados e as formas de acariciamento são tomadas diretamente por quem está no vértice mais alto da pirâmide organizativa, entre eles vulgarmente designado por «meu presidente». Presidente esse, já em si, dotado de uma lógica muito especial. Na vida pessoal, por exemplo: rapaz muito namoradeiro (nada de anormal), troca frequentemente de namorada (continua normal), leva a relação ao extremo (normalíssimo), mas acaba sempre por casar com uma mesma que tem numa espécie de reserva.

Acredito que, também no caso de associados e atletas, a decisão sobre os premiados seja tomada nas mais altas instâncias. Para associado da época 2009/2010 escolheram Rui Moreira, associado que acabava de abandonar, de forma abrupta, o local onde acerrimamente defendia os interesses do clube. Premiação relativamente estranha, mas há pior. As modalidades praticadas na agremiação desportiva são as mais variadas, o que provoca, inevitavelmente, a existência de diversos tipos de atletas. Relativamente à época 2009/2010, decidiram que o distinguido como atleta do ano seria Falcao. Neste particular, também me pareceu estranho que tivessem decidido premiar o atleta de uma modalidade cuja equipa ficou em terceiro lugar no respetivo campeonato, mas o pior veio depois: Hulk é premiado como... futebolista do ano!

Alto. Parece-me que aqui, além de falcão, também há gato. Então os futebolistas não são atletas? Como pode Falcao ser o atleta do ano sem ser o futebolista do ano? Entendo que queiram também premiar um futebolista que andou três meses a mandar bolas para a bancada e, por ter espancado um segurança, tenha passado outros tantos meses sentado nessa mesma bancada a ver os colegas suarem as estopinhas. Mas não havia necessidade de pontapearem a lógica dessa forma. Se a vontade de premiar o Hulk era assim tão grande (ou seria receio de um novo espancamento?), podiam tê-lo incluído noutra modalidade. Carateca, por exemplo, nem me parecia muito despropositado.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Carta aberta a Mira Amaral

Ex.º Senhor
Dr. Eng.º Mira Amaral,

Sabendo de antemão que o senhor tem habilitações académicas em Engenharia e Economia, e na dúvida sobre qual o título onde recai a sua preferência, optei por brindá-lo com os dois. Estamos em época natalícia e não devemos poupar na generosidade para com os outros, não é mesmo assim?

Mas é precisamente devido a uma certa falta de generosidade da parte do Sr. Dr. Eng.º que resolvi escrever-lhe. São já diversas as vezes que o ouço nos meios de comunicação social apregoando as suas doutas verdades, de forma genérica e abstrata, sobre o mau comportamento profissional dos portugueses. Hoje de manhã foi na Antena 1. Chamado a pronunciar-se sobre os feriados (e algumas prováveis pontes) de 2011 e os mais do que previsíveis malefícios desses ociosos dias para a nação, afirmava o Sr. Dr. Eng.º, em tom de mandamento do dia, que os portugueses devem "trabalhar mais e melhor", ao invés de continuarem numa vida "calma" e "doce". Assim, sem meias palavras nem exceções, a frio (como o tempo).

Coincidiu estar eu, nesse preciso momento, na padaria da esquina a comprar o pão da manhã. Em simultâneo, observava o Sr. Silva, padeiro em torno dos seus 50 anos, por detrás do vidro que separava a área de produção da área de venda. Era segunda-feira, manhã cedo, e ele acabava de passar mais uma noite amassando e cozendo o pão que muitos como eu iriam comer. Tinha o ar de alguém profundamente cansado. As palavras do Sr. Dr. Eng.º fizeram-me pensar na vida profissional daquele homem que eu observava do outro lado do vidro, num local confinado e quente, suando abundantemente, apesar do rigoroso inverno que se fazia sentir lá fora. Pensei em como, seguindo a sua douta opinião, poderia resgatá-lo daquela vida "calma" e doce" e fazê-lo "trabalhar mais e melhor". Confesso que, nas condições em que vi o Sr. Silva, não vislumbrei até agora outra forma de seguir o mandamento do Sr. Dr. Eng.º sem que tivesse que o sujeitar a algo mais do que humanamente razoável. E, da mesma forma que aqui  refiro o caso específico do Sr. Silva da padaria, poderia também referir muitíssimos outros casos de profissionais sérios e competentes a quem, sem exceção, acabam sendo dirigidas as suas palavras.

Perdoe-me se, na minha modesta posição, respondo a uma afirmação genérica, resultante de ato ponderado de alguém tão bem recompensado financeiramente pela nação, com o caso específico de um profissional remunerativamente tão insignificante como o padeiro. Mas, convenhamos, na mesma medida em que peco pela especificidade do exemplo que contraponho a uma afirmação genérica e abstrata, peca também o Sr. Dr. Eng.º pela leviandade com que atesta a malandrice e incompetência de muitos casos como o que aqui especifico. A grande verdade é que pouco importa quem mais peca, pois estamos em época de Natal e ambos seremos facilmente perdoados.

Mas vamos ao que considero realmente importante e me motivou a escrever esta carta. Dado o à vontade com que o Sr. Dr. Eng.º se movimenta em Portugal, tanto no meio económico-financeiro como no meio político (perdoe-me a redundância, trata-se apenas de uma figura de estilo para reforçar a direção do meu apelo), rogo-lhe, encarecidamente, que se reúna com alguns dos seus amigos mais competentes para redigirem umas diretivas mais precisas sobre o sentido em que devemos avançar: setores improdutivos, profissionais incompetentes, malandros de cada setor e terapia específica. Uma espécie de tábua da lei para o avanço de Portugal. Há-de convir que afirmações genéricas sobre a malandrice e a incompetência de um povo têm o sério defeito de desmotivar quem já trabalha a preceito (o Sr. Silva da padaria, por exemplo). Numa primeira fase, não precisam de ser muito exaustivos, basta uma meia dúzia de setores. Depois, seguindo o saudável hábito dos meios onde o Sr. Dr. Eng.º tão facilmente se movimenta, cria-se um instituto específico, nomeia-se uma boa dúzia de gestores públicos com horário leve e principesca remuneração (estímulo necessário para a boa execução das suas tarefas) e a coisa fluirá.

Escusado será pedir-lhes que cumpram a tarefa com honestidade e competência, pois sei perfeitamente que o Sr. Dr. Eng.º e os seus pares colocam sempre esses atributos em tudo que fazem e dizem, principalmente quando é em prol do bem público. Contudo, não ficaria de bem comigo mesmo se não lhes pedisse para, nas muitas variáveis que serão forçados a considerar num estudo sério deste tipo, levarem em consideração que as capacidades de trabalho deste malandro e incompetente povo (refiro-me à arraia-miúda, não às elites, claro) são frequentemente apreciadas pelos gestores das empresas nos sete cantos do mundo para onde costumam emigrar.

A todos um bom Natal!

sábado, 4 de dezembro de 2010

A televisão do Almeida

Logo nas primeiras conversas do Almeida com a Clarisse sobre o casamento que os viria a unir, decidiram que abdicariam da televisão. O tempo em casa seria para se dedicarem um ao outro, diziam eles. Dedicarem-se e entregarem-se, dizia o Almeida no círculo mais íntimo de amigos.

Coincidiu passar a haver menor frequência das entregas com a entrada do computador em casa. O aparelho que deveria servir para comunicar mais frequentemente com os familiares distantes, contribuiu, por outro lado, para uma mais deficiente comunicação entre o casal. Sob a pior das formas: falta de tempo para a expressão corporal. Aquilo que anos antes lhes custara algum desconforto no carro e muito dinheiro em motéis, e que parecia ser o farol da vida e o sentido da existência, convertera-se agora numa atividade tão banal (e muito menos frequente) quanto as entradas no Facebook ou os comentários no Público Online.

O Almeida não teve logo perceção de qual era a causa e qual era a consequência. Na verdade, ele era pródigo em confundir causas com consequências. E vice-versa. O Almeida também nunca foi muito dado a pensar sobre as grandes questões da vida. E para tudo tentava arranjar uma solução simples. Nunca o Almeida conversara aberta e francamente sobre o problema matrimonial que o preocupava, mas percebia-se nas conversas entre amigos que puxava o tema de forma recorrente. E tema recorrente só pode significar preocupação.

Quando a Clarisse engravidou, o Almeida pressentiu que o problema só poderia agravar-se ainda mais. No futuro, não seriam apenas as dores de cabeça da Clarisse e o apelo do computador que lhes roubariam o tempo que outrora fora precioso. Com o nascimento do Carlinhos, haveria alguém em casa que lhes monopolizaria tempo e atenção. E assim foi durante os primeiros anos de vida do pequeno: computador e Carlinhos roubaram quase todo o tempo que serviria para o Almeida e a Clarisse se dedicarem um ao outro. Dedicarem-se e entregarem-se.

Contudo, o Carlinhos cresceu. Subitamente, o computador e o pequeno que cresceu tornaram-se dois males que se anularam um ao outro: o Carlinhos ocupava o computador e o computador entretinha o Carlinhos. Mas o Almeida constatava que algo continuava errado na sua vida. Sentia necessidade de fazer alguma coisa para preencher o incontornável vazio. Tinha tomado uma decisão: iria comprar uma televisão!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Jardim rico, jardim pobre

Caminhar por certas cidades europeias em determinadas épocas do ano é, em muitos casos, sinónimo de um prazenteiro desfrutar de cores e aromas que emanam de jardins espalhados por vivendas, ruas e praças.

Salvo algumas honrosas exceções, neste extremo da Europa o cenário tem vindo a acentuar-se como consideravelmente diferente. A começar pelos jardins públicos que entraram numa onda de austeridade muito antes dos tempos austeros terem chegado cá. Nalguns, porque os municípios que os detêm preferiram a sobranceria de um qualquer arquiteto taciturno ao desabrochar de algumas flores. Noutros, porque o orçamento que chega para pagar a gestores (supostamente baratos) de empresas camarárias, não chega para pagar a jardineiros (supostamente caros).  A austeridade prossegue nos jardins de muitas vivendas, onde, em muitos casos, só por desconhecimento do significado da palavra se pode continuar a designar o espaço por jardim.

O caso específico que aqui pretendo abordar é o de um jardim num certo estabelecimento comercial. Nas minhas caminhadas diárias até ao local de trabalho costumo passar por um prédio pertencente a uma instituição bancária de nome milenar. Em frente a esse prédio há um pequeno jardim que dantes tinha relva regularmente tratada e arbustos satisfatoriamente cuidados. De há uns tempos para cá, quem dirigia essa instituição terá decidido que o dinheiro que chegava para pagar jatos particulares de ex-administradores, deixara de chegar para cuidar do jardim.

Alguém faz ideia do preço dos serviços prestados por um jardineiro?

Cheguei a pensar mandar um e-mail para essa dependência bancária, alertando para o mau estado do jardim. Na época, era eu cliente da instituição e sabia que eles se preocupavam bastante com questões de imagem: nos vários anos da nossa relação não houve um único funcionário que não me tivesse recebido de gravata enlaçada! Pensando melhor, acabei por frear o meu ímpeto, pois diversas notícias davam conta de que a austeridade tinha atacado de forma implacável até o rico Jardim. Assim sendo, era natural que o pobre jardim tivesse que continuar mal cuidado. Optei por não perturbá-los, deixando-os com a atenção única e exclusivamente centrada nas inquietações dos mercados internacionais.

Para meu grande contentamento, constatei há dias que no exterior dessa tal instituição, jardineiros aparavam a relva e davam melhor aspeto aos esquecidos arbustos. Será este um primeiro sinal da retoma económica?

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Em Deus confiamos!

Contrariamente ao que muita gente possa pensar, o povo americano é profundamente religioso. Tão religioso que chega a ter dois natais num curto espaço de tempo: um no momento certo e outro cerca de um mês antes, na quarta quinta-feira de Novembro, comemorado com peru e tudo. A este último, chamam eles de Thanksgiving Day (Dia de Ação de Graças), e serve a data para agradecer — a Deus, claro está — pelas boas colheitas do outono e as graças do ano em geral. Para ainda melhor ilustrar a religiosidade americana, poderia também mencionar que todas as notas americanas (dólares) têm inscritas a frase «in God we trust» (em Deus confiamos), mas devo admitir que não é para mim claro se a mensagem serve para enaltecer a crença em Deus ou a falta de crença nos banqueiros.

Não pode haver boa religiosidade sem bons pecados. E, no meu passado católico, aprendi que se peca por pensamentos, palavras, atos e omissões. Americanos conseguem, com frequência, quase todas as variantes pecaminosas de uma assentada só. Por exemplo, quando dizem que vão colocar em prática algumas ideias que têm para o mundo. Está lá tudo, até a omissão: querem lá saber o que é o mundo!

Antes da minha primeira incursão nos Estados Unidos, pensava que o descaso deles pelo mundo era sintoma de arrogância ou mania de superioridade, mas rapidamente constatei que se tratava mesmo ignorância pura, cultivada e transmitida de geração em geração. Um exemplo de diálogo algo frequente com americanos (em inglês, claro):
—  Portugal?              
Eu, timidamente:
—  Um país... da Europa... extremo ocidental...
—  Não é a Espanha?
Refiro-me a um americano típico, não a um tipo como o George Clooney que até entende de café!

Nunca me esqueço de uma tarde de conversa que tive há anos com uma típica senhora americana: forte (eufemismo), preta (sem eufemismo), cabelo liso (artificialmente) e muito simpática (sem artifícios). A conversa decorreu interessante e animada naquela tarde do Dia de Ação de Graças do ano 2000, enquanto na Florida faziam a enésima contagem de votos da eleição presidencial — até que os republicanos conseguissem que a contagem desse a vitória do George W Bush sobre o Al Gore, penso eu. Falou-me muito mal do W: ele era isto, ele era aquilo e, mais do que tudo, ele não era nada. «Filhinho de papai», diria ela se fosse brasileira. Perante aquele rol de adjetivacões, concluí que a senhora torcia pela vitória do Al Gore na complicada contagem de votos na Florida. Conclusão precipitada. A senhora teve o cuidado de me explicar a (única) razão pela qual ela não poderia nunca torcer pela vitória do Al Gore: ele defende os homossexuais e isso não está na bíblia!

domingo, 21 de novembro de 2010

Oralmente virgem

Longe vão os tempos em que a virgindade de uma mulher solteira era anseio natural do homem que se propunha desposá-la. Acredito mesmo que, para que tal anseio pudesse ter algum tipo de legitimidade nos tempos que correm, o homem teria que procurar a sua donzela numa faixa etária lá pelos 14 ou 15 anos de idade, quando muito. Uma legitimidade ilegítima, claro.

Sem querer ser muito exaustivo nem alongar-me demasiado em considerações sociológicas sobre o tema, assinalaria apenas como fatores fundamentais para que se tenha alterado de forma tão radical o valor social da virgindade feminina pré-nupcial, a emancipação da mulher, a facilidade de acesso a métodos anticoncetivos e a evolução mental — ainda que por vezes parcial — do homem. Dessa forma, tornou-se inevitável que o leque de anseios masculinos tivesse que se adaptar a esta nova realidade — com claros benefícios para ambas as partes.

Pese embora toda a evolução sociológica e mental masculina, não serão ainda raros os casos em que o homem mantém algum desejo secreto de primazia na invasão íntima de alguma parte daquela mulher que ele elege como sua até que a morte — ou a separação — os separem. Ciente de que a invasão primeira do hímen se tornou algo dificilmente alcançável em faixas etárias mais avançadas e nada recomendável naquelas que dão maiores garantias de virgindade — pedofilia é crime! —, muitas vezes o homem projeta, ainda que inconscientemente, o seu desejo noutros tipos de invasões primeiras. Nem sempre a projeção aparece de forma consciente, muito menos no homem que se diz moderno, mas resquícios de tais desejos, de formas mais ou menos veladas, pairam por vezes nas mentes masculinas.

Era o caso do Rodrigues, que mantinha com a Clarinha uma relação já suficientemente madura — acabavam de completar um mês de namoro —, a ponto das relações sexuais, em posições essencialmente convencionais, se terem tornado uma prática regular. A intimidade ainda não era plena, mas aos poucos a relação avançava.

Desta vez a Clarinha já revirara os olhinhos, soltara grunhidos e cravara as unhas nas costas do Rodrigues algumas vezes, quando fizeram uma ligeira pausa para recuperar fôlego. Após um ousado, pretensioso e estimulante troque de palavras, ele não notou que a Clarinha se valeu de um eufemismo para lhe fazer uma revelação:
— Sou oralmente virgem.
— Como assim? Nunca falaste palavrões?!
— Nada disso, seu bobo.
— Então?
— Nunca fiz sexo oral, pronto!
Neste, como em muitos outros casos, é frequente a mulher ter que abdicar da sua subtileza natural para conseguir fazer-se entender minimamente. O Rodrigues tentou entender mais:
— Mas porquê, achas que não gostas?
— Não sei... apenas não aconteceu.... não me apeteceu... sei lá!
— Ah...
— Acho que nunca tive relações com intimidade suficiente para isso.

Neste momento, os olhos do Rodrigues brilharam mais intensamente do que o normal e sentiu despertar nele o tal desejo de primazia na invasão íntima de uma parte da Clarinha. Aos poucos foi-se insinuando. A Clarinha, talvez por achar que entre eles já existia a necessária dose de intimidade — mais de 30 dias juntos! — que não existira nos seus casos pretéritos, não se fez de rogada... E revelou ter qualidades inatas para esse ato de grande intimidade com o seu parceiro!

Uns minutos depois, a Clarinha notou o Rodrigues estranho.
— Porque ficaste tão pensativo? Não foi bom?
— Não... foi... foi ótimo!
A Clarinha cometeu o erro de incluir duas perguntas numa só intervenção. E o Rodrigues, apesar de absorto em pensamentos, teve a esperteza suficiente para, convenientemente, responder apenas à segunda pergunta.

Para o Rodrigues tinha sido ótimo, de facto, mas também é verdade que tinha ficado pensativo: um talento destes não podia ser inato... Era óbvio que havia experiência prévia! E tentava entender por que diabo a Clarinha lhe tinha mentido sobre isto. É pouco provável que tenha sido desta vez que o Rodrigues viu saciado o seu desejo secreto de primazia na invasão íntima de alguma parte da Clarinha.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Novas oportunidades

Quem lê estas crónicas pensará, «que raio de matemático é este que praticamente nunca escreve sobre matemática?» Desconfiarão até alguns que uso o título de matemático apenas para me exibir; alguns poucos, claro está, pois exibicionismo com a matemática, neste país, é coisa mais frequente pelo outro lado: «orgulho-me de não ter tido capacidade para entender sequer o básico»; ou, «orgulho-me de ter sido um nabo»; ou até, «orgulho-me da pouca inteligência que tenho». Não exatamente com estas palavras, mas são essas as ideias que sub-repticiamente lhes deteto no exibicionismo bacoco. Há tempos atrás, o discurso tinha até tendências de moda entre a classe política (e não só), mas felizmente o tempo já fez sarar alguns dos sintomas dessa doença que ameaçava alastrar.

Aproveito então o ensejo para escrever sobre o Teorema de Pitágoras. Há alguns anos, esse teorema era ensinado lá pelo 8º ano de escolaridade, e acredito que ainda por lá ande. O resultado é relativamente fácil de entender e, em certas ocasiões, uma mnemónica simples ajudou-me a transmiti-lo a alguns menos dotados para esta arte: «A caminho de Siracusa, dizia Pitágoras para os seus netos, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos». Em abono da verdade histórica pouco posso acrescentar, pois não sei se Pitágoras teve netos, e menos ainda sei se os levava a Siracusa; mas o que realmente interessa é que a verdade matemática está lá. Serve o resultado exclusivamente para triângulos que tenham um ângulo reto (ou de esquadria, num dizer mais popular), cujos lados são chamados de catetos (os menores, adjacentes ao ângulo reto) e hipotenusa (o maior, oposto ao ângulo reto).

Prosseguindo no tom modestamente exibicionista, aqui deixo registado que quis o destino (e os meus pais também) que eu tivesse nascido em Paços de Ferreira; terra essa que, nas últimas décadas, mui nobre e distintamente se tem evidenciado através da indústria do mobiliário. Foi precisamente aí que detetei conhecimento acima da média num sábio intérprete da arte local. Conhecimento inconsciente, como se verá. Pretendendo renovar os móveis de cozinha da casa que tocara em herança ao meu pai, inevitavelmente recorreu a família a um dos muitos especialistas locais. Tirando as medidas e anotando as preferências familiares, em dado momento quis o especialista saber se uma das esquinas da cozinha estava de esquadria. Ato contínuo, saca do metro, mede 80cm desde a esquina para uma das paredes e marca um ponto, mede dessa mesma esquina 60cm para a outra parede e marca outro ponto; finalmente, coloca o metro (100cm) entre os pontos e... bate certo. Conclui imediata e corretamente que a parede está de esquadria! Ou seja, 100x100 = 80x80 + 60x60, evidencia que o ângulo é reto. Dirão os mais entendidos que se trata de uma versão mais sofisticada do Teorema de Pitágoras, e até nem estarão errados, mas, de matemática, por hoje, é tudo.

Claro que o meu espírito matemático não podia deixar de mostrar regozijo por reconhecer naquele conterrâneo das artes mobiliárias conhecimento acima do que medianamente grassa por aí. Olhando-o com alguma atenção, situei-o numa faixa etária para a qual a escolaridade mínima obrigatória tanto podia ter sido de seis como de nove anos.
— Sabe que resultado da matemática acaba de utilizar?
Ao encolher de ombros como resposta, acrescento:
— Teorema de Pitágoras, conhece?
A um novo encolher de ombros e um ligeiro menear da cabeça em sentido de negação, contraponho:
— Estudou até que ano, Sr. Ribeiro?
A esta pergunta os ombros do Sr. Ribeiro não reagiram; num ligeiro sorriso que denotava contentamento e algum orgulho, responde:
— Sabe, entrei para as «novas oportunidades» e estou a terminar o 12º ano!
— Ah... muito bem, Sr. Ribeiro!

Encerrei a conversa por aí, pois não pretendia deixá-lo consciente de que, apesar desse extra de formação, coisas fundamentais continuavam a faltar-lhe; muito menos queria eu fazê-lo deixar de se sentir orgulhoso pela nova oportunidade que a vida aparentemente lhe dava. Mas aqui, não posso deixar de lamentar que nessas «novas oportunidades» não haja oportunidade para vincar alguns resultados tão simples e fundamentais como este do velho Pitágoras.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

João, Pedro e Sabina

Há tempos, escutava na Antena 1 uma música cantada em dueto pela argentina Mercedes Sosa e por Joaquín Sabina. O programa radiofónico era apresentado por dois conceituados jornalistas, cujos nomes nem viriam ao caso, mas, para que mais facilmente nos entendamos, digamos que um se chama João e o outro Pedro. Terminada a música, informa Pedro que o cantor é cubano. Imediatamente corrigido por João, Pedro insiste, depois duvida e finalmente concorda que o cantor é espanhol. Mais do que espanhol, digo eu, é um genuíno boémio madrileno nascido na Andaluzia. Cubano? Só se for o charuto ou o rum que muito provavelmente consome, pois, de acordo com o próprio Sabina, canta cada vez menos com a voz e mais com os brônquios.

O episódio, em si, não é importante (se o Pedro bíblico, sobre o qual assenta a madre igreja, negou Cristo três vezes e foi perdoado, por que motivo não poderia o Pedro não bíblico trocar a nacionalidade de Sabina?), mas denota a distância (musical, no caso) entre países que geograficamente se tocam e onde se fala praticamente a mesma língua, crendo-se apenas que de forma mais rápida do outro lado da fronteira (crença essa que vigora em ambos os lados). Sendo eu um apreciador da transversalidade musical do tal programa da Antena 1, cujos intérpretes, regra geral, fogem às limitadas imposições do perverso mercado discográfico, longe de mim querer que se interprete esta crónica como um pasquim acusatório do Pedro não bíblico.

Joaquín Sabina é, indubitavelmente, um dos maiores cantautores  (aprecio esta inovação linguística de nuestros hermanos) da música contemporânea, aclamado em Espanha e em todos os países não brasileiros da América Latina. Músico multifacetado, roqueiro e bluesista por formação, rumbeiro e bolerista por herança, e vice-versa; poeta de amores fracassados e frequente auto-proclamada vítima com culpa nas histórias que conta. Noctívago inveterado, reza a lenda que, certa noite, vagueava pelas ruas de Madrid, quando foi abordado por um bando de delinquentes que pretendiam levar-lhe o dinheiro, a corrente e o relógio. Reconhecido o artista, terminaram todos num bar; e ainda consta que não deixaram Sabina pagar nem uma rodada. Desse episódio resultou a faixa Pacto Entre Caballeros do disco Hotel Dulce Hotel, de 1987.

Se, por um lado, Portugal conhece tão mal a essência de um artista tão próximo como Joaquín Sabina, por outro lado, tenho fortes indícios de que o recíproco não será necessariamente verdade: no disco Dimelo en la Calle, de 2002, tem papel de destaque, em algumas faixas, uma surpreendente guitarra portuguesa. Essa mesma, a do fado, redescoberta com alma de blues — nada melhor do que um estrangeiro para nos explorar as entranhas. Fosse Sabina da terra de Tio Sam ou de Sua Majestade (a Britânica, claro) e teríamos com frequência as frequências moduladas do nosso espectro radiofónico espalhando a sua voz rouca e promovendo peregrinações a coliseus que facilmente se renderiam a seus pés.

sábado, 6 de novembro de 2010

Os três poderes

Quando relembro os tempos de escola, é com frequência que constato o modo como despontavam naqueles jovens em formação os traços fundamentais da personalidade de cada um. Ainda em tenra idade, já se notava, em alguns de forma vincada, uma dotação específica para o papel que viriam a desempenhar futuramente em sociedade.

Observo agora, muitos anos depois, a forma harmoniosa como aquela sociedade em miniatura mantinha o equilíbrio, e como apresentava já uma boa dose de apreciável organização. Identifico com relativa facilidade essencialmente três poderes: o poder do conhecimento, o poder da força (literalmente falando, pese embora a redundância) e o poder da esperteza. Este último, quase sempre o mais bem sucedido, levando em conta o pouco investimento na vertente humana e o grande alcance nas ambições.

Esses três poderes determinavam, de forma natural, aglomerações dos colegas em quatro estratos. Aos três naturalmente constituídos pelos executantes de cada um dos poderes, juntava-se um quarto estrato, constituído por aqueles que não apresentavam dote especial para nenhum poder: uma massa formada por gente sem muito conhecimento, relativamente fraca e pouco esperta. Acabam esses, muitas vezes, por constituir o elo mais forte de uma sociedade democrática, inúmeras vezes irritantes para o conhecimento, alvo natural da força e presas fáceis para a esperteza. Sociedades mais evoluídas caracterizam-se pela forma eficiente como conseguem ir munindo essa grande massa pelo poder do conhecimento.

Recordo, em especial, a turma do 5º e 6º anos de escolaridade e alguns dos intérpretes mais marcantes dos diversos poderes. Elegeria o Chico Nelo e o Rolando, respetivamente, como expoentes máximos da esperteza e da força. Nunca esqueço um fim de tarde após um teste de português no qual acabávamos de ser testados em conhecimentos sobre formas irregulares do género de certos substantivos: conde/condessa, boi/vaca, carneiro/ovelha, etc. Inolvidável ver o Chico Nelo a ponto de conseguir convencer a bela Dulce (excelente exemplar do quarto estrato e frequente alvo da cobiça da componente masculina da turma) de que a resposta certa para o feminino de bode era... bodessa! Não podia deixar que a esperteza colhesse assim, de forma tão descarada, a admiração de tão apetecível fruto. Soltei um riso tão zombeteiro que lhe cerceei os ímpetos exibicionistas alicerçados numa esperteza sem qualquer tipo de respeito pela verdade. Imperou o poder do conhecimento. No entanto, eram frequentes as vezes em que nenhum dos poderes se sobrepunha de forma tão clara, e só a intervenção do Rolando (ou algum dos seus pares) punha cobro às diversas contendas.

O Rolando manteve-se, ao longo da vida, fiel ao que sempre foi: terminada a escolaridade obrigatória, enveredou pela carreira de porteiro na discoteca local e vive hoje de uma reforma precoce, motivada por uma lesão cervical contraída no pleno exercício das suas funções. O Chico Nelo, em contrapartida, nunca teve uma noção exata daquilo que é, mas familiares influentes fizeram-no ascender socialmente, sendo hoje figura de proa na cena política da autarquia local. Consta até que se encontra bem encaminhado para um salto até Lisboa. De Oliveira, Francisco de Oliveira, é o nome afixado na porta do seu gabinete. Mas apostaria que o seu nome completo continua a ser Francisco Manuel Oliveira Barbosa.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Ex

Na língua portuguesa, o prefixo ex é normalmente utilizado para designar algo que deixou de ser aquilo que era ou de exercer o cargo ou função que tinha. Supostamente, traduz esse prefixo a ideia de menor propriedade ou conhecimento sobre a substância daquilo que fez ser mas já não é.

Caso flagrante é o de ex-marido (ou ex-mulher ou de forma mais moderna e abrangente, ex-companheiro(a)). Concentrar-me-ei apenas no caso do ex-marido, para mais claramente explanar as minhas ideias sem necessidade de recorrer a um número excessivo de parêntesis, mas advirto que a situação não é específica deste género. Ex-marido nenhum, em seu perfeito juízo, se julga melhor conhecedor da pessoa que o levou à função e posteriormente o eximiu, após ser etiquetado com o prefixo de ex. Ex-marido nenhum, em estado de sã consciência, avança com palpites sobre o melhor caminho a seguir pela ex-mulher. Pelo contrário, é frequente ouvir-se afirmações do tipo «fiquei sete anos casado com aquela mulher e não a conhecia». Ou então, «não reconheço a pessoa com quem estive casado». Ou até, «mudou muito, nem sei o que dizer».

Pensar-se-á que o significado do prefixo ex fica totalmente explicado com este exemplo. Lamento informar, mas tal não é verdade. Nem por sombras. As ambiguidades da língua portuguesa são de tal forma profundas, que esse mesmo ex também pode ser utilizado para designar precisamente o contrário do acima ilustrado. Pode-se, sem margem alguma de erro, utilizar o ex para transmitir a ideia de que o sujeito conhece mais do assunto, reconhece melhor o seus males e, mais do que ninguém, prescreve com mestria e precisão as terapias acertadas.

Nessa nova categoria de ex, destaco a função de ex-ministro das finanças. Alguém me aponta um que, após etiquetado com o tal prefixo, não tenha passado a sumidade em assuntos de finanças? É ver os gurus desfilarem nos órgãos de comunicação social, consultados a toda a hora, sem o menor questionamento sobre nenhuma das suas opiniões. Opiniões essas, devoradas com sofreguidão, como se de mandamentos divinos se tratassem. As opiniões presentes, claro está, não as passadas. Revelam-se, no cargo de ex-ministro, profundíssimos conhecedores dos detalhes mais íntimos das finanças da nação, detetando na perfeição os seus males e avançando com terapias supostamente infalíveis.

Não sei que bênção divina (só pode ser divina) lhes confere tamanho banho de sapiência após o desempenho do cargo ministerial. Num golpe sagrado, passam de verdadeiros inaptos que engrossam um extenso rol de ministros falhados, a verdadeiros oráculos na matéria. No caso de Teixeira do Santos, parece-me que a bênção divina já o ungiu: as suas últimas medidas foram apresentadas de forma tão convicta e com terapias tão acima de qualquer suspeita, que me parece justo encaminhá-lo, o mais rapidamente possível, para o merecido lugar de ex-ministro, no Olimpo dos profundos conhecedores das mais íntimas finanças da nação.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Bad English

"You can fool some of the people all of the time, 
and all of the people some of the time, 
but you can not fool all of the people all of the time".  
Abraham Lincoln.
 
Tenho um amigo que defende uma original teoria linguística. Segundo ele, a proficiência numa língua estrangeira pode ser avaliada pela capacidade de fazer uma piada nessa língua: se o interlocutor ri, a língua está num bom nível. Sendo esse meu amigo dotado de um excelente sentido de humor, é natural que o critério funcione perfeitamente com ele. Contudo, sujeitos que revelem dificuldades nas investidas pelo reino do humor, poderão, com base nesse critério, ter sérios problemas na avaliação da sua proficiência em outras línguas: não provocado o riso, ficará sempre a dúvida se há pouco domínio da língua estrangeira ou fraco sentido de humor.

Vem isto a propósito do primeiro ministro de Portugal. Há quem veja no discurso proferido por José Sócrates no Fórum de Líderes da Universidade de Columbia, Estados Unidos, a prova de que o seu inglês é de má qualidade. Pode ser. Mas eu inclino-me mais para pensar que Sócrates anda apenas em maré de azar nos seus discursos internacionais. Não esqueçamos que Sócrates fez um bom curso de inglês técnico, tendo chegado a abdicar do descanso dominical para melhor se dedicar à disciplina! É certo que a universidade onde fez o curso foi encerrada, mas confesso que nunca entendi as causas que ditaram o encerramento desse estabelecimento de ensino. Algo entre ignomínia, maledicência, botabaixismo ou perseguição política, deve ter contribuído de forma decisiva para o fatal veredicto.

Dois episódios me levam a acreditar que José Sócrates anda mesmo nessa tal maré de azar: há tempos, discursava numa cimeira internacional, em tom sério e empolgado (praticamente o único que o curso de oratória lhe deu a conhecer), sobre os benefícios do Magalhães, quase provocando a gargalhada geral; dias depois, resolvia fazer uma piada em inglês (bad English, para ser mais preciso) e não houve uma única alma piedosa que tivesse esboçado sequer um ténue sorriso. Certo de que Sócrates dá algum valor a questões de imagem, e tratando-se efetivamente de maré de azar, ousaria recomendar que tentasse fazer algo para provocar a sorte. E já que a universidade onde se formou foi encerrada, que tal uma boa revisão do seu sentido de humor?

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

La Nana

"E se tu olhares muito tempo para um abismo, 
o abismo também olha para dentro de ti"
Friedrich Nietzsche

Na semana passada, o mundo viveu momentos de incomum afetividade e solidariedade, motivados pelo resgate dos 33 mineiros soterrados numa mina do deserto de Atacama. Num tempo em que esse mesmo mundo é desregulado pelo nervosismo de mercados financeiros, foi bonito ver um esforço ponderado e paciente, com empenhamento à escala mundial, para resgatar aqueles soterrados. Volvidos 69 dias, quase um terço dos quais na completa incerteza sobre quanto lhes sobraria de vida subterrânea, os mineiros puderam de novo ver, com o olhar ainda baço, o almejado mundo que nunca mais os verá da mesma forma.

O Chile foi, por força dessas circunstâncias, o país da moda nas últimas semanas. O Chile será também, por força de outras circunstâncias, o país dos fazedores de modas nos tempos vindouros. Relatam agora algumas notícias que para lá convergem já olhares hollywoodianos da cinematografia; para lá correm apressadamente produtores e guionistas sedentos pelos direitos de uma história que promete render milhões.

Esse mesmo mundo, que durante décadas não soube recompensar condignamente o trabalho árduo dos mineiros, quer agora recompensá-los desmesuradamente pela simples coincidência de uma quase fatalidade. Oxalá saibam aproveitar a inesperada benesse que a vida surpreendentemente lhes dá; oxalá tenham arcaboiço psicológico para aguentar a pressão conferida por súbitas e inesperadas doses de fama, fortuna e glória; oxalá não sejam agora largados ao abandono das luzes da ribalta; oxalá não venham a desejar a vida simples e pobre de anónimo e explorado mineiro; oxalá não desejem, num caso extremo, ver-se de novo enfiados no fundo da mina que pacata e generosamente os acolheu durante as quase sete dezenas de dias.

O episódio já está suficientemente documentado através da cobertura televisiva do pré-resgate, do regate e do pós-resgate. Mas há muitos que querem mais: querem agora criar ficção em cima da realidade, multiplicar fortuna em nome da arte. Por coincidência, alguma da mais bonita arte cinematográfica que me foi dada a conhecer nos últimos tempos foi precisamente no Chile, através da obra de um jovem realizador chileno, de nome Sebastián Silva; sem cachês de milhões nem guionistas plastificadores de histórias; com uma câmara trémula em planos fechados, conferindo perturbação a personagens já em si perturbados. Rodeado por um naipe de atores de grande craveira e pouca projeção, Sebastián Silva escreveu e dirigiu uma história simples, sensível e profunda.

Coincidência das coincidências, retrata também esse filme um complicado resgate. Um regaste por vezes tão difícil e surpreendente quanto o dos mineiros a mais 600 metros de profundidade: o resgate de quem se perde no abismo do interior de si mesmo. Pelos mineiros, o mundo procurou e, felizmente, encontrou. Por gente como a protagonista do filme, o mundo passa frequentemente sem ver. Por mais perto que passe.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A pen do Senhor Ministro

O computês e o economês (provavelmente a par das letras do David Fonseca) são os submundos da língua  portuguesa que mais contribuem com estrangeirismos para o saber popular. Quase sempre desnecessárias (principalmente nas letras do David Fonseca), há palavras que facilmente nos invadem, sem que se entenda muito bem porquê. Nos últimos anos, a cada apresentação do orçamento de estado, são as pens que saem da boca de jornalistas e políticos com uma frequência quase assustadora.

Pen? Caneta? Causava-me tanta estranheza a adoção desse termo para tal acessório, que decidi tentar obter no dicionário inglês algum significado mais oculto da palavra; algo que desse a ideia de objeto para enfiar num buraco (a porta USB, no caso), pensava eu na minha ignorância. E a explicação lá estava, não com o sentido do tal enfiar no buraco, mas uma explicação que servia perfeitamente para o que eu procurava: «um lugar pequeno de confinamento ou de armazenamento» (tradução inglês-português feita por mim mesmo). Devo confessar que, com os orçamentos de estado que temos tido, a ideia de algo para (nos) enfiar num buraco me parecia mais consentânea com a função do objeto. Só que nunca suspeitei que o termo não se usasse em inglês — no americano, pelo menos.

Uma das coisas que aproveito para fazer quando passo pelos Estados Unidos é comprar alguns acessórios informáticos a preço de banana. Há uns anos, em São Francisco, Califórnia, tentei comprar uma tal pen. «Pen... Pen drive», dizia eu para o vendedor. À medida que aumentava a minha insistência, aumentava também a cara de estranheza do fulano. Até que, em pouco tempo, já só sobrava entre nós um recíproco e embaraçador olhar de estranheza: ele, porque não fazia a mínima ideia do que eu lhe pedia; eu, porque não entendia como era possível ele não entender que eu queria, simplesmente, uma pen drive. Felizmente, tive a brilhante ideia de traduzir para o inglês «objecto pequeno e portátil que serve para enfiar em portas USB de computadores e para lá transferir dados». De imediato, o vendedor desfez a cara de estranheza e soltou numa exclamação redentora do meu embaraço: «Oh, a flash drive!». Isso mesmo, pá!

Devo mencionar que, apesar do relativamente prolongado impasse entre mim e o vendedor, em momento algum ele me mostrou a caneta (de escrever) que tinha no bolso. Ou seja, ele partiu e manteve-se no princípio de que eu não era um tipo completamente desorientado que entrava numa loja de informática achando que entrava numa papelaria. Foi muito bonito sentir, da parte dele, elevação moral e respeito por este desorientado em terra estrangeira.

Vamos fazer um trato, Senhor Ministro? Promete que não nos enfia mais nenhuma dessas pens? Se por outro motivo não for, pelo menos, não contribui também o senhor para que mais portugueses façam figuras tristes no estrangeiro quando se expressam no inglês aprendido por cá.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um dia histórico

Hoje vivemos um dia histórico, dizem alguns. Justificam-no, afirmando que se corrige essa imoralidade dos anos de gratuitidade de algumas auto-estradas (vulgo SCUTs). As SCUTs, é bom lembrar, foram, na maior parte dos casos, construídas onde deviam ter sido construídas estradas (ICs) que viriam substituir outras sem um mínimo de condições. Sabe-se lá por qual motivo (eu desconfio), achou-se por bem fazer a coisa em grande e dar um presente envenenado ao povo. Triste povo sem memória!

O princípio do utilizador-pagador, continuam. Os da grande Lisboa, por exemplo, com opções como autocarro, barco, comboio e metro (todos com tarifas financiadas pelo estado) pensam que o certo é mesmo isso. Até é ecologicamente correto, ora. Como se o carro fosse sempre um luxo! Saibam que precisamente esses que necessitam do carro para transitarem nas SCUTs já pagam altíssimos impostos em IA, IC e IPP. Impostos esses que, bem administrados, facilmente dariam para manter uma rede de estradas decente. Lamento muito que o pseudo-moralismo elementar do utilizador-pagador funcione apenas num sentido, senão eu, que utilizo pouco o carro e pago muito em impostos para o ter, ainda iria buscar um bom dinheiro de volta.

Eu moro no Porto, trabalho no Porto e até vou a pé para o trabalho. Mas ainda me lembro do tempo em que vinha de uma cidade a cerca de 30km do Porto. Para estar aqui às 8:30, tinha como única opção um autocarro (com tarifa não financiada pelo estado) que me fazia acordar às 5:30 da manhã. Depois comprei o primeiro carro e, pela velha estrada com curvas e buracos, já conseguia ganhar mais uma hora de descanso matinal (e outra de descanso vespertino, claro). Os que continuam no movimento pendular para o Porto (e são muitos, pois nem todos conseguiram crédito para um apartamento no grande centro), desde há uns anos que com as SCUTs ganham mais uns bons minutos de descanso.

Já se perguntaram por que motivo queria o governo introduzir portagens apenas nas SCUTs do Norte? Não foi por nenhum argumento justo com base em critérios objetivos, pois o Tribunal Administrativo do Porto acaba de dar razão a uma providência cautelar refutando esse argumento. Não vou cometer o erro de querer avaliar intenções ou insinuar influências de amigos, mas vou correr o risco de, com base numa observação atenta ao mapa de Portugal, dizer o que me inspira a geografia: as SCUTs do Norte são as únicas que fazem concorrência às auto-estradas da BRISA! Além do mais, ninguém questiona que a forma mais natural (e barata) dos utilizadores pagarem as portagens nas SCUT assente num modelo de elevados lucros para essa mesma BRISA? Podem chamar-lhe chip ou DEM, mas aquilo não deixa de ser o negócio da Via Verde!

Este é também um dia histórico, porque começa a ser debatido na assembleia da república o orçamento mais penalizador para quem vive do trabalho de que há memória em Portugal. O drama, o grande drama, é que nenhuma das medidas que anunciam virá resolver problema algum, mas sim continuar a desgraçar os mais desgraçados e manter a graça dos eternos agraciados. Não vejo nestas medidas sequer um único paliativo para o cancro nacional.

P.S. (salvo seja): Eu nunca gostei dessas conversas de "os Lisboa e os outros", pois acho que o país já é pequeno demais para ser dividido. Mas, caros amigos lisboetas, ajudem-me. Tentem, pelo menos, subir ao telhado e ver um pouco mais além do que costumam ver da janela.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Os responsáveis

Desde há muito que deixei de ter paciência para os entediantes discursos das figuras proeminentes da cena política nacional nos feriados que assinalam as grandes efemérides do passado. Como sei que costumam ser portadores de sérios avisos à navegação, para compensar essa minha falta de paciência pelos discursos, costumo lançar um olhar ao resumo noturno dos mesmos em algum canal de notícias.

Das comemorações do 5 de Outubro, uma palavra várias vezes repetida por Cavaco e Sócrates prendeu a minha atenção: responsável. Imediatamente pensei na sua vertente substantivada e nos 25 anos da pós-adesão à comunidade europeia — dizem que agora é união europeia, mas eu vejo isto muito desunido. Se a Wikipédia não me falha, desde 1985, Cavaco e Sócrates contribuíram com cerca de 3/5 de governação. Cavaco, esbanjando fundos comunitários, criou um falso estado de graça que até há uma semana atrás Sócrates teimou em não querer deixar de ver. Quem mais do que estes dois poderia ser responsável?

Julguei que Cavaco e Sócrates, num inédito e insólito ato de contrição, se declaravam responsáveis pela situação catastrófica em que colocaram o país e, num discurso de muita dignidade e nobreza — pese embora a celebração da república —, pediam desculpa pelo incómodo e, tal como Guterres ou Barroso, decidiam fugir para bem longe. Ou decidiam afastar-se para andar por aí, como Santana. Tudo isto, pensei eu num breve instante. Muito mais breve do que o tempo que levei a escrever este parágrafo.

Só nos posteriores debates esmiuçadores dos discursos no tal canal tomei consciência de que o responsável a que se referiam era afinal Passos Coelho. A palavra não era utilizada de forma substantivada para tempo passado, mas de forma adjetivada para tempo futuro (se o houver...) — esta língua portuguesa é um perigo!

Como podem querer tornar já tão responsável o pobre Coelho? Não repararam que acaba de chegar à linha da frente? Colocando-lhe tanta pressão em cima, corre-se o risco de fazê-lo mesmo adotar uma postura muito pouco responsável. Confesso que nem veria com maus olhos tal possibilidade, pois evitando os passos de responsáveis anteriores, há sempre a possibilidade do país dar uma guinada e entrar no bom caminho.

Reservei um último parágrafo para um político que, não sendo diretamente responsável pelo atual estado de desgraça nacional, viabilizou a responsabilidade de outros: Paulo Portas. Apesar da menor influência, provou ser dotado de maior visão de futuro e, no momento em que o país começava a dar sinais de se afundar, tomou a sábia decisão de dar seguimento a um milionário contrato de aquisição de submarinos. Assim, quando o país afundar de vez, teremos lugar para salvar uns quantos. Talvez esses depois possam voltar cá para repovoar responsavelmente este cantinho da Europa unida.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Passo em frente e pé atrás

Portugal é um país com enormes dificuldades para abraçar a modernidade. Quando se vislumbra um passo em frente, há sempre alguém com responsabilidade nos desígnios da nação que teima em ficar de pé atrás. Não é por acaso que Chico Buarque e Ruy Guerra, num magistral soneto de 1972/73, onde melhor do que ninguém caracterizam o sentir-agir português, referem num dos versos que "há distância entre intenção e gesto".

Nos tempos que correm, um facto e dois episódios confirmam esta ambígua natureza lusitana que tanto nos impede de um lançamento arrojado e definitivo na vanguarda do mundo moderno. O facto que constitui o passo em frente é, indubitavelmente, a introdução no código civil português da possibilidade de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Sendo certo que o número de sexos tem vindo a aumentar, nada melhor do que criar um quadro legal que contemple todas as variantes possíveis como juridicamente naturais. Em sentido contrário, dois episódios lamentáveis materializam o tal pé atrás, um proveniente do mundo do desporto e o outro do da política.

No que ao desporto diz respeito e indo direto à questão: havia necessidade do treinador Paulo Sérgio vir esclarecer que não se passou nada entre Liedson e Djaló no balneário do Sporting? O simples esclarecimento denota preconceito! O que acontece entre eles no balneário pode importar, no máximo, à Floribela — para quem não sabe, Djaló é o nome de um jogador de futebol do sexo masculino, casado com uma celebridade chamada Floribela. Se alguma vez não se passar nada entre Djaló e Floribela no balneário do Sporting também haverá um esclarecimento do Paulo Sérgio? É certo que o Sporting já não representa assim tanto no panorama futebolístico nacional, mas enquanto contarem com o marido da Floribela nas suas fileiras é bom que não se esqueçam das responsabilidades que têm, principalmente entre o público infanto-juvenil.

Já na esfera política, a questão é mais séria, pois envolve o presente e o mais que provável futuro primeiro-ministro (deus nos salve!) deste país, respectivamente José Sócrates e Pedro Passos Coelho de suas graças. A minha crítica é dirigida exclusivamente a este último, pois o primeiro até foi quem viabilizou legalmente as ligações entre pessoas de sexos alternativos — não foi só nos fatos Hermès e nos computadores Magalhães que trouxe a modernidade ao país!  Havia necessidade de Passos Coelho referir que nunca mais se encontrará a sós com José Sócrates? Tentará convencer-nos, com aquela pinta de galã, de que nunca ouviu um piropo em privado? Alguma vez se queixou? Se tivesse vindo da Joana Amaral Dias também se queixava?

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Carta aberta a António Mexia

Exmo. Senhor Mexia,

Antes de mais, o meu pedido de desculpas por tratá-lo apenas por Senhor. Sei quão importantes são os títulos para o nosso povo, mas receando cometer erro na escolha entre Arquiteto, Doutor, Engenheiro ou Professor, optei por tratá-lo, simplesmente, por Senhor — pior do que a ofensa da omissão será, certamente, a ofensa do trato inadequado.  Infelizmente, uma busca na internet não me esclareceu esta dúvida, prova de que na mais eficiente fonte de informação da atualidade, tal como na tarifa energética, ainda há um certo défice.

Para não importuná-lo mais do que o estritamente necessário, vou direto aos factos: por um lado, tomei conhecimento de que o senhor vê com muito bons olhos (e bonitos óculos, diga-se de passagem) que académicos portugueses dêem (comprem, será mais adequado) aulas em universidades americanas; por outro lado, tenho já uma relação próxima com várias dessas universidades, constando no meu curriculum vitae palestras em Austin, Houston, Kennesaw, Maryland, Pennsylvania, New York, Northwestern e Stony Brook.

Esclarecidos os factos, vamos à questão: vê o senhor com os tais bons olhos e bonitos óculos a compra de umas aulas para mim em alguma dessas universidades? Devo confessar que acho a pergunta um pouco descabida, mas o importante é que o senhor não acha. Garanto-lhe que não terei dificuldade em encontrar quem generosamente nos acolha em alguma delas, a mim e ao dinheiro que o senhor luminosamente subtrai aos portugueses e depois tão bem administra. Cientes de que muito recentemente o nosso país entrou em crise, os americanos (bom povo) facilmente compreenderão que não será possível continuar a comprar aulas para os nossos académicos a 3 milhões de euros, mas acredito que com uns 300 militos já possamos deixar muita gente satisfeita. Eu incluído.

Sei que tenho o handicap de não ter sido o ministro que tutelou a empresa que o senhor tem dirigido nos últimos anos, nem tão-pouco ter posto os cornos a alguém no parlamento. No entanto, acredito que o senhor, com a sua enorme influência, conseguirá facilmente desenrascar-me o cargo de Ministro da Economia no próximo governo (não deve andar longe...). Garanto-lhe que não serei ingrato a ponto de esquecer que uma mão lava a outra. Prometo até colocar os dedos na testa e apontá-los na direção de quem o senhor quiser (Francisco Louçã incluído) logo na primeira sessão parlamentar.

Acredito que pense que a Matemática não é uma área com muita afinidade com a Economia, mas garanto-lhe que é. John Nash (o Nobel da Economia, conhece?), por exemplo, necessitou de muita matemática para elaborar as suas reputadas teorias. Eu, caso o senhor não me ajude, precisarei forçosamente de ser um excelente economista nos tempos que se avizinham para conseguir manter esta minha vida faustosa que o nosso governo resolveu amputar em 10% para conseguir não piorar a vida decente de pessoas como o senhor. Não é uma queixa, o governo está certo. As suas férias de Inverno na Suíça, o recente modelo Aston Martin ou uma nova casa em Sintra serão certamente mais importantes do que a minha mensalidade do empréstimo bancário.

Com os melhores cumprimentos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Monarquia vs. República

Há por aí uns saudosistas a tentar impingir a ideia de que a solução para Portugal passa por um retorno à monarquia como se constata, ainda há quem se preocupe com o futuro da nação! Não sei praticamente nada sobre esses, mas se me deixarem recuar aproximadamente um século, talvez consiga dizer alguma coisa sobre uns parentes mais ou menos próximos. 

Muito honestamente  — às vezes tenho disto  , acho a questão monarquia vs. república completamente irrelevante. Pode ser monarquia, república, teocracia ou outra cia qualquer que o fado não mudará facilmente para este eternamente adiado projeto de país. O problema é crónico e está nas elites despudoradamente sugadoras e no povo eternamente pasmado.

Pese embora a falta de relevância da questão, e apesar de nem sempre nutrir especial simpatia por presidentes da república
podia deixar no singular, mas prefiro que não se desconfie que não gosto do atual, continuo com uma vincada preferência pela república. Em termos de funcionamento das instituições é tudo mais ou menos a mesma coisa; contudo, salvo casos em que a produção de candidatos seja muito fraca, há sempre a oportunidade de renovar a esperança a cada cinco anos. 

Contra a monarquia tenho ainda duas embirrações: uma em abstrato, outra em concreto. Uma delas  — embirração em abstrato  — é a questão do sangue azul que me provoca urticária clubística. Mas, mesmo ignorando essa tal cor de sangue, conjeturar a possibilidade de Duarte Pio  — embirração em concreto  — entrar em cena e deixar descendentes ao leme do país durante gerações deixa-me com um certo sentimento de culpa, achando que podia ter a nobreza  — salvo seja  — de fazer algo em prol das gerações vindouras. Especializar-me em regicídio não está nos meus planos...

Só um pequeno aparte final: há muito quem utilize o "dom" precedendo o Duarte Pio  — ditará a etiqueta? 
 —, mas sendo eu um anti-monárquico convicto, recuso-me a utilizar a palavra para outra coisa que não seja o vinho da região de Viseu. Bem sei que as palavras não têm a mesma ortografia, mas aqui no Porto a fonética é praticamente igual e, em qualquer dos casos, diferente do resto do país. Há até quem assegure que o Porto é uma "naçom".

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O arquiteto Costa

Ao contrário do que diz o povo, em Portugal, o hábito faz o monge. A comprová-lo estão as recentes medidas anunciadas pelo diretor desportivo do Sporting Clube de Portugal. Segundo notícias veiculadas na comunicação social, os funcionários do Sporting estão agora proibidos de usar calças de ganga no seu posto de trabalho, desaconselhando-se ainda o uso de calções, bermudas, ténis e chinelos, e privilegiado-se o uso do blazer. Para quem não sabe, o Sporting é uma agremiação desportiva que, segundo consta, tem como funcionários alguns jogadores de futebol.

Das notícias vindas a lume não ficava claro se a medida devia ser seguida à risca (ou ao quadrado, pelo que se conhece do tal diretor desportivo) por todos os funcionários. Em caso afirmativo, teremos na próxima jornada da Liga Portuguesa uma sui generis equipa de futebol em blazer. No posto de trabalho, é claro, mais conhecido como relvado. Sendo o Sporting um clube vincadamente da aristocracia, o disparate deve estar na minha cabeça.

O episódio traz-me à memória o registo fonográfico de um encontro histórico, em 1968, entre Vinícius de Moraes e Amália Rodrigues, em Lisboa. Presentes nesse encontro, na casa de Amália, estavam também Natália Correia e Ary dos Santos, entre outros, tendo a conversa e a música fluído naturalmente até altas horas da madrugada. Em dado momento, Vinicius é convidado a pronunciar-se sobre a impressão que leva dos portugueses. Entre muitas palavras amáveis, aproveita também para apontar-nos um aspeto negativo: uma exagerada tendência para o formalismo! É interessante constatar que, volvidos mais de 40 anos, a sua impressão dos portugueses continua tão atual.

Relativamente à agremiação desportiva, causa-me ainda alguma perplexidade que, pese embora o acentuar do bom e velho formalismo lusitano, continuem a chamar o seu diretor desportivo singelamente de Costinha. Não combina. Valeria a pena comprarem-lhe um título. E não me refiro a título desportivo, pois compras dessas são especialidade de outra agremiação mais a Norte. Um título académico, como doutor, engenheiro ou arquiteto. E, estando para ele reservado o papel de obreiro-mor na construção deste novo Sporting, julgo que Arq.º Costa seria o ideal.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Superstições

De um modo sucinto, eu definiria a superstição como o estranho hábito de aumentar a complexidade de coisas que são, por natureza, simples. Quase sempre assentando em dados muito pouco credíveis, principalmente do ponto de vista estatístico.

Superstições são um mal da humanidade, havendo pessoas mais ou menos supersticiosas, consoante o grau de esoterismo que as carateriza. Tenho uma amiga que engravidou e se encontra com sérios problemas para escolher um nome para a criança. Simplesmente, porque desenvolveu uma disparatada superstição com nomes. Segundo ela, nomes determinam a personalidade e, em muitos casos, até características físicas da pessoa. Começou por exemplificar:
— Nome masculino: pessoa calma, chegada a um bom copo e que faz pelo menos um grande disparate na vida.
— Não faço ideia.
— Pinho, Vilarinho...
— Manuel?
— Ora, nem mais!
— Até entendo que isso do Pinho ter colocado os cornos no parlamento foi um grande disparate, mas qual foi o disparate do Vilarinho?
— Mandar o José Mourinho embora do Benfica, não achas?
— Sem dúvida!

Claro que não me mostrei convencido com este exemplo. Ela prosseguiu:
— Nome feminino: tendência para acentuada feiura, especialmente com o avançar da idade.
— Hum... não vejo qual.
— Ferreira Leite, Moura Guedes...
— Ah, Manuela!
— Aí está.

Além de supersticiosa, essa minha amiga revelava-se também muito pouco generosa com a beleza de pessoas provavelmente belas. Obviamente, eu continuava sem me mostrar convencido, e menos fiquei ainda com o ignóbil exemplo que a minha amiga apresentou depois. Digo eu:
— Mas isso é alguma superstição com nomes em geral, ou apenas com Manéis e Manelas?
— Com nomes, claro — disse ela. E prosseguiu: —Masculino: arrogante, com o ego do tamanho do mundo.
— Não estou a ver.
— Não?
— Não mesmo!
— Mourinho, Saramago, Sócrates...
— Estás maluca?!

Eu não tinha dito que era uma superstição disparatada? Não faz o menor sentido! Essa minha amiga precisa de um tratamento urgente. Superstições levadas ao extremo podem colocar em causa valores tão fundamentais como o da amizade.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Bares de tapas


Viagens que tenham por destino cidades latino-americanas não brasileiras são normalmente mais cómodas com uma escala em Madrid. Mesmo para as cidades brasileiras, se por comodismo entendermos economizar umas dezenas de euros, poderá também ser mais cómodo fazer a tal escala em Madrid. Estranha e misteriosamente, é por vezes mais barato viajar em voo TAP (via Lisboa, claro) a partir de uma cidade europeia do que começar a viagem em Lisboa ou no Porto.

No caso de Madrid, até consigo entender que os aviões da TAP aproveitem para abastecer os depósitos a preços muito mais convidativos, mas para outras cidades europeias onde os combustíveis possam ser mais caros (se as houver) não consigo encontrar justificação plausível. A aviação comercial é decididamente uma área difícil de entender. Por vezes fico com a sensação de que, suportadas nas ajudas financeiras dos diversos estados, as principais companhias aéreas (as de bandeira, como sói dizer-se) existem mais com o propósito de se aniquilarem umas às outras do que propriamente para tratarem da sobrevivência.

Mas voltando a Madrid. Ao tema de conversa, claro. Trocar uma escala em Lisboa por outra em Madrid é normalmente um prazer. Se o tempo der (e quase sempre dá), significa também trocar as diversas viagens nos autocarros da Groundforce (parte da TAP subespecializada em maltratar clientes, disfarçada de outra empresa para não prejudicar o bom nome da companhia aérea) por um cómodo e eficiente metro até ao centro de Madrid e aproveitar o muito de bom que a cidade tem para oferecer (Sara Carbonero não incluída). Se para mais não der, uma ligeira peregrinação por uns bares de tapas já justifica a viagem. Muitos crêem que de Espanha nem bom vento nem bom casamento, mas sem receio da acusação de traição à pátria, acrescento também que de menos bom é praticamente só isso: vento (no inverno) e casamento (o ano todo). E no que ao casamento diz respeito, confesso que tempos houve em que cheguei a duvidar.

Um dos setores no qual os bons hábitos espanhóis deviam servir de modelo aos portugueses é o da restauração. Não o da refeição formal, com mesa, talheres, sopa, prato principal, sobremesa, café e conta que não serve de fatura (um traço de informalidade!), mas o das tapas ao balcão, vinho a copo e sobras no chão. Que diós me perdoe a heresia, mas o que de similar se poderia considerar por cá seriam os snack-bares. Em termos de quantidade, não tenho a mínima dúvida, pois estou absolutamente seguro de que Portugal é o país do mundo com mais cafés/restaurantes com a designação de snack-bar por quilómetro quadrado. O mau uso da palavra é tanto que até dicionários respeitáveis (como o Google Tradutor, por exemplo) já consideram a palavra como bom português. Infelizmente, na maioria desses tais snack-bares entende-se por snack uma torrada, um prego em pão ou uma sande mista. Que pobreza lusitana!

Finalizo com um pequeno aparte: há muitos que dizem sandes em vez de sande, mas confesso que nunca entendi se são exatamente a mesma coisa. Será que a sandes mista tem mais fatias de queijo e fiambre?


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Colaboradores

Poderá parecer presunção minha, mas não deixarei de referir que, muito antes da tanga do Durão Barroso ou do ataque das agências de reitingue (uma pequena contribuição minha para a modernidade em economês), eu já tinha previsto uma terrível crise económica para Portugal. Não sou minimamente entendido em macroeconomia e desconfio de praticamente todos os que se dizem entendidos, mas indícios fortes me mostravam que a tal crise se aproximava. E não me baseava em crença ou superstição, pois a única que tenho é a de achar que não as tenho.

A história começa com um telefonema anunciando a oferta de um ano de assinatura de uma revista chamada Exame e que, nas palavras de quem me tentava aliciar, era praticamente irrecusável. Desde tenra idade me instruíram a não aceitar ofertas de estranhos, mas daquela vez, talvez por no meu subconsciente pairar a ideia de que Exame era o nome de uma revista dedicada aos problemas da avaliação no Ensino Superior, aceitei a oferta de um ano de assinatura gratuita dessa tal revista. Devo aqui abrir um parêntesis para justificar o aparente delírio do meu subconsciente, deixando claro que, à data, a faculdade onde eu trabalhava permitia tantas variantes para épocas de exame que a existência de uma revista especializada no assunto não era, em si, uma ideia completamente estapafúrdia. De acordo com o meu subconsciente, é claro.

Quando mais tarde tomei conhecimento de qual era a especialidade da revista, imediata e levianamente concluí que, na melhor das hipóteses, a revista não me interessava — cheguei até a pensar anular a generosa oferta. Claro que estava equivocado. Com o tempo fui-me apercebendo de que o meu linguajar economês aumentava em flecha e a minha intuição sobre o futuro económico da nação aprimorava significativamente. Foi precisamente a questão linguística que mais me impressionou — até porque da minha evolução intuitiva só mais tarde tive consciência. Para ultrapassar barreiras de linguagem, recorro normalmente a um dicionário. No caso dessa revista, e apesar de se chamar Exame — e não Exam — e os textos virem supostamente escritos em português, precisava de uns dois ou três: o de inglês, o de inglês-português e, nos casos mais intrincados, o de português. Desde a adolescência que não sentia tanta evolução no nível do meu inglês.

No que ao linguajar diz respeito, e ignorando a pertinente questão do idioma, duas ideias fundamentais me chamaram a atenção. Em primeiro lugar, surpreendeu-me a ousadia dos gestores e administradores portugueses que agora se dizem CEOs. Tanto relógio Rolex, tanto carro topo de gama e vida faustosa num país à beira da penumbra — já na época... — e ainda se autoproclamam de CEOs? Não encontram na língua portuguesa palavra mais adequada do que essa homófona daquela que logo lembra ao comum dos mortais viverem os gestores em algo muito parecido com o paraíso? Recomendaria mais discrição nessa designação, pois não é necessário — nem prudente — imbuírem a terminologia da ideia de que levam uma vida celestial. Para o povo — sempre invejoso para com os bem-sucedidos — já basta saber que a elite económica tem fantásticos rendimentos em salários, prémios, cartões de crédito, fugas ao fisco e ajudas do estado.

Mas o que mais me surpreendeu — e decisivamente contribuiu para eu desenvolver a percepção de que a terrível crise se aproximava — foi, edição após edição, ir constatando que as nossas empresas atualmente se dividem tão-somente em CEOs e colaboradores. Agora não há funcionários nem trabalhadores. No máximo do mais trabalhoso, presta-se colaboração em alguma empresa. Em part-time, imagino eu, ou quando sobra tempo entre passatempos. Seria necessária muita genialidade para intuir que a economia do país inevitavelmente entraria em colapso?