quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Abel Carleson

Hoje sentei-me ao lado do Abel Carleson. Dito assim, parece que vim num voo do Brasil sentado ao lado de um jogador de futebol. Mas não, ainda estou na Suécia e, melhor dizendo, sentei-me ao lado de Lennart Carleson, prémio Abel. Prémio instituído em 2002, atribuído pela Academia Norueguesa de Ciências e Letras em homenagem ao matemático norueguês Niels Henrik Abel; uma espécie de prémio Nobel para matemáticos.

Lennart Carleson, já acima dos 80 anos de idade, é uma daquelas figuras simpáticas que nem precisa dizer nada para que logo se perceba que só pode ser simpático; aliás, presença assídua nos seminários do Instituto Mittag-Leffler, prima pela discrição e silêncio. Talvez por na audiência marcar presença outra figura (grande, mas menor) que não perde uma oportunidade para se pavonear, dir-lhe-á o bom senso que não abra muitas brechas para o pavoneamento alheio.

Coincidiu de numa das palestras de hoje eu ter ficado sentado precisamente ao lado direito de Carleson. Não sei bem porquê, mas faço questão de mencionar que me encontrava à sua direita. Sendo isso bem frisado em textos litúrgicos, alguma vantagem deve advir de se estar em tal posição relativamente às divindades (nada tem a ver com política, graças a deus, e passe a redundância, pois isso de direita e esquerda em política é coisa bem mais recente que a bíblia). Lá pelo meio do seminário, aproveitei a parte mais técnica de um assunto que não me dizia muito para desligar da palestra e confirmar numa folha que tinha em frente uma trivialidade sobre espacos Lp — mesmo as trivialidades, ou principalmente estas, é bom testá-las bem para que não se transformem em areias movediças sobre as quais assentam edifícios matemáticos.

Agora vejo que devia ter tido mais cuidado com os meus rabiscos, principalmente estando sentado ao lado de quem estava. Mas prognósticos a posteriori são sempre fáceis de fazer. Da fisionomia simpática de Carleson fazem parte um sobrolho espesso e franzido, característica que nem sempre abona muito em favor do ser simpático, mas ele será certamente uma das exceções à regra. No final notei-lhe o tal olho com sobrolho franzido levemente desviado para cima da folha onde eu rabiscara a tal trivialidade. Certamente pensou (em sueco, claro), «agora já temos visitantes cujas contas andam em torno destas trivialidades?». Cogitei esconder a folha, virar a página, tentar desviar-lhe o olhar, mas já de nada valeria: brilhante como é, deve ter um implacável olho fotográfico e uma memória de elefante.

Dia de muito azar, pois em momentos similares de palestras anteriores até tinha aproveitado para umas continhas com espaços BMO, tópico muito mais condizente com a nobreza do instituto. Rabiscos ainda distantes do que se espera de alguém que visita o Mittag-Leffler, mas acredito que já desse para enganar um pouco; ou, pelo menos, deixar o Carleson na dúvida. Enfim, um azar tremendo. Tão improvável quanto sair de carro numa manhã fria de inverno, o sujeito da frente parar no sinal laranja e seguir no passeio ao lado uma jovem de minissaia muito curta. Muito pouco provável a conjugação dos acontecimentos, mas previsível o resultado.

4 comentários:

  1. Ou seja, esse senhor olhou para a folha e...?
    Nada? Uma correcção? Uma objecção? Nada?
    Agora fiquei em suspenso. E já agora, o que são as siglas relativas aos espaços?

    Abraço

    Márcio Guerra

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  2. Caro Márcio,

    O facto de Lennart Carleson olhar para a minha folha foi apenas um detalhe que motivou a escrita desta nota. Esse detalhe é verídico, mas não creio que ele tenha, de facto, visto o que na folha estava escrito. O que vem a partir daí é criação minha com alguma dose de bom humor (espero). Em crónicas como esta tentarei usar a minha vivência de matemático pelo mundo para relatar alguns episódios verídicos, no meu modo algo enviesado de ver a realidade, muitas vezes à mistura com um pouco de ficção. Tudo isso num jeito que espero seja bem humorado. Na comunidade matemática convivo com algumas pessoas com refinado sentido de humor, mas nem sempre com especial capacidade de diálogo com o mundo. Por aqui tentarei ultrapassar essa barreira. Precisamente por isso, sempre que possível evitarei detalhes técnicos sobre os objectos matemáticos que forem aparecendo. Tentarei que estes apareçam como mera curiosidade, mas sempre sem a necessidade de serem entendidos por um leitor "comum". Mas se me pergunta é porque gostaria de saber, e eu tenho todo o gosto em revelar um pouco mais: Lp é apenas uma sigla, sem significado especial. BMO vem do inglês Bounded Mean Oscilation. Ambos são espaços de funções integráveis, com algumas particularidades interessantes. Como deve ter deduzido, BMO tem uma estrutura um pouco mais rica.

    Saudações matemáticas!

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  3. Boas de novo...
    Entretanto o meu blog já está actualizado com o seu link, junto aos meus pessoais, e ao da minha namorada, pois não se encaixa muito no que são os outros links que lá possuo.
    Infelizmente não tive boas bases matemáticas, como provavelmente grande parte da população portuguesa. No entanto fiz a disciplina toda até ao 12º ano, em que depois derivei para a área onde estou hoje, que não tem matemática, ou que pelo menos não necessita da matemática tão complexa que domina. Das derivadas para a frente não dei mais, e ainda assim essa matéria, esquecida entretanto, já não habita, creio, na minha cabeça... Infelizmente. Ando, no entanto, sempre atento, e interessado em aprender. Tenho cá para mim teorias sobre os tempos de ensino, a pressa que se vão fazendo cursos hoje em dia, o tempo que as pessoas passam a pensar e, bem, sei que são todas em desacordo com o que é o mundo actual.
    No entanto, precisamente em oposto ao mundo actual, gostava de lhe deixar um link, para algo que não sei se conhece, mas que, ao que me parece é algo ao mesmo tempo brilhante, inovador, e... nada de novo. Aliás, tão «nada de novo» que tem mais de 3000 anos, que é a matemática védica. Como tem mais conhecimentos do que eu, da matemática de forma mais «empírica», se assim se pode dizer, gostaria que desse por si uma olhadela ao link, caso não conheça, e como parece dar-se bem com línguas estrangeiras, ehehehe, neste caso o inglês, por ventura com acréscimos indianos, pois os vedas, caso não saiba, eram povos originários da actual Índia, e que foram extintos há mais de 3000 anos.
    Com o fluir da internet começam a desbravar-se e redescobrir-se os seus antigos documentos, o seu conhecimento, e poderá, se achar interessante, dar uma olhadela mais técnica, portanto, no que vai sendo dito no seguinte blog, do qual recebo uma newsletter, mas que, como deve calcular, e com base no que fui descrevendo atrás, a partir de um certo ponto tornou-se-me impossível acompanhar, pois em design há muito que já não lido com esta realidade. Gostava, no entanto, se achar interessante, de ver teorizações suas sobre o tema.

    Abraço

    Márcio Guerra, aliás, Bimbosfera

    http://Bimbosfera.blogspot.com

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  4. E o link? Porra... Tinha-me esquecido...
    Aqui vai, eheheh!

    Abraço

    Márcio Guerra

    http://vedicmathsindia.blogspot.com/

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