sábado, 6 de fevereiro de 2010

Kubismen

Não escrevo esta crónica com o intuito de tecer elogios a mim mesmo, mas se no discorrer da escrita, uma vez por outra, um vestígio de auto-elogio despontar, não será porventura também muito despropositado.

Na quarta visita à terra de sua majestade — a sueca — sinto que começo a entender algo da língua sueca. Não a língua falada ou ouvida, mas a lida. Foi seguramente durante o dia de hoje que o passo evolutivo aconteceu, pois ainda ontem alguém me perguntava no Messenger como dizer «obrigado» em sueco e eu dava como resposta um bonequinho com o sobrolho franzido. Foi preguiça disfarçada de honestidade, é certo, pois hoje em dia é muito fácil encontrar tradutor online para palavras de línguas muito mais complicadas.

Era fim de tarde e o sol já ia baixo há horas. E, a julgar pelo que vi à hora do almoço, suspeito que em Fevereiro, nas raras vezes em que o sol desperta, praticamente nem se levanta. Mas isso pouco importa para o caso, apesar de se tratar de nota sobre brilhantismo. Adiante. Não tenho, nem nunca tive medo de fantasmas — aposto que nem existem , mas o Mittag-Leffler (instituto) num começo de noite de sexta-feira, em época na qual os visitantes não abundam, transmite uma vaga ideia de que talvez valha a pena pelo menos equacionar a existência dos tais entes que aposto que nem existem. Pelo menos o do Mittag-Leffler (homem). Antes mesmo de começar a pensar elaborar grandes teorias sobre crenças e descrenças, resolvi descer até ao meu apartamento. Os apartamentos situam-se numa construção mais moderna, distando do instituto uma escassa centena metros e abundante ar gélido no rosto.

Chegado ao apartamento, ato contínuo, pousar a mochila, despir o grosso casaco, descalçar as botas, pegar uma cerveja no frigorífico — para aquecer  e ligar a televisão. Havia alguns canais acessíveis, como a Eurosport ou a CNN, mas parei o meu zapping num que transmitia a versão sueca do concurso «Quem quer ser milionário». A primeira pergunta surgiu longa e as respostas eram quatro: Van Gogh, Picasso e dois outros pintores cujos nomes já não me recordo — mas recordo-me de qual não é a tendência pictórica desses pintores. Rapidamente volto ao emaranhado de letras aglutinadas na pergunta com acentos para tudo quanto é gosto e, lá bem no fim, descortino a palavra «kubismen». This reminds me something, pensei — ainda vinha com o inglês na cabeça, depois de uma tarde bem passada em amena cavaqueira com suecos. A resposta só podia ser uma: Picasso. Momento de suspense.

Do lado de lá do ecrã o concorrente pensa um pouco, volta a pensar — tinha mais palavras do que eu para digerir  e, finalmente, avança com a sua resposta:Van Gogh. Não digo que senti um banho de água fria, pois não ousaria tomar disso por aqui, mas senti-me muito desiludido. «Não sei patavina de sueco», pensei. Pensei até que Picasso, Van Gogh e os outros que agora não me lembro pudessem nem ser nomes de pintores em sueco — sei, por exemplo, que Tiago em francês é Jacques e tenho um vizinho que diz que Picasso é apenas um carro. Ciente de que excesso de cultura por vezes atrapalha, achei por bem desconfiar um pouco de mim mesmo.

Volvido o momento de suspense e a desilusão por achar que a língua sueca continuava para mim tão redonda quanto um cubo, surge a resposta sob a forma de luz cintilante na televisão: Picasso!

Olhando em retrospectiva só posso acreditar que as 10 ou 15 palavras antes da tal «kubismen» só estavam lá como rasteira para o pobre concorrente sueco. Apesar do sucesso inicial, não posso ainda garantir o significado de nenhuma das outras palavras na frase — tratou-se de um primeiro exercício e não de uma questão de valorização em exame final , mas asseguro que a tal «kubismen» significa cubista. Ou será cubismo?

2 comentários:

  1. Parabéns pelo blog, JoZé! Esperamos muitas histórias mundanas por aqui!
    Beijos,
    MC

    ResponderEliminar
  2. Interessante, e que me faz lembrar a minha atitude perante as línguas que não domino. Isso excepto a cerveja, que não bebo bebidas alcoólicas.
    Abraço

    Márcio Guerra

    ResponderEliminar