segunda-feira, 1 de março de 2010

O saudosismo ortográfico

Essa enorme capacidade portuguesa de mobilização pelas grandes causas é algo que por vezes ainda me surpreende. Não será característica exclusiva deste povo, mas será, certamente, traço fundamental da nossa identidade.

Especialmente numa época em que a democracia atinge o seu apogeu e as instituições democráticas funcionam na plenitude, corríamos o sério risco de entrar numa espiral de tédio democrático, com deputados a ocuparem-se de questões menores e o povo de costas voltadas para a política. Para evitar um tal estado de pasmaceira, nada melhor do que uma grande causa, uma força aglutinadora para fazer chegar aos representantes parlamentares uma mensagem inequívoca de que o povo está atento: um movimento de imutabilidade da língua! Como mentores desse movimento há um tradutor fulano-de-tal, uns advogados sempre prontos a conduzir a parte legal das grandes causas e uns quantos jornalistas dispostos a dar-lhes voz.

Se é para fazer jus ao epíteto de povo mais saudosista da Europa, único que há uns séculos teve a audácia de introduzir um neologismo para traduzir esse sentimento, façamos a coisa a sério. Não restrinjamos a causa aos c's e p's mudos e às palavras mais ou menos hifenizadas. Deixemo-nos de meias palavras e vamos fundo no grito de revolta. Ignoremos esse revolucionário que deu pelo nome de Luís de Camões, recuemos ainda mais no tempo e readotemos a língua latina, essa sim, imutável e eterna. Utilizemos todo o potencial do mundo globalizado e projetemos uma enorme revogação das modernizações linguísticas efetuadas durante mais de 15 séculos nas regiões hoje conhecidas como Portugal, Espanha, França, Itália e Roménia. Enfim, devolvamos ao mundo esse magnífico império unificado pelo latim.

Aproveito desde já o ensejo para sugerir que, caso esta minha proposta avance, se entronize César Berlusconi Augusto como imperador. Na falta de melhor critério, entroniza-se um líder latino que já tem alguma experiência na organização de bacanais.

Não sei se vem muito a propósito, mas não posso deixar de registar alguma coincidência: sempre atenta às grandes causas e engajada em movimentos pouco evolutivos, a igreja católica cogita voltar às missas em latim. Prometo que se me abordar algum emissário de Roma com uma petição em prol do latim como língua oficial, deixo nela a minha cruz!

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