quarta-feira, 3 de março de 2010

O desconforto ortográfico

Tenho um especial apreço pela criatividade linguística do povo brasileiro. Têm por vezes com exageros e despropósitos, é certo, mas não consigo imaginar uma língua que perdure sem a capacidade de inovar. Devo confessar que nos primeiros tempos de contacto com o português escrito no Brasil senti algum desconforto, mas nada que a leitura de uns quantos jornais e livros não tivesse facilmente resolvido. Ninguém melhor do que Caetano Veloso para sintetizar esse normal processo de estranhamento: «Narciso acha feio o que não é espelho e à mente apavora o que ainda não é mesmo velho».

Decorridos alguns anos sobre esse ligeiro desconforto nos primeiros contactos com o português escrito no Brasil, deparo-me agora com compatriotas também desconfortáveis, desta feita em desacordo com o novo acordo ortográfico. Ergue-se do lado lusitano uma onda de contestação, com origem no Twitter e no Facebook (admitirão os reacionários que se utilize estas palavras em bom português?), que conta já com milhares de assinaturas.

Posso estar enganado (por vezes acontece...), mas se não tivesse nada mais interessante a que me dedicar, vasculharia as páginas de alguns signatários da petição reacionária em busca de maus tratos à língua por esses que tão acerrimamente defendem a sua imutabilidade. E aposto que não seria em vão. Alguém me estimula financeiramente com uma apostazinha?

Sou por vezes presunçoso (a ponto de colocar nuvens negras pairando sobre opiniões sustentadas por ilustres especialistas nas mais variadas matérias), mas neste caso, reconheço que, entre as mais do que prováveis jantaradas e viagens transatlânticas, os estudiosos da língua acabaram por chegar a boa conclusão e dar valiosa contribuição para um futuro duradouro do Português como língua à escala mundial. Poderá ter sido uma decisão difícil, mas nem por isso terá constituído grande golpe de génio concluir que não vale muito a pena remar contra a maré.

Não se pense que na desconfiança pela modernidade descaracterizadora da língua estão apenas os saudosistas lusitanos. Do lado brasileiro já pude ver despontar indícios de preocupação em diversas pessoas, a última das quais o meu amigo Luiz Cláudio, quando foi informado de que voo deixara de ter acento. Foi preocupação de pouca dura, pois o meu alerta sobre algumas armadilhas da língua portuguesa, em particular sobre a existência de palavras homófonas, deixou-o mais tranquilo. Acima de tudo, despreocupado quanto à viagem de regresso a São Paulo.


2 comentários:

  1. Meu caro José,

    Compreendo bem a preocupação do jovem Luis Cláudio, se para mim voar com acento já é complicado imagina sem acento...
    Teria que o fazer numa low cost qualquer, não sei.

    Mas voo bonito e sem acento, só mesmo o das Águias!!!

    Abc

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  2. Boas... Sou dos contra, que é que se há-de fazer?
    Respeito no entanto quem é de opinião contrária.
    Para já não adoptei o acordo, posso eventualmente dar erros, não estou livre disso, mesmo com palavras velhas, ou pré-acordo, mas custa-me ver perder tudo que é caracterizante da nossa sociedade.
    Com o Partido Socialista perdemos o escudo. Valia pouco, é certo, mas era nosso. Com o Partido Socialista entrámos na União Europeia, perdendo a capacidade de produzir o pouco que produzíamos em prol de subsídios, com o Partido Socialista, ainda que não tenha sido agora criado o acordo, é com eles que avançamos e que retiramos a língua do estado em que está e que a redundamos...
    No 1984, sinceramente, as coisas não começaram assim, mas o destino foi aquele que, certamente, será o mesmo... Ou não! O futuro dirá!

    Abraço

    Márcio Guerra, aliás, Bimbosfera

    http://Bimbosfera.blogspot.com

    P.s.- No entanto faz bem em «adotar» já o acordo por forma a me ir habituando... Venho cá, leio, como noutros sítios, e a coisa vai-se entranhando aos poucos, que remédio... Abraço.

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