sexta-feira, 5 de março de 2010

Cidade maravilhosa

O Rio de Janeiro é uma cidade onde a primeira impressão para quem chega da Europa (por via aérea) dificilmente poderá ser favorável. Exceptuaria os casos em que o cansaço da viagem transatlântica possa ter provocado o sono no traslado até à zona Sul. Quando se fala em Rio de Janeiro, pensa-se, quase sempre, nesta zona mais nobre da cidade, mas para dicas interessantes sobre outras zonas, recomendo uma consulta ao Dr. Duarte Lima, profundo conhecedor do grande Rio.

O cheiro nauseabundo da baía de Guanabara e o visual desordenado e pobre das favelas na Linha Vermelha constituem um péssimo cartão-de-visita para a cidade que merecidamente ostenta o epíteto de maravilhosa. A quem for ao Rio pela primeira vez e quiser uma excelente primeira impressão, recomendo que se deixe levar pelo sono assim que saia do aeroporto (a longa espera pelas malas costuma provocar sonolência), um despertar lá pelo bairro da Tijuca, um espreguiçar no escuro do túnel Rebouças e um mergulho de olhos bem abertos na paisagem deslumbrante que lhe reserva a luz ao fundo do túnel.

O Rio de Janeiro é, acima tudo, uma cidade de inúmeras contradições. Cidade onde o neguinho desce da favela para se apossar, sem aviso prévio, de relógio, câmara e carteira do turista desavisado, mas também onde o neguinho desce com pandeiro, violão e mulata para levantar o astral do turista desanimado. Cidade onde o pecado passeia livre e solto nas ruas (ou fica parado à noite na Av. Atlântica), sobe elevadores e entra nos quartos, mas também cidade que tem num dos seus morros um enorme Cristo Redentor com os braços abertos sobre a baía de Guanabara e que, como será fácil de prever, redime.

Só posso conceber que Chico Buarque e Ruy Guerra tenham criado a canção Não Existe Pecado ao Sul do Equador a pedido de alguma agência responsável por uma campanha publicitária com vista a atrair o turista cristão. Campanha enganadora, como será fácil de imaginar. E eficaz, especialmente se tinha como alvo o cristão a ponto de converter-se em pecador.

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