terça-feira, 9 de março de 2010

A Devassa

Nascido no seio de família com tendência religiosa vincadamente católica, desde tenra idade foi-me transmitida a ideia de que o deus infinitamente bom e generoso tem também os seus momentos de ira e castiga. Uma das mais evidentes manifestações da ira divina surgia em noites de tempestade, sob a forma de raios e trovões. A oportunidade era aproveitada para me incutirem os ideais do deus bíblico, associando a tão assustador espetáculo a existência do pecado sobre a terra, mais ou menos original. A princípio estranhando pecado que pudesse despoletar tão desmesurada ira, comecei aos poucos a detetar justificação — para pelo menos parte dessa ira ­­— nos comportamentos da Paulinha, amiga de infância com muita curiosidade sobre as variações da anatomia humana.

Quis o destino ­— e também eu — que aos 20 e poucos anos de idade cruzasse o Atlântico em direção ao Rio de Janeiro, e viesse a instalar-me num apartamento na rua onde anos antes passeava a famosa garota de Ipanema. Já pouco garota era naquela altura, mas outras não faltavam que lhe seguiam as pisadas no doce balanço a caminho do mar. Nos quatro anos de exílio carioca pude, por diversas vezes, comprovar a ira divina através dos seus tenebrosos recados sobre a cidade de inúmeros pecadores. Na época, já a Paulinha deixara de fazer parte do meu círculo de amizades. Entretanto, conhecera a Ana Lúcia, desinibida moradora do 407, com papel análogo ao que tivera outrora a Paulinha na atribuição de culpas pela ira divina. 

Alguns anos de afastamento do Rio, tempo mais do que suficiente para várias alterações nos hábitos da cidade, especialmente no que à atividade turística diz respeito. Nesse particular, registo com estupefação o encerramento da boate Help. Não posso acreditar que tenham posto termo à atividade da mais emblemática casa de acasalamento noturno, último refúgio do turista cuja atividade diurna não lhe correra de feição. Uma espécie de fast food no ramo. Em compensação — no Rio funciona muito bem a lei da compensação, especialmente nestas matérias —, e para gáudio de turistas e cariocas, tornou-se agora mais fácil encontrar em diversos bairros da cidade os préstimos de uma devassa, cuja atividade, a julgar pela campanha publicitária, se afigura por demais convidativa: «Bem loura, bem devassa. Finalmente ela chegou, pegando você pelo colarinho, segurando você pelo aroma, fazendo você se apaixonar pelo sabor». 

No preciso momento em que decidia sair para conferir os dotes dessa tal devassa, o deus bíblico — que comunica através de raios e trovões — decide enviar uma tempestade sobre o Rio de Janeiro. Quem conhece a cidade sabe — e nunca duvida — que num ápice o Rio se transformará num imenso rio, podendo deixar vítimas isoladas nos locais mais inusitados. A mim, tocou-me ficar no décimo sexto andar de uma das recém formadas ilhas da zona sul, com uma garrafa de cachaça, limões, gelo e açúcar. Nem sei como interpretar esta mensagem divina.

3 comentários:

  1. Vendo bem as coisas, Chico Buarque tem razão!
    Não existe pecado ao sul do equado, porque se Adão e Eva usavam simplesmente uma folha para tapar as partes mais desejadas do corpo humano, o mesmo se passa hoje nas praias cariocas e outras, com o biquíni reduzido (fio dental)e sungas...

    Ao norte do equador, mais precisamente aqui (terra de tugas) onde viúvas usam roupa preta até à morte para escaparem da língua afiada da vizinhança é que precisamos de uma severa Devassa. Loira, Morena, Mulata... qualquer cor!!

    Por falta de Devassa é que as mulheres de Bragança (nordeste lusitano) perderam seus maridos para as congéneres da boate Help ...

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  2. Oi Zé,

    como pode se sentir exilado do mundo numa terra tão boa e de gente hospitaleita, mesmo que desconfiada...

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  3. Caro Jozé, muito boa, muito boa, essa crónica.
    Por momentos pensei que fosse mencionar, creio que para essa mesma loura, uma outra, que estando no Brasil no Carnaval, aproveitou e filmou uma anúncio sobre o tema. Aliás, a sua vida Devassa levou a que facilmente a associassem à bebida Devassa.
    Creio que Paris Hilton filmou tal anúncio e que o mesmo foi «condenado» por ser demasiado... devasso.
    Se quiser escrever uma ou duas linhas, mesmo aqui nos comentários, sobre isso, «a comissão agradece»!

    Abraço

    Márcio Guerra, aliás, Bimbosfera

    http://Bimbosfera.blogspot.com

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