quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Carta aberta a António Mexia

Exmo. Senhor Mexia,

Antes de mais, o meu pedido de desculpas por tratá-lo apenas por Senhor. Sei quão importantes são os títulos para o nosso povo, mas receando cometer erro na escolha entre Arquiteto, Doutor, Engenheiro ou Professor, optei por tratá-lo, simplesmente, por Senhor — pior do que a ofensa da omissão será, certamente, a ofensa do trato inadequado.  Infelizmente, uma busca na internet não me esclareceu esta dúvida, prova de que na mais eficiente fonte de informação da atualidade, tal como na tarifa energética, ainda há um certo défice.

Para não importuná-lo mais do que o estritamente necessário, vou direto aos factos: por um lado, tomei conhecimento de que o senhor vê com muito bons olhos (e bonitos óculos, diga-se de passagem) que académicos portugueses dêem (comprem, será mais adequado) aulas em universidades americanas; por outro lado, tenho já uma relação próxima com várias dessas universidades, constando no meu curriculum vitae palestras em Austin, Houston, Kennesaw, Maryland, Pennsylvania, New York, Northwestern e Stony Brook.

Esclarecidos os factos, vamos à questão: vê o senhor com os tais bons olhos e bonitos óculos a compra de umas aulas para mim em alguma dessas universidades? Devo confessar que acho a pergunta um pouco descabida, mas o importante é que o senhor não acha. Garanto-lhe que não terei dificuldade em encontrar quem generosamente nos acolha em alguma delas, a mim e ao dinheiro que o senhor luminosamente subtrai aos portugueses e depois tão bem administra. Cientes de que muito recentemente o nosso país entrou em crise, os americanos (bom povo) facilmente compreenderão que não será possível continuar a comprar aulas para os nossos académicos a 3 milhões de euros, mas acredito que com uns 300 militos já possamos deixar muita gente satisfeita. Eu incluído.

Sei que tenho o handicap de não ter sido o ministro que tutelou a empresa que o senhor tem dirigido nos últimos anos, nem tão-pouco ter posto os cornos a alguém no parlamento. No entanto, acredito que o senhor, com a sua enorme influência, conseguirá facilmente desenrascar-me o cargo de Ministro da Economia no próximo governo (não deve andar longe...). Garanto-lhe que não serei ingrato a ponto de esquecer que uma mão lava a outra. Prometo até colocar os dedos na testa e apontá-los na direção de quem o senhor quiser (Francisco Louçã incluído) logo na primeira sessão parlamentar.

Acredito que pense que a Matemática não é uma área com muita afinidade com a Economia, mas garanto-lhe que é. John Nash (o Nobel da Economia, conhece?), por exemplo, necessitou de muita matemática para elaborar as suas reputadas teorias. Eu, caso o senhor não me ajude, precisarei forçosamente de ser um excelente economista nos tempos que se avizinham para conseguir manter esta minha vida faustosa que o nosso governo resolveu amputar em 10% para conseguir não piorar a vida decente de pessoas como o senhor. Não é uma queixa, o governo está certo. As suas férias de Inverno na Suíça, o recente modelo Aston Martin ou uma nova casa em Sintra serão certamente mais importantes do que a minha mensalidade do empréstimo bancário.

Com os melhores cumprimentos.

5 comentários:

  1. Mas que belo texto pá? É da tua autoria? Muito bom, continua o bom blog que aqui tens.

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  3. ele é licenciado em economia

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  4. Agora tb no FB: http://apps.facebook.com/blognetworks/blog/exilado_no_mundo/

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  5. Ora bem, o homem ri-se. Ri-se atrás daqueles milhões que recebe e que diz que são legítimos. Ri-se atrás dos tais bonitos óculos (será que ofereceu os anteriores aos pobrezinhos?). A questão é: até quando o vamos deixar rir? Não é fácil encontrar quem manda no governo (falo da barragem do Tua, que não está «aprovada», mas não tem opositores no governo!...), mas estou-me a lembrar de um que falava em mãe das batalhas, e que acabou pendurado (não que uma coisa tenha a ver com a outra, mas estou perdoado, eu não sou matemático...)

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