sexta-feira, 22 de outubro de 2010

La Nana

"E se tu olhares muito tempo para um abismo, 
o abismo também olha para dentro de ti"
Friedrich Nietzsche

Na semana passada, o mundo viveu momentos de incomum afetividade e solidariedade, motivados pelo resgate dos 33 mineiros soterrados numa mina do deserto de Atacama. Num tempo em que esse mesmo mundo é desregulado pelo nervosismo de mercados financeiros, foi bonito ver um esforço ponderado e paciente, com empenhamento à escala mundial, para resgatar aqueles soterrados. Volvidos 69 dias, quase um terço dos quais na completa incerteza sobre quanto lhes sobraria de vida subterrânea, os mineiros puderam de novo ver, com o olhar ainda baço, o almejado mundo que nunca mais os verá da mesma forma.

O Chile foi, por força dessas circunstâncias, o país da moda nas últimas semanas. O Chile será também, por força de outras circunstâncias, o país dos fazedores de modas nos tempos vindouros. Relatam agora algumas notícias que para lá convergem já olhares hollywoodianos da cinematografia; para lá correm apressadamente produtores e guionistas sedentos pelos direitos de uma história que promete render milhões.

Esse mesmo mundo, que durante décadas não soube recompensar condignamente o trabalho árduo dos mineiros, quer agora recompensá-los desmesuradamente pela simples coincidência de uma quase fatalidade. Oxalá saibam aproveitar a inesperada benesse que a vida surpreendentemente lhes dá; oxalá tenham arcaboiço psicológico para aguentar a pressão conferida por súbitas e inesperadas doses de fama, fortuna e glória; oxalá não sejam agora largados ao abandono das luzes da ribalta; oxalá não venham a desejar a vida simples e pobre de anónimo e explorado mineiro; oxalá não desejem, num caso extremo, ver-se de novo enfiados no fundo da mina que pacata e generosamente os acolheu durante as quase sete dezenas de dias.

O episódio já está suficientemente documentado através da cobertura televisiva do pré-resgate, do regate e do pós-resgate. Mas há muitos que querem mais: querem agora criar ficção em cima da realidade, multiplicar fortuna em nome da arte. Por coincidência, alguma da mais bonita arte cinematográfica que me foi dada a conhecer nos últimos tempos foi precisamente no Chile, através da obra de um jovem realizador chileno, de nome Sebastián Silva; sem cachês de milhões nem guionistas plastificadores de histórias; com uma câmara trémula em planos fechados, conferindo perturbação a personagens já em si perturbados. Rodeado por um naipe de atores de grande craveira e pouca projeção, Sebastián Silva escreveu e dirigiu uma história simples, sensível e profunda.

Coincidência das coincidências, retrata também esse filme um complicado resgate. Um regaste por vezes tão difícil e surpreendente quanto o dos mineiros a mais 600 metros de profundidade: o resgate de quem se perde no abismo do interior de si mesmo. Pelos mineiros, o mundo procurou e, felizmente, encontrou. Por gente como a protagonista do filme, o mundo passa frequentemente sem ver. Por mais perto que passe.

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