quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Os responsáveis

Desde há muito que deixei de ter paciência para os entediantes discursos das figuras proeminentes da cena política nacional nos feriados que assinalam as grandes efemérides do passado. Como sei que costumam ser portadores de sérios avisos à navegação, para compensar essa minha falta de paciência pelos discursos, costumo lançar um olhar ao resumo noturno dos mesmos em algum canal de notícias.

Das comemorações do 5 de Outubro, uma palavra várias vezes repetida por Cavaco e Sócrates prendeu a minha atenção: responsável. Imediatamente pensei na sua vertente substantivada e nos 25 anos da pós-adesão à comunidade europeia — dizem que agora é união europeia, mas eu vejo isto muito desunido. Se a Wikipédia não me falha, desde 1985, Cavaco e Sócrates contribuíram com cerca de 3/5 de governação. Cavaco, esbanjando fundos comunitários, criou um falso estado de graça que até há uma semana atrás Sócrates teimou em não querer deixar de ver. Quem mais do que estes dois poderia ser responsável?

Julguei que Cavaco e Sócrates, num inédito e insólito ato de contrição, se declaravam responsáveis pela situação catastrófica em que colocaram o país e, num discurso de muita dignidade e nobreza — pese embora a celebração da república —, pediam desculpa pelo incómodo e, tal como Guterres ou Barroso, decidiam fugir para bem longe. Ou decidiam afastar-se para andar por aí, como Santana. Tudo isto, pensei eu num breve instante. Muito mais breve do que o tempo que levei a escrever este parágrafo.

Só nos posteriores debates esmiuçadores dos discursos no tal canal tomei consciência de que o responsável a que se referiam era afinal Passos Coelho. A palavra não era utilizada de forma substantivada para tempo passado, mas de forma adjetivada para tempo futuro (se o houver...) — esta língua portuguesa é um perigo!

Como podem querer tornar já tão responsável o pobre Coelho? Não repararam que acaba de chegar à linha da frente? Colocando-lhe tanta pressão em cima, corre-se o risco de fazê-lo mesmo adotar uma postura muito pouco responsável. Confesso que nem veria com maus olhos tal possibilidade, pois evitando os passos de responsáveis anteriores, há sempre a possibilidade do país dar uma guinada e entrar no bom caminho.

Reservei um último parágrafo para um político que, não sendo diretamente responsável pelo atual estado de desgraça nacional, viabilizou a responsabilidade de outros: Paulo Portas. Apesar da menor influência, provou ser dotado de maior visão de futuro e, no momento em que o país começava a dar sinais de se afundar, tomou a sábia decisão de dar seguimento a um milionário contrato de aquisição de submarinos. Assim, quando o país afundar de vez, teremos lugar para salvar uns quantos. Talvez esses depois possam voltar cá para repovoar responsavelmente este cantinho da Europa unida.

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