segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Os tiques do Senhor Presidente

Quem me conhece, sabe que não tenho opinião muito favorável sobre o atual presidente da república portuguesa. Quem me conhece melhor, sabe até que preferia ver outro a ocupar o lugar dele. Reconheço que, além de ser eu um sujeito deliberada e assumidamente parcial, não consigo outro motivo forte que permita sustentar a minha opinião. Cavaco Silva até tem pose de estadista, fala sempre na terceira pessoa quando se refere a si mesmo e, quando sorri, fá-lo com um tique nervoso que faz qualquer um ficar tenso (inequívoca qualidade de estadista).

Porém, há a questão da empatia, barreira difícil de transpor; principalmente quando lhe noto esse vício de mandar anunciar, de manhã, que o presidente vai fazer uma comunicação ao país à hora do Telejornal — ainda dizem que não há manipulação dos media! Esses episódios algo frequentes deixam-me o dia todo ansioso. «Irá dar a independência à Madeira?» «Terá decidido invadir a Espanha?» «Estará o palácio presidencial sob escuta?» Matemático nenhum tem condições para exercer a sua atividade neste estado de ansiedade.

Em abono de Cavaco Silva — afinal não sou tão deliberadamente parcial —, devo mencionar aquele episódio natalício no qual câmaras indiscretas o apanharam a comer bolo-rei. Foi relativamente parodiado pela ligeira deselegância com que o fez, mas o que ninguém entendeu é que o gesto foi intencional e até com uma certa subtileza humorística. Tomo a ousadia de recomendar que o presidente entre mais no reino — salvo seja! — da piada, pois quem não tem por hábito (nem jeito) fazê-la, quase sempre acaba mal interpretado no momento em que resolve arriscar.

Até hoje, não houve comentador político, blogger ou frequentador do Manuel Luís Goucha — o programa, em princípio — que tivesse mencionado, em abono do presidente, o que para mim foi óbvio desde o primeiro instante. Admito que eu possa ter um grau de perspicácia muito acima da média, mas não era claro que Cavaco comia o bolo numa atitude de escárnio, tentando achincalhar a monarquia? Tratava-se de bolo-rei, se fosse pastel de Belém a postura teria sido outra, certamente. O resultado foi desastroso, mas a subtileza foi de mestre!

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