segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A pen do Senhor Ministro

O computês e o economês (provavelmente a par das letras do David Fonseca) são os submundos da língua  portuguesa que mais contribuem com estrangeirismos para o saber popular. Quase sempre desnecessárias (principalmente nas letras do David Fonseca), há palavras que facilmente nos invadem, sem que se entenda muito bem porquê. Nos últimos anos, a cada apresentação do orçamento de estado, são as pens que saem da boca de jornalistas e políticos com uma frequência quase assustadora.

Pen? Caneta? Causava-me tanta estranheza a adoção desse termo para tal acessório, que decidi tentar obter no dicionário inglês algum significado mais oculto da palavra; algo que desse a ideia de objeto para enfiar num buraco (a porta USB, no caso), pensava eu na minha ignorância. E a explicação lá estava, não com o sentido do tal enfiar no buraco, mas uma explicação que servia perfeitamente para o que eu procurava: «um lugar pequeno de confinamento ou de armazenamento» (tradução inglês-português feita por mim mesmo). Devo confessar que, com os orçamentos de estado que temos tido, a ideia de algo para (nos) enfiar num buraco me parecia mais consentânea com a função do objeto. Só que nunca suspeitei que o termo não se usasse em inglês — no americano, pelo menos.

Uma das coisas que aproveito para fazer quando passo pelos Estados Unidos é comprar alguns acessórios informáticos a preço de banana. Há uns anos, em São Francisco, Califórnia, tentei comprar uma tal pen. «Pen... Pen drive», dizia eu para o vendedor. À medida que aumentava a minha insistência, aumentava também a cara de estranheza do fulano. Até que, em pouco tempo, já só sobrava entre nós um recíproco e embaraçador olhar de estranheza: ele, porque não fazia a mínima ideia do que eu lhe pedia; eu, porque não entendia como era possível ele não entender que eu queria, simplesmente, uma pen drive. Felizmente, tive a brilhante ideia de traduzir para o inglês «objecto pequeno e portátil que serve para enfiar em portas USB de computadores e para lá transferir dados». De imediato, o vendedor desfez a cara de estranheza e soltou numa exclamação redentora do meu embaraço: «Oh, a flash drive!». Isso mesmo, pá!

Devo mencionar que, apesar do relativamente prolongado impasse entre mim e o vendedor, em momento algum ele me mostrou a caneta (de escrever) que tinha no bolso. Ou seja, ele partiu e manteve-se no princípio de que eu não era um tipo completamente desorientado que entrava numa loja de informática achando que entrava numa papelaria. Foi muito bonito sentir, da parte dele, elevação moral e respeito por este desorientado em terra estrangeira.

Vamos fazer um trato, Senhor Ministro? Promete que não nos enfia mais nenhuma dessas pens? Se por outro motivo não for, pelo menos, não contribui também o senhor para que mais portugueses façam figuras tristes no estrangeiro quando se expressam no inglês aprendido por cá.

2 comentários:

  1. Pois Sr ministro,

    Em vez de pen ou pen drive, como diz, (talvez tenha sido os eu primeiro a ensinar-lhe com o inglês técnico), o que precisamos mesmo é de "Penicillin"....

    A descoberta da penicilina prometia o fim das doenças infecciosas (crise sistémica) de origem bacteriana (desgovernação) como causa de mortalidade humana (portugueses).

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  2. Uma critica excelente feita por um excelente Matemático!
    Seria preferível que o Sr. ministro se preocupasse menos com a pen drive e mais com o ser humano.

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