sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um dia histórico

Hoje vivemos um dia histórico, dizem alguns. Justificam-no, afirmando que se corrige essa imoralidade dos anos de gratuitidade de algumas auto-estradas (vulgo SCUTs). As SCUTs, é bom lembrar, foram, na maior parte dos casos, construídas onde deviam ter sido construídas estradas (ICs) que viriam substituir outras sem um mínimo de condições. Sabe-se lá por qual motivo (eu desconfio), achou-se por bem fazer a coisa em grande e dar um presente envenenado ao povo. Triste povo sem memória!

O princípio do utilizador-pagador, continuam. Os da grande Lisboa, por exemplo, com opções como autocarro, barco, comboio e metro (todos com tarifas financiadas pelo estado) pensam que o certo é mesmo isso. Até é ecologicamente correto, ora. Como se o carro fosse sempre um luxo! Saibam que precisamente esses que necessitam do carro para transitarem nas SCUTs já pagam altíssimos impostos em IA, IC e IPP. Impostos esses que, bem administrados, facilmente dariam para manter uma rede de estradas decente. Lamento muito que o pseudo-moralismo elementar do utilizador-pagador funcione apenas num sentido, senão eu, que utilizo pouco o carro e pago muito em impostos para o ter, ainda iria buscar um bom dinheiro de volta.

Eu moro no Porto, trabalho no Porto e até vou a pé para o trabalho. Mas ainda me lembro do tempo em que vinha de uma cidade a cerca de 30km do Porto. Para estar aqui às 8:30, tinha como única opção um autocarro (com tarifa não financiada pelo estado) que me fazia acordar às 5:30 da manhã. Depois comprei o primeiro carro e, pela velha estrada com curvas e buracos, já conseguia ganhar mais uma hora de descanso matinal (e outra de descanso vespertino, claro). Os que continuam no movimento pendular para o Porto (e são muitos, pois nem todos conseguiram crédito para um apartamento no grande centro), desde há uns anos que com as SCUTs ganham mais uns bons minutos de descanso.

Já se perguntaram por que motivo queria o governo introduzir portagens apenas nas SCUTs do Norte? Não foi por nenhum argumento justo com base em critérios objetivos, pois o Tribunal Administrativo do Porto acaba de dar razão a uma providência cautelar refutando esse argumento. Não vou cometer o erro de querer avaliar intenções ou insinuar influências de amigos, mas vou correr o risco de, com base numa observação atenta ao mapa de Portugal, dizer o que me inspira a geografia: as SCUTs do Norte são as únicas que fazem concorrência às auto-estradas da BRISA! Além do mais, ninguém questiona que a forma mais natural (e barata) dos utilizadores pagarem as portagens nas SCUT assente num modelo de elevados lucros para essa mesma BRISA? Podem chamar-lhe chip ou DEM, mas aquilo não deixa de ser o negócio da Via Verde!

Este é também um dia histórico, porque começa a ser debatido na assembleia da república o orçamento mais penalizador para quem vive do trabalho de que há memória em Portugal. O drama, o grande drama, é que nenhuma das medidas que anunciam virá resolver problema algum, mas sim continuar a desgraçar os mais desgraçados e manter a graça dos eternos agraciados. Não vejo nestas medidas sequer um único paliativo para o cancro nacional.

P.S. (salvo seja): Eu nunca gostei dessas conversas de "os Lisboa e os outros", pois acho que o país já é pequeno demais para ser dividido. Mas, caros amigos lisboetas, ajudem-me. Tentem, pelo menos, subir ao telhado e ver um pouco mais além do que costumam ver da janela.

8 comentários:

  1. Caro José,

    O pagamento de portagens é um mal ao qual não podemos fugir.

    Lembro-me de há uns anos atrás a Guerra que foi para que os moradores de Valongo e Maia ficassem isentos do pagamento de portagens, quer na A3 e A4, isenção que foi beneficiar Todos, moradores e visitantes.

    Se dizem que os salários em Lisboa são em média 40 a 60% superiores aos praticados no Porto, porque não aumentarem as portagens das auto-estradas desta zona e colocar o IC19 a pagar também??

    http://www.youtube.com/watch?v=BDwSzZAYRMU&feature=player_embedded

    Abc

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. http://www.jn.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=2338988

      Eliminar
  2. Tiro-lhe o chapéu. Excelente ponto de vista.

    "Tentem, pelo menos, subir ao telhado e ver um pouco mais além do que costumam ver da janela."

    ResponderEliminar
  3. Eu son galego, e persoalmente creo que vai repercutir no turismo portugués.
    Son moitos os galegos que imos pasar 1 ou 2 dias ao Norte de Portugal e/ou Porto.
    Con esta taxa xa nos pensaremos mais si ir ou nao, pois o custo minimo para
    un extraxeiro é de 77€, o que é unma barbaridade por un día ou dous.
    Sinto pelos portugueses e por Portugal, pois gosto muito de ambos,
    pero a proxina vez creo que irei para outra direçao.
    E coma min pensarán muitos galegos. Sorte a tod@s, un saudo dende Galiza.

    ResponderEliminar
  4. http://arrastao.org/sem-categoria/onde-estavam-todos/

    ResponderEliminar
  5. Como galego, as nosas vacacións portuguesas trocarán a partires de hoje, por destinos onde non serían de nós.
    Galicia, Asturias... Espanha, en definitiva. O que teñen que fazer é pór cabinas para o aboamento da portagem,
    porque eu son europeo e teño euros para pagar o treito que use. Síntoo polos meus amigos portugueses,
    pero nós (SOMOS 12 persoas) non voltaremos a Portugal nin tomaremos máis voos internacionais desde Oporto.
    Xa non nos compensa.

    ResponderEliminar
  6. Passe e não pague! Convém não esquecer que os sinais de identificação de via paga à entrada das SCUT não estão homologados pelo Código da Estrada.

    ResponderEliminar
  7. Na foto, a capa do Diário de Notícias de 27 de Maio de 2005. Para quem tem dificuldade em ler o que está escrito nas letras pequenas, eu reescrevo: "Os 2,5 cêntimos por litro que o Governo vai juntar, todos os anos, ao imposto sobre os combustíveis destina-se a pagar as auto-estradas sem portagem (Scut)".

    ResponderEliminar