quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Novas oportunidades

Quem lê estas crónicas pensará, «que raio de matemático é este que praticamente nunca escreve sobre matemática?» Desconfiarão até alguns que uso o título de matemático apenas para me exibir; alguns poucos, claro está, pois exibicionismo com a matemática, neste país, é coisa mais frequente pelo outro lado: «orgulho-me de não ter tido capacidade para entender sequer o básico»; ou, «orgulho-me de ter sido um nabo»; ou até, «orgulho-me da pouca inteligência que tenho». Não exatamente com estas palavras, mas são essas as ideias que sub-repticiamente lhes deteto no exibicionismo bacoco. Há tempos atrás, o discurso tinha até tendências de moda entre a classe política (e não só), mas felizmente o tempo já fez sarar alguns dos sintomas dessa doença que ameaçava alastrar.

Aproveito então o ensejo para escrever sobre o Teorema de Pitágoras. Há alguns anos, esse teorema era ensinado lá pelo 8º ano de escolaridade, e acredito que ainda por lá ande. O resultado é relativamente fácil de entender e, em certas ocasiões, uma mnemónica simples ajudou-me a transmiti-lo a alguns menos dotados para esta arte: «A caminho de Siracusa, dizia Pitágoras para os seus netos, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos». Em abono da verdade histórica pouco posso acrescentar, pois não sei se Pitágoras teve netos, e menos ainda sei se os levava a Siracusa; mas o que realmente interessa é que a verdade matemática está lá. Serve o resultado exclusivamente para triângulos que tenham um ângulo reto (ou de esquadria, num dizer mais popular), cujos lados são chamados de catetos (os menores, adjacentes ao ângulo reto) e hipotenusa (o maior, oposto ao ângulo reto).

Prosseguindo no tom modestamente exibicionista, aqui deixo registado que quis o destino (e os meus pais também) que eu tivesse nascido em Paços de Ferreira; terra essa que, nas últimas décadas, mui nobre e distintamente se tem evidenciado através da indústria do mobiliário. Foi precisamente aí que detetei conhecimento acima da média num sábio intérprete da arte local. Conhecimento inconsciente, como se verá. Pretendendo renovar os móveis de cozinha da casa que tocara em herança ao meu pai, inevitavelmente recorreu a família a um dos muitos especialistas locais. Tirando as medidas e anotando as preferências familiares, em dado momento quis o especialista saber se uma das esquinas da cozinha estava de esquadria. Ato contínuo, saca do metro, mede 80cm desde a esquina para uma das paredes e marca um ponto, mede dessa mesma esquina 60cm para a outra parede e marca outro ponto; finalmente, coloca o metro (100cm) entre os pontos e... bate certo. Conclui imediata e corretamente que a parede está de esquadria! Ou seja, 100x100 = 80x80 + 60x60, evidencia que o ângulo é reto. Dirão os mais entendidos que se trata de uma versão mais sofisticada do Teorema de Pitágoras, e até nem estarão errados, mas, de matemática, por hoje, é tudo.

Claro que o meu espírito matemático não podia deixar de mostrar regozijo por reconhecer naquele conterrâneo das artes mobiliárias conhecimento acima do que medianamente grassa por aí. Olhando-o com alguma atenção, situei-o numa faixa etária para a qual a escolaridade mínima obrigatória tanto podia ter sido de seis como de nove anos.
— Sabe que resultado da matemática acaba de utilizar?
Ao encolher de ombros como resposta, acrescento:
— Teorema de Pitágoras, conhece?
A um novo encolher de ombros e um ligeiro menear da cabeça em sentido de negação, contraponho:
— Estudou até que ano, Sr. Ribeiro?
A esta pergunta os ombros do Sr. Ribeiro não reagiram; num ligeiro sorriso que denotava contentamento e algum orgulho, responde:
— Sabe, entrei para as «novas oportunidades» e estou a terminar o 12º ano!
— Ah... muito bem, Sr. Ribeiro!

Encerrei a conversa por aí, pois não pretendia deixá-lo consciente de que, apesar desse extra de formação, coisas fundamentais continuavam a faltar-lhe; muito menos queria eu fazê-lo deixar de se sentir orgulhoso pela nova oportunidade que a vida aparentemente lhe dava. Mas aqui, não posso deixar de lamentar que nessas «novas oportunidades» não haja oportunidade para vincar alguns resultados tão simples e fundamentais como este do velho Pitágoras.

10 comentários:

  1. Nas Novas Oportunidades, tem-se a oportunidade de fazer algo que na escola nunca se teve nem se tem....

    Fazer a Biografia Pessoal.

    Assim e após esta feita, fica-se habilitado a dizer aos amigos que já se possui o 12º Ano!!

    Grande Oportunidade que o Sócrates está a dar ao povo português....

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  2. vejo nas Novas Oportunidades o merito de possibilitar o acesso á Faculdade aqueles que, por razões diversas, não o puderam fazer quando tinham 18 anos. E entram agora pelos>23. Depois de entrar, o aluno tem que ir demonstrando aprendizagem e conhecimentos iguais ao restantes colegas. Tem esse mérito. Mas de facto, é um bocado injusto que uma pessoa com o 6ºano faça o 9º e depois o 12º e se equipare, sem mais, a quem tem realmente o 12º e a materia de estudo é de facto "para inglês ver"

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  3. Há alguns anos passei uma semana agradável no Gerês. No final do campismo, fui pagar a estadia e a prestável secretária do local calculou a área da minha tenda de 2 por 3 metros como 5 metros quadrados. Eu pauso um bocado e corrijo: "não serão 6?", ao que me responde: "2 mais 3, 5", e faz um gesto com a cabeça como quem diz "daahh". Eu não quis passar pela desonestidade de pagar menos do que devia pela minha estadia, mas tenho medo de discutir com esta gente.

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  4. Ao inscrever-me no curso de mestrado, a funcionária da secretaria da Universidade insistiu que tinha vantagem em pagar a prestações, uma vez que o desconto seria de 20%.
    10% na 1ª prestação mais 10% na 2ª em vez de ter 10% de desconto sobre o valor total pago de uma vez.
    Após tentar explicar-lhe por 3 vezes que o valor da percentagem é relativo aceitei ser eu o burro teimoso da discussão.

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  5. Infelizmente, o ensino em Portugal tem sido muito mais dirigido para novas tecnologias e diplomas sem substância do que para aprimorar o conhecimento e a capacidade de pensar.

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  6. NOVAS OPORTUNIDADES:

    José Sócrates vai acabar o Curso nas Novas Oportunidades.

    Não sabia??!!...

    É Verdade!

    Ainda lhe faltam 3 Cadeiras....

    - 1 Cadeira nos Cornos
    - 1 Cadeira de Rodas
    e,
    - 1 Cadeira Eléctrica...

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  7. Daqui uns anos, Portugal terá muito orgulho em dizer "Somos mais escolarizados que...", "Temos mais doutores que...". Salve as Novas Oportunidades d ...!

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  8. Acompanho estas matérias e esta discussão há já algum tempo. Tinha primeiro de compreender, para depois deitar abaixo.

    Primeiro gostaria de saber o que realmente se discute aqui, se o "Programa Novas oportunidades", se o RVCC. Vou partir do princípio que o Sr. Ribeiro está a fazer o RVCC e de que essa é realmente a discussão.

    Nesse caso, não percebo. Devo ser burro.

    O Sr. Ribeiro tem conhecimento, não sabe é o nome. E isso é um escândalo? Na prática, ele desempenha a tarefa, não faz é a mínima ideia de quem foi Pitágoras (ou até se ele tinha netos). Isso leva a que ele não tenha direito ao 8º, 9º ou qualquer outro nível escolar (também desconheço em que ano se dá o Teorema)? Mas vão pedir ao Sr. Ribeiro que faça novas demonstrações matemáticas a partir do referido Teorema? É suposto refutar Pitágoras? Não.

    Aparentemente só querem que ele demonstre na prática princípios gerais. No fundo ele sabe o Teorema. Mesmo não sabendo isso. Se calhar até já lhe disseram, mas ele, na sua vida mundana de quem tem de ganhar a vida, esqueceu tais nomes esquisitos, e lá prossegue o seu dia-a-dia, fazendo diariamente a prova de tais princípios. Mesmo desconhecendo o que é o "Método Científico".

    A sério, não percebo tal desprezo à escolaridade do Sr. Ribeiro. É por não saber responder "Teorema de Pitágoras"?

    Eu sei de quem tenha entrado em medicina e não saiba responder a "Qual o maior órgão do corpo humano?".

    Tenho um amigo, Prof. Universitário de cadeira do curso de História, que revela ter dificuldade em encontrar, entre os recém-chegados alunos de 1º ano, quem lhe saiba identificar os primeiros 3 Reis de Portugal.

    Todos têm o 12º ano, "via escolar".

    Mas (e é apenas uma ideia) talvez fosse melhor separar as águas e compreender, realmente, de que estamos aqui a falar. Talvez fosse útil aprenderem o que são as "Novas Oportunidades" e o que é o "RVCC". Para mim foi útil.

    Tal como o Sr. Ribeiro, também a maioria não sabe identificar os nomes das coisas. Mas mais grave (e ao contrário do Sr. Ribeiro e do Teorema de Pitágoras), não sabem sequer o princípio científico ou a aplicação prática.

    Ah, não confundam isto com a defesa do "Programa" ou das diversas componentes do "Programa". Mas vamos esperar que saibam primeiro a teoria, para depois discutirmos a prática. Sim, porque, infelizmente, neste País falta muito a "...capacidade de pensar.". Não se ensina. Já opinar sem qualquer base de sustentação, é um desporto nacional!

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  9. Também eu, na área da Matemática, noto sérias falhas de formação básica aos alunos que chegam ao primeiro ano da universidade. Conclusão: há sérios problemas para resolver no ensino secundário em Portugal. Contudo, não se use isso como argumento para uma política do «vale tudo». A certificação de alguém com um determinado grau escolar, qualquer que ele seja, deve corresponder à aquisição de um mínimo de conhecimentos em certas áreas. A escola é fundamentalmente um lugar de transmissão de conhecimento e aprendizagem de teorias!

    No caso particular do Sr. Ribeiro, sem que o saiba ele faz uma aplicação válida do teorema de Pitágoras. Assim como o fazem muitos outros marceneiros em Paços de Ferreira. Foi isso que achei interessante e me motivou a escrever esta crónica. O que me pareceu criticável é que o Sr. Ribeiro estivesse em vias de ser certificado com o 12º ano. Mais criticável ainda é que se menosprezem valores fundamentais com o intuito de obter bons resultados estatísticos para mau uso político!

    Todos deviam ter o direito de voltar à escola e os menos preparados deviam ser estimulados para isso. Não reside aí a minha crítica!

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  10. Mas o Sr. Ribeiro vai ser certificado com o 12º ano por saber o quê? Ou quem não sabe o Teorema não pode ter o 12º? Se as suas competências estão a ser certificadas para determinado nível (e não sei se foram, vão ser ou nem por isso), já estamos a dizer que é imerecido ou uma perversão do sistema? Sabemos que conhecimentos entretanto demonstrou? Não (pelo menos eu não sei).

    A certificação com grau escolar não deve ser baseada na aquisição de determinados conhecimentos, mas sim na aplicação desses conhecimentos. Por partirmos da ideia "aquisição" sem demonstração (os testes não são demonstração de nada, pelo menos da forma como eles são estruturados há décadas) é que chegámos a este ponto. Por ensinarmos inglês a falar português é que não sabem nada, por impingirmos uma série de enunciados matemáticos é que a maioria odeia a matemática, etc, etc.

    Eu nem sei se quem atribui o certificado ao Sr. Ribeiro é, ou não, competente. Critica-se o facto do Sr. estar em vias (ou não, não sei) de obter o certificado por um meio "obscuro", mas não se compreende esse meio e não se pensa que se calhar não é o meio, mas sim a prática que é feita. Mas aí temos o mesmo problema que em quase tudo no País: o problema é a forma como as coisas são feitas, não a ideia que está na génese.

    Há aqui quem fale em biografia. Mas sabe do que está a falar? Não. Porque se alguém neste País é certificado por uma biografia pessoal, é por incompetência de quem certifica. Mas abre a boca com um "Aqui d'El Rei!", que é tudo uma vilanagem e eu é que sei. Sabe nada. Não sabe o que é o processo, não sabe o que é o programa (e que é muito mais que um processo), não sabe que "reconhecer competências" é diferente de "ensino de competências" e torna-se num perfeito exemplo do que este País tem feito: cria "seguidistas", sem capacidade de recolher informação, reflectir e depois opinar.

    Se entretanto é tudo utilizado como alavanca política? E o que não é? Se é utilizado para disfarçar a nossa incompetência quanto à formação, a nossa despesa de milhões em fundos comunitários que foram utilizados em sabe-se lá o quê e, de repente, teve-se de arranjar um esquema qualquer para arranjar número e subverte-se a ideia? Pois, teve o Sr. Sócrates que fazer isso tudo. Mas porquê? Porque não fizemos o trabalho antes? Porque desperdiçámos dinheiro? Isso já não interessa.

    Interessa é confundir "Novas Oportunidades" com "RVCC", interessa é deitar abaixo competências pessoais, ganhas pelo método mais fiável de todos, o método cientifico (o único dogma possível da Ciência) e mandar uma bocas ao político, pois ninguém gosta de cuspir em si próprio, mesmo sendo o maior culpado (o voto, ai o voto).

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