quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Em Deus confiamos!

Contrariamente ao que muita gente possa pensar, o povo americano é profundamente religioso. Tão religioso que chega a ter dois natais num curto espaço de tempo: um no momento certo e outro cerca de um mês antes, na quarta quinta-feira de Novembro, comemorado com peru e tudo. A este último, chamam eles de Thanksgiving Day (Dia de Ação de Graças), e serve a data para agradecer — a Deus, claro está — pelas boas colheitas do outono e as graças do ano em geral. Para ainda melhor ilustrar a religiosidade americana, poderia também mencionar que todas as notas americanas (dólares) têm inscritas a frase «in God we trust» (em Deus confiamos), mas devo admitir que não é para mim claro se a mensagem serve para enaltecer a crença em Deus ou a falta de crença nos banqueiros.

Não pode haver boa religiosidade sem bons pecados. E, no meu passado católico, aprendi que se peca por pensamentos, palavras, atos e omissões. Americanos conseguem, com frequência, quase todas as variantes pecaminosas de uma assentada só. Por exemplo, quando dizem que vão colocar em prática algumas ideias que têm para o mundo. Está lá tudo, até a omissão: querem lá saber o que é o mundo!

Antes da minha primeira incursão nos Estados Unidos, pensava que o descaso deles pelo mundo era sintoma de arrogância ou mania de superioridade, mas rapidamente constatei que se tratava mesmo ignorância pura, cultivada e transmitida de geração em geração. Um exemplo de diálogo algo frequente com americanos (em inglês, claro):
—  Portugal?              
Eu, timidamente:
—  Um país... da Europa... extremo ocidental...
—  Não é a Espanha?
Refiro-me a um americano típico, não a um tipo como o George Clooney que até entende de café!

Nunca me esqueço de uma tarde de conversa que tive há anos com uma típica senhora americana: forte (eufemismo), preta (sem eufemismo), cabelo liso (artificialmente) e muito simpática (sem artifícios). A conversa decorreu interessante e animada naquela tarde do Dia de Ação de Graças do ano 2000, enquanto na Florida faziam a enésima contagem de votos da eleição presidencial — até que os republicanos conseguissem que a contagem desse a vitória do George W Bush sobre o Al Gore, penso eu. Falou-me muito mal do W: ele era isto, ele era aquilo e, mais do que tudo, ele não era nada. «Filhinho de papai», diria ela se fosse brasileira. Perante aquele rol de adjetivacões, concluí que a senhora torcia pela vitória do Al Gore na complicada contagem de votos na Florida. Conclusão precipitada. A senhora teve o cuidado de me explicar a (única) razão pela qual ela não poderia nunca torcer pela vitória do Al Gore: ele defende os homossexuais e isso não está na bíblia!

3 comentários:

  1. Sendo ateu gostava de fazer notar que a maior parte dos europeus não sabe onde é o Massachussetts, o Oregon, Michigan ou Rode Island.
    Mas os europeus nunca são ignorantes sobre realidades alheias, não é? Porque não é a mesma coisa, não é?

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  2. Caro Anónimo,
    Mal de quem depreenda desta crónica que todo americano é assim e todo não americano não é assim. Se reparar bem, o que mais há por aqui é crítica ao meu próprio mundo e à humanidade em geral. Não se sinta ofendido, trata-se apenas de relatos assentes "numa visão relativamente tendenciosa e numa mente algo imaginativa".
    Um abraço.

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  3. A mim, americanos já me disseram que Portugal ficava na América do Sul...

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