terça-feira, 2 de novembro de 2010

Ex

Na língua portuguesa, o prefixo ex é normalmente utilizado para designar algo que deixou de ser aquilo que era ou de exercer o cargo ou função que tinha. Supostamente, traduz esse prefixo a ideia de menor propriedade ou conhecimento sobre a substância daquilo que fez ser mas já não é.

Caso flagrante é o de ex-marido (ou ex-mulher ou de forma mais moderna e abrangente, ex-companheiro(a)). Concentrar-me-ei apenas no caso do ex-marido, para mais claramente explanar as minhas ideias sem necessidade de recorrer a um número excessivo de parêntesis, mas advirto que a situação não é específica deste género. Ex-marido nenhum, em seu perfeito juízo, se julga melhor conhecedor da pessoa que o levou à função e posteriormente o eximiu, após ser etiquetado com o prefixo de ex. Ex-marido nenhum, em estado de sã consciência, avança com palpites sobre o melhor caminho a seguir pela ex-mulher. Pelo contrário, é frequente ouvir-se afirmações do tipo «fiquei sete anos casado com aquela mulher e não a conhecia». Ou então, «não reconheço a pessoa com quem estive casado». Ou até, «mudou muito, nem sei o que dizer».

Pensar-se-á que o significado do prefixo ex fica totalmente explicado com este exemplo. Lamento informar, mas tal não é verdade. Nem por sombras. As ambiguidades da língua portuguesa são de tal forma profundas, que esse mesmo ex também pode ser utilizado para designar precisamente o contrário do acima ilustrado. Pode-se, sem margem alguma de erro, utilizar o ex para transmitir a ideia de que o sujeito conhece mais do assunto, reconhece melhor o seus males e, mais do que ninguém, prescreve com mestria e precisão as terapias acertadas.

Nessa nova categoria de ex, destaco a função de ex-ministro das finanças. Alguém me aponta um que, após etiquetado com o tal prefixo, não tenha passado a sumidade em assuntos de finanças? É ver os gurus desfilarem nos órgãos de comunicação social, consultados a toda a hora, sem o menor questionamento sobre nenhuma das suas opiniões. Opiniões essas, devoradas com sofreguidão, como se de mandamentos divinos se tratassem. As opiniões presentes, claro está, não as passadas. Revelam-se, no cargo de ex-ministro, profundíssimos conhecedores dos detalhes mais íntimos das finanças da nação, detetando na perfeição os seus males e avançando com terapias supostamente infalíveis.

Não sei que bênção divina (só pode ser divina) lhes confere tamanho banho de sapiência após o desempenho do cargo ministerial. Num golpe sagrado, passam de verdadeiros inaptos que engrossam um extenso rol de ministros falhados, a verdadeiros oráculos na matéria. No caso de Teixeira do Santos, parece-me que a bênção divina já o ungiu: as suas últimas medidas foram apresentadas de forma tão convicta e com terapias tão acima de qualquer suspeita, que me parece justo encaminhá-lo, o mais rapidamente possível, para o merecido lugar de ex-ministro, no Olimpo dos profundos conhecedores das mais íntimas finanças da nação.

4 comentários:

  1. É EXtraordinário, como todos os Ex-Ministros se dão bem na vida depois de terem arruinado o país e o povo.
    Não seria mais honesto os partidos ganhadores de eleições colocarem um ladrão como ministro das finanças??

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  2. ... Mas não é isso que fazem?

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  3. Ainda não.
    Quando saírem do ministério directamente para Caxias ou Custóias, aí o povinho considera-los-á efectivamente ladrões, até lá o parvo do povinho continuará a reclamar mas na hora de votar, votará naqueles que o roubaram... Infelizmente para todos!

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  4. Bela artigo, de uma escrita irrepreensível.

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