quinta-feira, 11 de novembro de 2010

João, Pedro e Sabina

Há tempos, escutava na Antena 1 uma música cantada em dueto pela argentina Mercedes Sosa e por Joaquín Sabina. O programa radiofónico era apresentado por dois conceituados jornalistas, cujos nomes nem viriam ao caso, mas, para que mais facilmente nos entendamos, digamos que um se chama João e o outro Pedro. Terminada a música, informa Pedro que o cantor é cubano. Imediatamente corrigido por João, Pedro insiste, depois duvida e finalmente concorda que o cantor é espanhol. Mais do que espanhol, digo eu, é um genuíno boémio madrileno nascido na Andaluzia. Cubano? Só se for o charuto ou o rum que muito provavelmente consome, pois, de acordo com o próprio Sabina, canta cada vez menos com a voz e mais com os brônquios.

O episódio, em si, não é importante (se o Pedro bíblico, sobre o qual assenta a madre igreja, negou Cristo três vezes e foi perdoado, por que motivo não poderia o Pedro não bíblico trocar a nacionalidade de Sabina?), mas denota a distância (musical, no caso) entre países que geograficamente se tocam e onde se fala praticamente a mesma língua, crendo-se apenas que de forma mais rápida do outro lado da fronteira (crença essa que vigora em ambos os lados). Sendo eu um apreciador da transversalidade musical do tal programa da Antena 1, cujos intérpretes, regra geral, fogem às limitadas imposições do perverso mercado discográfico, longe de mim querer que se interprete esta crónica como um pasquim acusatório do Pedro não bíblico.

Joaquín Sabina é, indubitavelmente, um dos maiores cantautores  (aprecio esta inovação linguística de nuestros hermanos) da música contemporânea, aclamado em Espanha e em todos os países não brasileiros da América Latina. Músico multifacetado, roqueiro e bluesista por formação, rumbeiro e bolerista por herança, e vice-versa; poeta de amores fracassados e frequente auto-proclamada vítima com culpa nas histórias que conta. Noctívago inveterado, reza a lenda que, certa noite, vagueava pelas ruas de Madrid, quando foi abordado por um bando de delinquentes que pretendiam levar-lhe o dinheiro, a corrente e o relógio. Reconhecido o artista, terminaram todos num bar; e ainda consta que não deixaram Sabina pagar nem uma rodada. Desse episódio resultou a faixa Pacto Entre Caballeros do disco Hotel Dulce Hotel, de 1987.

Se, por um lado, Portugal conhece tão mal a essência de um artista tão próximo como Joaquín Sabina, por outro lado, tenho fortes indícios de que o recíproco não será necessariamente verdade: no disco Dimelo en la Calle, de 2002, tem papel de destaque, em algumas faixas, uma surpreendente guitarra portuguesa. Essa mesma, a do fado, redescoberta com alma de blues — nada melhor do que um estrangeiro para nos explorar as entranhas. Fosse Sabina da terra de Tio Sam ou de Sua Majestade (a Britânica, claro) e teríamos com frequência as frequências moduladas do nosso espectro radiofónico espalhando a sua voz rouca e promovendo peregrinações a coliseus que facilmente se renderiam a seus pés.

1 comentário:

  1. Mais uma excelente crónica, JoZe! Parabéns.

    É uma pena que o irreverente Sabina não seja conhecido em Portugal. Além da guitarra portuguesa citada no texto, ele também tem uma música muito bonita que conta a história de dois jovens e mostra imagens de Lisboa no videoclip. Chama-se "Pájaros de Portugal".

    http://www.youtube.com/watch?v=A2f3fsgYQZ4

    Um abraço

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