sábado, 6 de novembro de 2010

Os três poderes

Quando relembro os tempos de escola, é com frequência que constato o modo como despontavam naqueles jovens em formação os traços fundamentais da personalidade de cada um. Ainda em tenra idade, já se notava, em alguns de forma vincada, uma dotação específica para o papel que viriam a desempenhar futuramente em sociedade.

Observo agora, muitos anos depois, a forma harmoniosa como aquela sociedade em miniatura mantinha o equilíbrio, e como apresentava já uma boa dose de apreciável organização. Identifico com relativa facilidade essencialmente três poderes: o poder do conhecimento, o poder da força (literalmente falando, pese embora a redundância) e o poder da esperteza. Este último, quase sempre o mais bem sucedido, levando em conta o pouco investimento na vertente humana e o grande alcance nas ambições.

Esses três poderes determinavam, de forma natural, aglomerações dos colegas em quatro estratos. Aos três naturalmente constituídos pelos executantes de cada um dos poderes, juntava-se um quarto estrato, constituído por aqueles que não apresentavam dote especial para nenhum poder: uma massa formada por gente sem muito conhecimento, relativamente fraca e pouco esperta. Acabam esses, muitas vezes, por constituir o elo mais forte de uma sociedade democrática, inúmeras vezes irritantes para o conhecimento, alvo natural da força e presas fáceis para a esperteza. Sociedades mais evoluídas caracterizam-se pela forma eficiente como conseguem ir munindo essa grande massa pelo poder do conhecimento.

Recordo, em especial, a turma do 5º e 6º anos de escolaridade e alguns dos intérpretes mais marcantes dos diversos poderes. Elegeria o Chico Nelo e o Rolando, respetivamente, como expoentes máximos da esperteza e da força. Nunca esqueço um fim de tarde após um teste de português no qual acabávamos de ser testados em conhecimentos sobre formas irregulares do género de certos substantivos: conde/condessa, boi/vaca, carneiro/ovelha, etc. Inolvidável ver o Chico Nelo a ponto de conseguir convencer a bela Dulce (excelente exemplar do quarto estrato e frequente alvo da cobiça da componente masculina da turma) de que a resposta certa para o feminino de bode era... bodessa! Não podia deixar que a esperteza colhesse assim, de forma tão descarada, a admiração de tão apetecível fruto. Soltei um riso tão zombeteiro que lhe cerceei os ímpetos exibicionistas alicerçados numa esperteza sem qualquer tipo de respeito pela verdade. Imperou o poder do conhecimento. No entanto, eram frequentes as vezes em que nenhum dos poderes se sobrepunha de forma tão clara, e só a intervenção do Rolando (ou algum dos seus pares) punha cobro às diversas contendas.

O Rolando manteve-se, ao longo da vida, fiel ao que sempre foi: terminada a escolaridade obrigatória, enveredou pela carreira de porteiro na discoteca local e vive hoje de uma reforma precoce, motivada por uma lesão cervical contraída no pleno exercício das suas funções. O Chico Nelo, em contrapartida, nunca teve uma noção exata daquilo que é, mas familiares influentes fizeram-no ascender socialmente, sendo hoje figura de proa na cena política da autarquia local. Consta até que se encontra bem encaminhado para um salto até Lisboa. De Oliveira, Francisco de Oliveira, é o nome afixado na porta do seu gabinete. Mas apostaria que o seu nome completo continua a ser Francisco Manuel Oliveira Barbosa.

3 comentários:

  1. assente numa visão relativamente tendenciosa
    pois claro....matemáticos tendencialmente comem da mangedoura pública directamente

    ou têm uma agência de sondages

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  2. Em manjedoura (escreve-se assim) comem os cavalos, não os homens! Mas os matemáticos não são caros...

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  3. Por falar em ManJedoura...

    O primeiro a "comer" dela foi Jesus, não foi? Pelo menos a história não fala em amamentação...

    Daí ter ido comer à manjedoura do dragão, 5 vezes em hora e meia! :D
    Abc

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