quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O cafeteiro Mr. Clooney

Aquém e além fronteiras nunca me canso de enaltecer os méritos do café expresso que se pode tomar em Portugal. A par da Itália, o país onde mais facilmente se encontra (quase ao virar de cada esquina) um excelente café com notas altas em sabor, aroma, concentração, temperatura e preço. Sendo certo que não temos o mérito de produzir o grão, nem de ter inventado a máquina, temos o grande mérito de saber utilizar o que outros produzem de bom. Pode parecer fácil, mas, a grande verdade, é que muitos tentam e só poucos conseguem.

No entanto, há algum tempo que sinto pairar no ar uma forte ameaça a essa nossa excelente tradição: um número significativo de portugueses, quiçá com sede de modernidade, têm resolvido dar protagonismo desmesurado a um americano que por aí apareceu a apregoar um tal de nespresso, ameaçando colocar em risco a verdadeira arte do café que tão bem aprimorámos. Se se tratasse de uma mulata tropical, até entendia que tivesse chegado para dar um sabor mais apimentado ao grão, mas um americano? Esses americanos lá sabem o que é um bom café? Nos Estados Unidos, pede-se um café e recebe-se em troca um balde de água quente, onde, na melhor das hipóteses, pode ter sido lavada uma chávena de café.

Custa-me a entender o sucesso desse nescafé expresso em pastilhas coloridas e máquinas futuristas. Estarão os portugueses e as portuguesas assim tão rendidos ao charme e à presunção de Mr. Clooney? Confesso que só encontro essa explicação para que, Natal após Natal, continuem a formar-se extensas filas de sedentos do produto que o americano apregoa no interior de templos nespressados. Caramba, se fazem isso para poderem continuar a ver com frequência o grisalho em campanhas publicitárias de TVs e painéis publicitários, contratem-no para vender muffins... Ou donuts.  Disso os americanos entendem! E, no caso dos donuts, até os sabem confecionar com suficientes variantes para, de igual forma, conferirem um belo colorido às prateleiras.

Há quem alegue, em defesa desse tal nespresso, a forma prática e higiénica como tudo se processa. Veja-se o ponto que isto chegou: ameaça-se dar cabo de uma excelente tradição de longa data só para se economizar no trabalho de colocar o pó, deitar fora a borra e lavar o filtro de uma tradicional máquina de café expresso. Continuando a enveredar por esse caminho abstruso, temo muito que, a breve trecho, tenhamos, na boa tradição da mesa portuguesa, a alheira de Mirandela substituída por alguma barra de cereais!

2 comentários:

  1. Concordo contigo Tio Zé,

    O café encapsulado nada tem a ver com outros cafés confeccionados por cá ou por lá mas, se pegarmos em produtos made in Portugal terão com certeza um enorme volume de vendas, senão vejamos:

    Peguemos na máquina Delta Q e no café Delta, juntemos-lhe para a promoção a Rita Pereira e o vestido do João Rolo e teremos um belo anuncio quiçá com um café pingado ou um pingo como se diz na minha terra....

    Vamos falar com o Nabeiro??
    Abc

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    1. o café nunca será produto made in portugal... ;)

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