sábado, 4 de dezembro de 2010

A televisão do Almeida

Logo nas primeiras conversas do Almeida com a Clarisse sobre o casamento que os viria a unir, decidiram que abdicariam da televisão. O tempo em casa seria para se dedicarem um ao outro, diziam eles. Dedicarem-se e entregarem-se, dizia o Almeida no círculo mais íntimo de amigos.

Coincidiu passar a haver menor frequência das entregas com a entrada do computador em casa. O aparelho que deveria servir para comunicar mais frequentemente com os familiares distantes, contribuiu, por outro lado, para uma mais deficiente comunicação entre o casal. Sob a pior das formas: falta de tempo para a expressão corporal. Aquilo que anos antes lhes custara algum desconforto no carro e muito dinheiro em motéis, e que parecia ser o farol da vida e o sentido da existência, convertera-se agora numa atividade tão banal (e muito menos frequente) quanto as entradas no Facebook ou os comentários no Público Online.

O Almeida não teve logo perceção de qual era a causa e qual era a consequência. Na verdade, ele era pródigo em confundir causas com consequências. E vice-versa. O Almeida também nunca foi muito dado a pensar sobre as grandes questões da vida. E para tudo tentava arranjar uma solução simples. Nunca o Almeida conversara aberta e francamente sobre o problema matrimonial que o preocupava, mas percebia-se nas conversas entre amigos que puxava o tema de forma recorrente. E tema recorrente só pode significar preocupação.

Quando a Clarisse engravidou, o Almeida pressentiu que o problema só poderia agravar-se ainda mais. No futuro, não seriam apenas as dores de cabeça da Clarisse e o apelo do computador que lhes roubariam o tempo que outrora fora precioso. Com o nascimento do Carlinhos, haveria alguém em casa que lhes monopolizaria tempo e atenção. E assim foi durante os primeiros anos de vida do pequeno: computador e Carlinhos roubaram quase todo o tempo que serviria para o Almeida e a Clarisse se dedicarem um ao outro. Dedicarem-se e entregarem-se.

Contudo, o Carlinhos cresceu. Subitamente, o computador e o pequeno que cresceu tornaram-se dois males que se anularam um ao outro: o Carlinhos ocupava o computador e o computador entretinha o Carlinhos. Mas o Almeida constatava que algo continuava errado na sua vida. Sentia necessidade de fazer alguma coisa para preencher o incontornável vazio. Tinha tomado uma decisão: iria comprar uma televisão!

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