sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um Natal singular

A Alzira não conseguia entender o que provocara no Nicolau tão profunda mudança de comportamento nos dias que antecederam este Natal. Sempre lhe dissera que nem em criança atribuiu muito valor à data: digno de registo, apenas uma ligeira motivação religiosa, mas apenas enquanto a promessa da avó de um chupa-chupa após a missa se revestiu de algum interesse. Daí para a frente, só as filhoses da avó conseguiam despertar-lhe igual interesse pela data. Chegou a propor à avó filhoses noutras datas, mas em vão. Até aos últimos dias de vida, a avó mostrou-se sempre renitente: filhoses só no Natal e Natal só em Dezembro. Nem em Maio, no aniversário do Nicolau.

A Alzira acreditava que o ambiente familiar onde crescera teria contribuído de forma decisiva para a postura do Nicolau. Especialmente a forma relativamente austera com que os pais encaravam os bens materiais que não eram considerados estritamente necessários. Do lado espiritual, nem a religiosidade da avó empolgara o Nicolau mais do que nos anos do chupa-chupa. Rapidamente deu por perdida a tentativa de catequização de mais uma geração.

Este ano, algo de anormal se passou nos dias que antecederam o Natal: primeiro, a revelação de que pretendia trajar de Pai Natal para distribuir os presentes pela família; depois, a forma abnegada como procurou os adereços para trajar a preceito. Não pareceu à Alzira que o Nicolau tivesse feito isso para agradar aos filhos, pois havia já dois anos que o mais velho deixara de acreditar no Pai Natal e já se pressentia que também o mais novo estava a ponto de converter-se em descrente. Teria que haver motivo mais forte para que o Nicolau tivesse percorrido meia cidade à procura de botas, calças, casaco, gorro e, especialmente, a barba. Esta última, particularmente difícil de encontrar. Foi quase rude a indignação dele perante a sugestão da Alzira para que improvisasse uma barba em algodão. O desentendimento só não tomou maiores proporções, porque estavam ambos sem tempo para discussões.

A morte dos pais do Nicolau no curto espaço de um ano e o crescente cansaço da mãe da Alzira contribuíram de forma decisiva para que, após nove anos de casados, passassem a primeira noite de Natal em casa. A azáfama foi muito maior do que a previsão inicial da Alzira, mas tinha valido a pena. Esteve tudo perfeito: as entradas, o bacalhau e as sobremesas. Recebera elogios dos pais, da irmã, do cunhado e até do Nicolau (pelas filhoses). Até o ingrediente extra do enigmático trajar do Nicolau conferiu um colorido inesperado à noite.

A irmã e o cunhado já tinham voltado para casa. No andar de cima, os pais da Alzira dormiam num quarto e os meninos no outro. Restavam apenas a Alzira e o Nicolau, lado a lado no sofá. A Alzira observava o Nicolau ainda com as vestes vermelhas e a enorme barba branca. Sentia-o distante, mas era inequívoco o seu olhar de felicidade por entre o emaranhado de pelos na cara. Chegava a cofiar a barba! A Alzira acreditava que com algum tempo para conversarem, finalmente ouviria do Nicolau explicação razoável para mudança tão radical do seu comportamento neste Natal. No exato momento em que se aprestava para abordar o tema, o Nicolau abandonou o seu ar introspetivo e, numa observação em ligeiro tom de lamento, deixou-a desarmada: 
— Faltaram as renas...

1 comentário:

  1. HO HO HO HO!!!....

    Façamos , NÓS Leitores, de Renas....
    Assim animaremos o Natal do Nicolau e Alzira!

    Continuação de FELIZ NATAL!!!

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