quinta-feira, 18 de março de 2010

A calçada portuense


No início do século XXI, arquitetos ilustres que gravitam em torno da cidade do Porto, baseados em estudos aturados sobre a história arquitetónica da cidade, chegaram à conclusão de que a popular calçada portuguesa, em basalto e calcário, nada tinha a ver com o Porto. E um suposto amor pela verdade histórica levou-os a aproveitar uns quantos fundos culturais europeus para requalificarem os pavimentos, deixando-os num generalizado tom cinzento-escuro de pedras graníticas. Menos mal que a requalificação — devo confessar que ganhei aversão à palavra — com base na verdade histórica não recuou demasiado no tempo, sob pena de termos hoje as ruas do Porto em terra batida.

A requalificação dos espaços públicos não se limitou ao piso das ruas e passeios. Algumas das praças mais emblemáticas da cidade sofreram também intervenção especializada, tendo passado sobre elas, sem pejo, um pesado manto granítico, mesmo em canteiros onde dantes brotavam flores. No máximo da tolerância para com o colorido, os requalificadores — ou lá como devem ser designados os tipos em bom português — permitiram que se mesclasse o cinzento da pedra com os tons esverdeados da relva e das árvores — que sobraram. Bancos de jardim que dantes eram vermelhos — que cor aberrante! — foram pintados de verde-escuro. Os que sobraram de madeira, porque o mais frequente é que os bancos de jardim sejam agora frias pedras de granito — neste ponto recuaram à idade da pedra. Terão pensado nos idosos, assíduos frequentadores das praças? Pensarão que sofrem de sobreaquecimento?

A monotonia do tom acinzentado no piso não se restringiu à parte mais antiga da cidade. Na zona da Boavista, o alcatrão foi o material escolhido para pavimentar alguns dos passeios. Terão aqui negligenciado a história e antecipado um futuro de estacionamento desenfreado em tudo quanto é espaço livre? Registo nesta zona uma exceção no que ao colorido diz respeito: em certa época do ano sobram tons de vermelho e branco nas camélias que ornamentam a rotunda. Acredito que esta exceção seja mais fruto da ignorância do arquiteto, desconhecedor das ousadias florais dessas plantas, do que de ato piedoso para com elas. Lembrando teoria que recomenda conversa com as plantas, em muitas das vezes que por lá passo, peço-lhes que não ousem demasiado no esbanjamento de cores. Acredito que, dessa forma, poderão escapar mais facilmente ao instinto requalificador de novos projetistas monocromáticos.

terça-feira, 9 de março de 2010

A Devassa

Nascido no seio de família com tendência religiosa vincadamente católica, desde tenra idade foi-me transmitida a ideia de que o deus infinitamente bom e generoso tem também os seus momentos de ira e castiga. Uma das mais evidentes manifestações da ira divina surgia em noites de tempestade, sob a forma de raios e trovões. A oportunidade era aproveitada para me incutirem os ideais do deus bíblico, associando a tão assustador espetáculo a existência do pecado sobre a terra, mais ou menos original. A princípio estranhando pecado que pudesse despoletar tão desmesurada ira, comecei aos poucos a detetar justificação — para pelo menos parte dessa ira ­­— nos comportamentos da Paulinha, amiga de infância com muita curiosidade sobre as variações da anatomia humana.

Quis o destino ­— e também eu — que aos 20 e poucos anos de idade cruzasse o Atlântico em direção ao Rio de Janeiro, e viesse a instalar-me num apartamento na rua onde anos antes passeava a famosa garota de Ipanema. Já pouco garota era naquela altura, mas outras não faltavam que lhe seguiam as pisadas no doce balanço a caminho do mar. Nos quatro anos de exílio carioca pude, por diversas vezes, comprovar a ira divina através dos seus tenebrosos recados sobre a cidade de inúmeros pecadores. Na época, já a Paulinha deixara de fazer parte do meu círculo de amizades. Entretanto, conhecera a Ana Lúcia, desinibida moradora do 407, com papel análogo ao que tivera outrora a Paulinha na atribuição de culpas pela ira divina. 

Alguns anos de afastamento do Rio, tempo mais do que suficiente para várias alterações nos hábitos da cidade, especialmente no que à atividade turística diz respeito. Nesse particular, registo com estupefação o encerramento da boate Help. Não posso acreditar que tenham posto termo à atividade da mais emblemática casa de acasalamento noturno, último refúgio do turista cuja atividade diurna não lhe correra de feição. Uma espécie de fast food no ramo. Em compensação — no Rio funciona muito bem a lei da compensação, especialmente nestas matérias —, e para gáudio de turistas e cariocas, tornou-se agora mais fácil encontrar em diversos bairros da cidade os préstimos de uma devassa, cuja atividade, a julgar pela campanha publicitária, se afigura por demais convidativa: «Bem loura, bem devassa. Finalmente ela chegou, pegando você pelo colarinho, segurando você pelo aroma, fazendo você se apaixonar pelo sabor». 

No preciso momento em que decidia sair para conferir os dotes dessa tal devassa, o deus bíblico — que comunica através de raios e trovões — decide enviar uma tempestade sobre o Rio de Janeiro. Quem conhece a cidade sabe — e nunca duvida — que num ápice o Rio se transformará num imenso rio, podendo deixar vítimas isoladas nos locais mais inusitados. A mim, tocou-me ficar no décimo sexto andar de uma das recém formadas ilhas da zona sul, com uma garrafa de cachaça, limões, gelo e açúcar. Nem sei como interpretar esta mensagem divina.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Cidade maravilhosa

O Rio de Janeiro é uma cidade onde a primeira impressão para quem chega da Europa (por via aérea) dificilmente poderá ser favorável. Exceptuaria os casos em que o cansaço da viagem transatlântica possa ter provocado o sono no traslado até à zona Sul. Quando se fala em Rio de Janeiro, pensa-se, quase sempre, nesta zona mais nobre da cidade, mas para dicas interessantes sobre outras zonas, recomendo uma consulta ao Dr. Duarte Lima, profundo conhecedor do grande Rio.

O cheiro nauseabundo da baía de Guanabara e o visual desordenado e pobre das favelas na Linha Vermelha constituem um péssimo cartão-de-visita para a cidade que merecidamente ostenta o epíteto de maravilhosa. A quem for ao Rio pela primeira vez e quiser uma excelente primeira impressão, recomendo que se deixe levar pelo sono assim que saia do aeroporto (a longa espera pelas malas costuma provocar sonolência), um despertar lá pelo bairro da Tijuca, um espreguiçar no escuro do túnel Rebouças e um mergulho de olhos bem abertos na paisagem deslumbrante que lhe reserva a luz ao fundo do túnel.

O Rio de Janeiro é, acima tudo, uma cidade de inúmeras contradições. Cidade onde o neguinho desce da favela para se apossar, sem aviso prévio, de relógio, câmara e carteira do turista desavisado, mas também onde o neguinho desce com pandeiro, violão e mulata para levantar o astral do turista desanimado. Cidade onde o pecado passeia livre e solto nas ruas (ou fica parado à noite na Av. Atlântica), sobe elevadores e entra nos quartos, mas também cidade que tem num dos seus morros um enorme Cristo Redentor com os braços abertos sobre a baía de Guanabara e que, como será fácil de prever, redime.

Só posso conceber que Chico Buarque e Ruy Guerra tenham criado a canção Não Existe Pecado ao Sul do Equador a pedido de alguma agência responsável por uma campanha publicitária com vista a atrair o turista cristão. Campanha enganadora, como será fácil de imaginar. E eficaz, especialmente se tinha como alvo o cristão a ponto de converter-se em pecador.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O desconforto ortográfico

Tenho um especial apreço pela criatividade linguística do povo brasileiro. Têm por vezes com exageros e despropósitos, é certo, mas não consigo imaginar uma língua que perdure sem a capacidade de inovar. Devo confessar que nos primeiros tempos de contacto com o português escrito no Brasil senti algum desconforto, mas nada que a leitura de uns quantos jornais e livros não tivesse facilmente resolvido. Ninguém melhor do que Caetano Veloso para sintetizar esse normal processo de estranhamento: «Narciso acha feio o que não é espelho e à mente apavora o que ainda não é mesmo velho».

Decorridos alguns anos sobre esse ligeiro desconforto nos primeiros contactos com o português escrito no Brasil, deparo-me agora com compatriotas também desconfortáveis, desta feita em desacordo com o novo acordo ortográfico. Ergue-se do lado lusitano uma onda de contestação, com origem no Twitter e no Facebook (admitirão os reacionários que se utilize estas palavras em bom português?), que conta já com milhares de assinaturas.

Posso estar enganado (por vezes acontece...), mas se não tivesse nada mais interessante a que me dedicar, vasculharia as páginas de alguns signatários da petição reacionária em busca de maus tratos à língua por esses que tão acerrimamente defendem a sua imutabilidade. E aposto que não seria em vão. Alguém me estimula financeiramente com uma apostazinha?

Sou por vezes presunçoso (a ponto de colocar nuvens negras pairando sobre opiniões sustentadas por ilustres especialistas nas mais variadas matérias), mas neste caso, reconheço que, entre as mais do que prováveis jantaradas e viagens transatlânticas, os estudiosos da língua acabaram por chegar a boa conclusão e dar valiosa contribuição para um futuro duradouro do Português como língua à escala mundial. Poderá ter sido uma decisão difícil, mas nem por isso terá constituído grande golpe de génio concluir que não vale muito a pena remar contra a maré.

Não se pense que na desconfiança pela modernidade descaracterizadora da língua estão apenas os saudosistas lusitanos. Do lado brasileiro já pude ver despontar indícios de preocupação em diversas pessoas, a última das quais o meu amigo Luiz Cláudio, quando foi informado de que voo deixara de ter acento. Foi preocupação de pouca dura, pois o meu alerta sobre algumas armadilhas da língua portuguesa, em particular sobre a existência de palavras homófonas, deixou-o mais tranquilo. Acima de tudo, despreocupado quanto à viagem de regresso a São Paulo.


segunda-feira, 1 de março de 2010

O saudosismo ortográfico

Essa enorme capacidade portuguesa de mobilização pelas grandes causas é algo que por vezes ainda me surpreende. Não será característica exclusiva deste povo, mas será, certamente, traço fundamental da nossa identidade.

Especialmente numa época em que a democracia atinge o seu apogeu e as instituições democráticas funcionam na plenitude, corríamos o sério risco de entrar numa espiral de tédio democrático, com deputados a ocuparem-se de questões menores e o povo de costas voltadas para a política. Para evitar um tal estado de pasmaceira, nada melhor do que uma grande causa, uma força aglutinadora para fazer chegar aos representantes parlamentares uma mensagem inequívoca de que o povo está atento: um movimento de imutabilidade da língua! Como mentores desse movimento há um tradutor fulano-de-tal, uns advogados sempre prontos a conduzir a parte legal das grandes causas e uns quantos jornalistas dispostos a dar-lhes voz.

Se é para fazer jus ao epíteto de povo mais saudosista da Europa, único que há uns séculos teve a audácia de introduzir um neologismo para traduzir esse sentimento, façamos a coisa a sério. Não restrinjamos a causa aos c's e p's mudos e às palavras mais ou menos hifenizadas. Deixemo-nos de meias palavras e vamos fundo no grito de revolta. Ignoremos esse revolucionário que deu pelo nome de Luís de Camões, recuemos ainda mais no tempo e readotemos a língua latina, essa sim, imutável e eterna. Utilizemos todo o potencial do mundo globalizado e projetemos uma enorme revogação das modernizações linguísticas efetuadas durante mais de 15 séculos nas regiões hoje conhecidas como Portugal, Espanha, França, Itália e Roménia. Enfim, devolvamos ao mundo esse magnífico império unificado pelo latim.

Aproveito desde já o ensejo para sugerir que, caso esta minha proposta avance, se entronize César Berlusconi Augusto como imperador. Na falta de melhor critério, entroniza-se um líder latino que já tem alguma experiência na organização de bacanais.

Não sei se vem muito a propósito, mas não posso deixar de registar alguma coincidência: sempre atenta às grandes causas e engajada em movimentos pouco evolutivos, a igreja católica cogita voltar às missas em latim. Prometo que se me abordar algum emissário de Roma com uma petição em prol do latim como língua oficial, deixo nela a minha cruz!