quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Superstições

De um modo sucinto, eu definiria a superstição como o estranho hábito de aumentar a complexidade de coisas que são, por natureza, simples. Quase sempre assentando em dados muito pouco credíveis, principalmente do ponto de vista estatístico.

Superstições são um mal da humanidade, havendo pessoas mais ou menos supersticiosas, consoante o grau de esoterismo que as carateriza. Tenho uma amiga que engravidou e se encontra com sérios problemas para escolher um nome para a criança. Simplesmente, porque desenvolveu uma disparatada superstição com nomes. Segundo ela, nomes determinam a personalidade e, em muitos casos, até características físicas da pessoa. Começou por exemplificar:
— Nome masculino: pessoa calma, chegada a um bom copo e que faz pelo menos um grande disparate na vida.
— Não faço ideia.
— Pinho, Vilarinho...
— Manuel?
— Ora, nem mais!
— Até entendo que isso do Pinho ter colocado os cornos no parlamento foi um grande disparate, mas qual foi o disparate do Vilarinho?
— Mandar o José Mourinho embora do Benfica, não achas?
— Sem dúvida!

Claro que não me mostrei convencido com este exemplo. Ela prosseguiu:
— Nome feminino: tendência para acentuada feiura, especialmente com o avançar da idade.
— Hum... não vejo qual.
— Ferreira Leite, Moura Guedes...
— Ah, Manuela!
— Aí está.

Além de supersticiosa, essa minha amiga revelava-se também muito pouco generosa com a beleza de pessoas provavelmente belas. Obviamente, eu continuava sem me mostrar convencido, e menos fiquei ainda com o ignóbil exemplo que a minha amiga apresentou depois. Digo eu:
— Mas isso é alguma superstição com nomes em geral, ou apenas com Manéis e Manelas?
— Com nomes, claro — disse ela. E prosseguiu: —Masculino: arrogante, com o ego do tamanho do mundo.
— Não estou a ver.
— Não?
— Não mesmo!
— Mourinho, Saramago, Sócrates...
— Estás maluca?!

Eu não tinha dito que era uma superstição disparatada? Não faz o menor sentido! Essa minha amiga precisa de um tratamento urgente. Superstições levadas ao extremo podem colocar em causa valores tão fundamentais como o da amizade.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Bares de tapas


Viagens que tenham por destino cidades latino-americanas não brasileiras são normalmente mais cómodas com uma escala em Madrid. Mesmo para as cidades brasileiras, se por comodismo entendermos economizar umas dezenas de euros, poderá também ser mais cómodo fazer a tal escala em Madrid. Estranha e misteriosamente, é por vezes mais barato viajar em voo TAP (via Lisboa, claro) a partir de uma cidade europeia do que começar a viagem em Lisboa ou no Porto.

No caso de Madrid, até consigo entender que os aviões da TAP aproveitem para abastecer os depósitos a preços muito mais convidativos, mas para outras cidades europeias onde os combustíveis possam ser mais caros (se as houver) não consigo encontrar justificação plausível. A aviação comercial é decididamente uma área difícil de entender. Por vezes fico com a sensação de que, suportadas nas ajudas financeiras dos diversos estados, as principais companhias aéreas (as de bandeira, como sói dizer-se) existem mais com o propósito de se aniquilarem umas às outras do que propriamente para tratarem da sobrevivência.

Mas voltando a Madrid. Ao tema de conversa, claro. Trocar uma escala em Lisboa por outra em Madrid é normalmente um prazer. Se o tempo der (e quase sempre dá), significa também trocar as diversas viagens nos autocarros da Groundforce (parte da TAP subespecializada em maltratar clientes, disfarçada de outra empresa para não prejudicar o bom nome da companhia aérea) por um cómodo e eficiente metro até ao centro de Madrid e aproveitar o muito de bom que a cidade tem para oferecer (Sara Carbonero não incluída). Se para mais não der, uma ligeira peregrinação por uns bares de tapas já justifica a viagem. Muitos crêem que de Espanha nem bom vento nem bom casamento, mas sem receio da acusação de traição à pátria, acrescento também que de menos bom é praticamente só isso: vento (no inverno) e casamento (o ano todo). E no que ao casamento diz respeito, confesso que tempos houve em que cheguei a duvidar.

Um dos setores no qual os bons hábitos espanhóis deviam servir de modelo aos portugueses é o da restauração. Não o da refeição formal, com mesa, talheres, sopa, prato principal, sobremesa, café e conta que não serve de fatura (um traço de informalidade!), mas o das tapas ao balcão, vinho a copo e sobras no chão. Que diós me perdoe a heresia, mas o que de similar se poderia considerar por cá seriam os snack-bares. Em termos de quantidade, não tenho a mínima dúvida, pois estou absolutamente seguro de que Portugal é o país do mundo com mais cafés/restaurantes com a designação de snack-bar por quilómetro quadrado. O mau uso da palavra é tanto que até dicionários respeitáveis (como o Google Tradutor, por exemplo) já consideram a palavra como bom português. Infelizmente, na maioria desses tais snack-bares entende-se por snack uma torrada, um prego em pão ou uma sande mista. Que pobreza lusitana!

Finalizo com um pequeno aparte: há muitos que dizem sandes em vez de sande, mas confesso que nunca entendi se são exatamente a mesma coisa. Será que a sandes mista tem mais fatias de queijo e fiambre?


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Colaboradores

Poderá parecer presunção minha, mas não deixarei de referir que, muito antes da tanga do Durão Barroso ou do ataque das agências de reitingue (uma pequena contribuição minha para a modernidade em economês), eu já tinha previsto uma terrível crise económica para Portugal. Não sou minimamente entendido em macroeconomia e desconfio de praticamente todos os que se dizem entendidos, mas indícios fortes me mostravam que a tal crise se aproximava. E não me baseava em crença ou superstição, pois a única que tenho é a de achar que não as tenho.

A história começa com um telefonema anunciando a oferta de um ano de assinatura de uma revista chamada Exame e que, nas palavras de quem me tentava aliciar, era praticamente irrecusável. Desde tenra idade me instruíram a não aceitar ofertas de estranhos, mas daquela vez, talvez por no meu subconsciente pairar a ideia de que Exame era o nome de uma revista dedicada aos problemas da avaliação no Ensino Superior, aceitei a oferta de um ano de assinatura gratuita dessa tal revista. Devo aqui abrir um parêntesis para justificar o aparente delírio do meu subconsciente, deixando claro que, à data, a faculdade onde eu trabalhava permitia tantas variantes para épocas de exame que a existência de uma revista especializada no assunto não era, em si, uma ideia completamente estapafúrdia. De acordo com o meu subconsciente, é claro.

Quando mais tarde tomei conhecimento de qual era a especialidade da revista, imediata e levianamente concluí que, na melhor das hipóteses, a revista não me interessava — cheguei até a pensar anular a generosa oferta. Claro que estava equivocado. Com o tempo fui-me apercebendo de que o meu linguajar economês aumentava em flecha e a minha intuição sobre o futuro económico da nação aprimorava significativamente. Foi precisamente a questão linguística que mais me impressionou — até porque da minha evolução intuitiva só mais tarde tive consciência. Para ultrapassar barreiras de linguagem, recorro normalmente a um dicionário. No caso dessa revista, e apesar de se chamar Exame — e não Exam — e os textos virem supostamente escritos em português, precisava de uns dois ou três: o de inglês, o de inglês-português e, nos casos mais intrincados, o de português. Desde a adolescência que não sentia tanta evolução no nível do meu inglês.

No que ao linguajar diz respeito, e ignorando a pertinente questão do idioma, duas ideias fundamentais me chamaram a atenção. Em primeiro lugar, surpreendeu-me a ousadia dos gestores e administradores portugueses que agora se dizem CEOs. Tanto relógio Rolex, tanto carro topo de gama e vida faustosa num país à beira da penumbra — já na época... — e ainda se autoproclamam de CEOs? Não encontram na língua portuguesa palavra mais adequada do que essa homófona daquela que logo lembra ao comum dos mortais viverem os gestores em algo muito parecido com o paraíso? Recomendaria mais discrição nessa designação, pois não é necessário — nem prudente — imbuírem a terminologia da ideia de que levam uma vida celestial. Para o povo — sempre invejoso para com os bem-sucedidos — já basta saber que a elite económica tem fantásticos rendimentos em salários, prémios, cartões de crédito, fugas ao fisco e ajudas do estado.

Mas o que mais me surpreendeu — e decisivamente contribuiu para eu desenvolver a percepção de que a terrível crise se aproximava — foi, edição após edição, ir constatando que as nossas empresas atualmente se dividem tão-somente em CEOs e colaboradores. Agora não há funcionários nem trabalhadores. No máximo do mais trabalhoso, presta-se colaboração em alguma empresa. Em part-time, imagino eu, ou quando sobra tempo entre passatempos. Seria necessária muita genialidade para intuir que a economia do país inevitavelmente entraria em colapso?