terça-feira, 30 de novembro de 2010

Jardim rico, jardim pobre

Caminhar por certas cidades europeias em determinadas épocas do ano é, em muitos casos, sinónimo de um prazenteiro desfrutar de cores e aromas que emanam de jardins espalhados por vivendas, ruas e praças.

Salvo algumas honrosas exceções, neste extremo da Europa o cenário tem vindo a acentuar-se como consideravelmente diferente. A começar pelos jardins públicos que entraram numa onda de austeridade muito antes dos tempos austeros terem chegado cá. Nalguns, porque os municípios que os detêm preferiram a sobranceria de um qualquer arquiteto taciturno ao desabrochar de algumas flores. Noutros, porque o orçamento que chega para pagar a gestores (supostamente baratos) de empresas camarárias, não chega para pagar a jardineiros (supostamente caros).  A austeridade prossegue nos jardins de muitas vivendas, onde, em muitos casos, só por desconhecimento do significado da palavra se pode continuar a designar o espaço por jardim.

O caso específico que aqui pretendo abordar é o de um jardim num certo estabelecimento comercial. Nas minhas caminhadas diárias até ao local de trabalho costumo passar por um prédio pertencente a uma instituição bancária de nome milenar. Em frente a esse prédio há um pequeno jardim que dantes tinha relva regularmente tratada e arbustos satisfatoriamente cuidados. De há uns tempos para cá, quem dirigia essa instituição terá decidido que o dinheiro que chegava para pagar jatos particulares de ex-administradores, deixara de chegar para cuidar do jardim.

Alguém faz ideia do preço dos serviços prestados por um jardineiro?

Cheguei a pensar mandar um e-mail para essa dependência bancária, alertando para o mau estado do jardim. Na época, era eu cliente da instituição e sabia que eles se preocupavam bastante com questões de imagem: nos vários anos da nossa relação não houve um único funcionário que não me tivesse recebido de gravata enlaçada! Pensando melhor, acabei por frear o meu ímpeto, pois diversas notícias davam conta de que a austeridade tinha atacado de forma implacável até o rico Jardim. Assim sendo, era natural que o pobre jardim tivesse que continuar mal cuidado. Optei por não perturbá-los, deixando-os com a atenção única e exclusivamente centrada nas inquietações dos mercados internacionais.

Para meu grande contentamento, constatei há dias que no exterior dessa tal instituição, jardineiros aparavam a relva e davam melhor aspeto aos esquecidos arbustos. Será este um primeiro sinal da retoma económica?

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Em Deus confiamos!

Contrariamente ao que muita gente possa pensar, o povo americano é profundamente religioso. Tão religioso que chega a ter dois natais num curto espaço de tempo: um no momento certo e outro cerca de um mês antes, na quarta quinta-feira de Novembro, comemorado com peru e tudo. A este último, chamam eles de Thanksgiving Day (Dia de Ação de Graças), e serve a data para agradecer — a Deus, claro está — pelas boas colheitas do outono e as graças do ano em geral. Para ainda melhor ilustrar a religiosidade americana, poderia também mencionar que todas as notas americanas (dólares) têm inscritas a frase «in God we trust» (em Deus confiamos), mas devo admitir que não é para mim claro se a mensagem serve para enaltecer a crença em Deus ou a falta de crença nos banqueiros.

Não pode haver boa religiosidade sem bons pecados. E, no meu passado católico, aprendi que se peca por pensamentos, palavras, atos e omissões. Americanos conseguem, com frequência, quase todas as variantes pecaminosas de uma assentada só. Por exemplo, quando dizem que vão colocar em prática algumas ideias que têm para o mundo. Está lá tudo, até a omissão: querem lá saber o que é o mundo!

Antes da minha primeira incursão nos Estados Unidos, pensava que o descaso deles pelo mundo era sintoma de arrogância ou mania de superioridade, mas rapidamente constatei que se tratava mesmo ignorância pura, cultivada e transmitida de geração em geração. Um exemplo de diálogo algo frequente com americanos (em inglês, claro):
—  Portugal?              
Eu, timidamente:
—  Um país... da Europa... extremo ocidental...
—  Não é a Espanha?
Refiro-me a um americano típico, não a um tipo como o George Clooney que até entende de café!

Nunca me esqueço de uma tarde de conversa que tive há anos com uma típica senhora americana: forte (eufemismo), preta (sem eufemismo), cabelo liso (artificialmente) e muito simpática (sem artifícios). A conversa decorreu interessante e animada naquela tarde do Dia de Ação de Graças do ano 2000, enquanto na Florida faziam a enésima contagem de votos da eleição presidencial — até que os republicanos conseguissem que a contagem desse a vitória do George W Bush sobre o Al Gore, penso eu. Falou-me muito mal do W: ele era isto, ele era aquilo e, mais do que tudo, ele não era nada. «Filhinho de papai», diria ela se fosse brasileira. Perante aquele rol de adjetivacões, concluí que a senhora torcia pela vitória do Al Gore na complicada contagem de votos na Florida. Conclusão precipitada. A senhora teve o cuidado de me explicar a (única) razão pela qual ela não poderia nunca torcer pela vitória do Al Gore: ele defende os homossexuais e isso não está na bíblia!

domingo, 21 de novembro de 2010

Oralmente virgem

Longe vão os tempos em que a virgindade de uma mulher solteira era anseio natural do homem que se propunha desposá-la. Acredito mesmo que, para que tal anseio pudesse ter algum tipo de legitimidade nos tempos que correm, o homem teria que procurar a sua donzela numa faixa etária lá pelos 14 ou 15 anos de idade, quando muito. Uma legitimidade ilegítima, claro.

Sem querer ser muito exaustivo nem alongar-me demasiado em considerações sociológicas sobre o tema, assinalaria apenas como fatores fundamentais para que se tenha alterado de forma tão radical o valor social da virgindade feminina pré-nupcial, a emancipação da mulher, a facilidade de acesso a métodos anticoncetivos e a evolução mental — ainda que por vezes parcial — do homem. Dessa forma, tornou-se inevitável que o leque de anseios masculinos tivesse que se adaptar a esta nova realidade — com claros benefícios para ambas as partes.

Pese embora toda a evolução sociológica e mental masculina, não serão ainda raros os casos em que o homem mantém algum desejo secreto de primazia na invasão íntima de alguma parte daquela mulher que ele elege como sua até que a morte — ou a separação — os separem. Ciente de que a invasão primeira do hímen se tornou algo dificilmente alcançável em faixas etárias mais avançadas e nada recomendável naquelas que dão maiores garantias de virgindade — pedofilia é crime! —, muitas vezes o homem projeta, ainda que inconscientemente, o seu desejo noutros tipos de invasões primeiras. Nem sempre a projeção aparece de forma consciente, muito menos no homem que se diz moderno, mas resquícios de tais desejos, de formas mais ou menos veladas, pairam por vezes nas mentes masculinas.

Era o caso do Rodrigues, que mantinha com a Clarinha uma relação já suficientemente madura — acabavam de completar um mês de namoro —, a ponto das relações sexuais, em posições essencialmente convencionais, se terem tornado uma prática regular. A intimidade ainda não era plena, mas aos poucos a relação avançava.

Desta vez a Clarinha já revirara os olhinhos, soltara grunhidos e cravara as unhas nas costas do Rodrigues algumas vezes, quando fizeram uma ligeira pausa para recuperar fôlego. Após um ousado, pretensioso e estimulante troque de palavras, ele não notou que a Clarinha se valeu de um eufemismo para lhe fazer uma revelação:
— Sou oralmente virgem.
— Como assim? Nunca falaste palavrões?!
— Nada disso, seu bobo.
— Então?
— Nunca fiz sexo oral, pronto!
Neste, como em muitos outros casos, é frequente a mulher ter que abdicar da sua subtileza natural para conseguir fazer-se entender minimamente. O Rodrigues tentou entender mais:
— Mas porquê, achas que não gostas?
— Não sei... apenas não aconteceu.... não me apeteceu... sei lá!
— Ah...
— Acho que nunca tive relações com intimidade suficiente para isso.

Neste momento, os olhos do Rodrigues brilharam mais intensamente do que o normal e sentiu despertar nele o tal desejo de primazia na invasão íntima de uma parte da Clarinha. Aos poucos foi-se insinuando. A Clarinha, talvez por achar que entre eles já existia a necessária dose de intimidade — mais de 30 dias juntos! — que não existira nos seus casos pretéritos, não se fez de rogada... E revelou ter qualidades inatas para esse ato de grande intimidade com o seu parceiro!

Uns minutos depois, a Clarinha notou o Rodrigues estranho.
— Porque ficaste tão pensativo? Não foi bom?
— Não... foi... foi ótimo!
A Clarinha cometeu o erro de incluir duas perguntas numa só intervenção. E o Rodrigues, apesar de absorto em pensamentos, teve a esperteza suficiente para, convenientemente, responder apenas à segunda pergunta.

Para o Rodrigues tinha sido ótimo, de facto, mas também é verdade que tinha ficado pensativo: um talento destes não podia ser inato... Era óbvio que havia experiência prévia! E tentava entender por que diabo a Clarinha lhe tinha mentido sobre isto. É pouco provável que tenha sido desta vez que o Rodrigues viu saciado o seu desejo secreto de primazia na invasão íntima de alguma parte da Clarinha.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Novas oportunidades

Quem lê estas crónicas pensará, «que raio de matemático é este que praticamente nunca escreve sobre matemática?» Desconfiarão até alguns que uso o título de matemático apenas para me exibir; alguns poucos, claro está, pois exibicionismo com a matemática, neste país, é coisa mais frequente pelo outro lado: «orgulho-me de não ter tido capacidade para entender sequer o básico»; ou, «orgulho-me de ter sido um nabo»; ou até, «orgulho-me da pouca inteligência que tenho». Não exatamente com estas palavras, mas são essas as ideias que sub-repticiamente lhes deteto no exibicionismo bacoco. Há tempos atrás, o discurso tinha até tendências de moda entre a classe política (e não só), mas felizmente o tempo já fez sarar alguns dos sintomas dessa doença que ameaçava alastrar.

Aproveito então o ensejo para escrever sobre o Teorema de Pitágoras. Há alguns anos, esse teorema era ensinado lá pelo 8º ano de escolaridade, e acredito que ainda por lá ande. O resultado é relativamente fácil de entender e, em certas ocasiões, uma mnemónica simples ajudou-me a transmiti-lo a alguns menos dotados para esta arte: «A caminho de Siracusa, dizia Pitágoras para os seus netos, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos». Em abono da verdade histórica pouco posso acrescentar, pois não sei se Pitágoras teve netos, e menos ainda sei se os levava a Siracusa; mas o que realmente interessa é que a verdade matemática está lá. Serve o resultado exclusivamente para triângulos que tenham um ângulo reto (ou de esquadria, num dizer mais popular), cujos lados são chamados de catetos (os menores, adjacentes ao ângulo reto) e hipotenusa (o maior, oposto ao ângulo reto).

Prosseguindo no tom modestamente exibicionista, aqui deixo registado que quis o destino (e os meus pais também) que eu tivesse nascido em Paços de Ferreira; terra essa que, nas últimas décadas, mui nobre e distintamente se tem evidenciado através da indústria do mobiliário. Foi precisamente aí que detetei conhecimento acima da média num sábio intérprete da arte local. Conhecimento inconsciente, como se verá. Pretendendo renovar os móveis de cozinha da casa que tocara em herança ao meu pai, inevitavelmente recorreu a família a um dos muitos especialistas locais. Tirando as medidas e anotando as preferências familiares, em dado momento quis o especialista saber se uma das esquinas da cozinha estava de esquadria. Ato contínuo, saca do metro, mede 80cm desde a esquina para uma das paredes e marca um ponto, mede dessa mesma esquina 60cm para a outra parede e marca outro ponto; finalmente, coloca o metro (100cm) entre os pontos e... bate certo. Conclui imediata e corretamente que a parede está de esquadria! Ou seja, 100x100 = 80x80 + 60x60, evidencia que o ângulo é reto. Dirão os mais entendidos que se trata de uma versão mais sofisticada do Teorema de Pitágoras, e até nem estarão errados, mas, de matemática, por hoje, é tudo.

Claro que o meu espírito matemático não podia deixar de mostrar regozijo por reconhecer naquele conterrâneo das artes mobiliárias conhecimento acima do que medianamente grassa por aí. Olhando-o com alguma atenção, situei-o numa faixa etária para a qual a escolaridade mínima obrigatória tanto podia ter sido de seis como de nove anos.
— Sabe que resultado da matemática acaba de utilizar?
Ao encolher de ombros como resposta, acrescento:
— Teorema de Pitágoras, conhece?
A um novo encolher de ombros e um ligeiro menear da cabeça em sentido de negação, contraponho:
— Estudou até que ano, Sr. Ribeiro?
A esta pergunta os ombros do Sr. Ribeiro não reagiram; num ligeiro sorriso que denotava contentamento e algum orgulho, responde:
— Sabe, entrei para as «novas oportunidades» e estou a terminar o 12º ano!
— Ah... muito bem, Sr. Ribeiro!

Encerrei a conversa por aí, pois não pretendia deixá-lo consciente de que, apesar desse extra de formação, coisas fundamentais continuavam a faltar-lhe; muito menos queria eu fazê-lo deixar de se sentir orgulhoso pela nova oportunidade que a vida aparentemente lhe dava. Mas aqui, não posso deixar de lamentar que nessas «novas oportunidades» não haja oportunidade para vincar alguns resultados tão simples e fundamentais como este do velho Pitágoras.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

João, Pedro e Sabina

Há tempos, escutava na Antena 1 uma música cantada em dueto pela argentina Mercedes Sosa e por Joaquín Sabina. O programa radiofónico era apresentado por dois conceituados jornalistas, cujos nomes nem viriam ao caso, mas, para que mais facilmente nos entendamos, digamos que um se chama João e o outro Pedro. Terminada a música, informa Pedro que o cantor é cubano. Imediatamente corrigido por João, Pedro insiste, depois duvida e finalmente concorda que o cantor é espanhol. Mais do que espanhol, digo eu, é um genuíno boémio madrileno nascido na Andaluzia. Cubano? Só se for o charuto ou o rum que muito provavelmente consome, pois, de acordo com o próprio Sabina, canta cada vez menos com a voz e mais com os brônquios.

O episódio, em si, não é importante (se o Pedro bíblico, sobre o qual assenta a madre igreja, negou Cristo três vezes e foi perdoado, por que motivo não poderia o Pedro não bíblico trocar a nacionalidade de Sabina?), mas denota a distância (musical, no caso) entre países que geograficamente se tocam e onde se fala praticamente a mesma língua, crendo-se apenas que de forma mais rápida do outro lado da fronteira (crença essa que vigora em ambos os lados). Sendo eu um apreciador da transversalidade musical do tal programa da Antena 1, cujos intérpretes, regra geral, fogem às limitadas imposições do perverso mercado discográfico, longe de mim querer que se interprete esta crónica como um pasquim acusatório do Pedro não bíblico.

Joaquín Sabina é, indubitavelmente, um dos maiores cantautores  (aprecio esta inovação linguística de nuestros hermanos) da música contemporânea, aclamado em Espanha e em todos os países não brasileiros da América Latina. Músico multifacetado, roqueiro e bluesista por formação, rumbeiro e bolerista por herança, e vice-versa; poeta de amores fracassados e frequente auto-proclamada vítima com culpa nas histórias que conta. Noctívago inveterado, reza a lenda que, certa noite, vagueava pelas ruas de Madrid, quando foi abordado por um bando de delinquentes que pretendiam levar-lhe o dinheiro, a corrente e o relógio. Reconhecido o artista, terminaram todos num bar; e ainda consta que não deixaram Sabina pagar nem uma rodada. Desse episódio resultou a faixa Pacto Entre Caballeros do disco Hotel Dulce Hotel, de 1987.

Se, por um lado, Portugal conhece tão mal a essência de um artista tão próximo como Joaquín Sabina, por outro lado, tenho fortes indícios de que o recíproco não será necessariamente verdade: no disco Dimelo en la Calle, de 2002, tem papel de destaque, em algumas faixas, uma surpreendente guitarra portuguesa. Essa mesma, a do fado, redescoberta com alma de blues — nada melhor do que um estrangeiro para nos explorar as entranhas. Fosse Sabina da terra de Tio Sam ou de Sua Majestade (a Britânica, claro) e teríamos com frequência as frequências moduladas do nosso espectro radiofónico espalhando a sua voz rouca e promovendo peregrinações a coliseus que facilmente se renderiam a seus pés.

sábado, 6 de novembro de 2010

Os três poderes

Quando relembro os tempos de escola, é com frequência que constato o modo como despontavam naqueles jovens em formação os traços fundamentais da personalidade de cada um. Ainda em tenra idade, já se notava, em alguns de forma vincada, uma dotação específica para o papel que viriam a desempenhar futuramente em sociedade.

Observo agora, muitos anos depois, a forma harmoniosa como aquela sociedade em miniatura mantinha o equilíbrio, e como apresentava já uma boa dose de apreciável organização. Identifico com relativa facilidade essencialmente três poderes: o poder do conhecimento, o poder da força (literalmente falando, pese embora a redundância) e o poder da esperteza. Este último, quase sempre o mais bem sucedido, levando em conta o pouco investimento na vertente humana e o grande alcance nas ambições.

Esses três poderes determinavam, de forma natural, aglomerações dos colegas em quatro estratos. Aos três naturalmente constituídos pelos executantes de cada um dos poderes, juntava-se um quarto estrato, constituído por aqueles que não apresentavam dote especial para nenhum poder: uma massa formada por gente sem muito conhecimento, relativamente fraca e pouco esperta. Acabam esses, muitas vezes, por constituir o elo mais forte de uma sociedade democrática, inúmeras vezes irritantes para o conhecimento, alvo natural da força e presas fáceis para a esperteza. Sociedades mais evoluídas caracterizam-se pela forma eficiente como conseguem ir munindo essa grande massa pelo poder do conhecimento.

Recordo, em especial, a turma do 5º e 6º anos de escolaridade e alguns dos intérpretes mais marcantes dos diversos poderes. Elegeria o Chico Nelo e o Rolando, respetivamente, como expoentes máximos da esperteza e da força. Nunca esqueço um fim de tarde após um teste de português no qual acabávamos de ser testados em conhecimentos sobre formas irregulares do género de certos substantivos: conde/condessa, boi/vaca, carneiro/ovelha, etc. Inolvidável ver o Chico Nelo a ponto de conseguir convencer a bela Dulce (excelente exemplar do quarto estrato e frequente alvo da cobiça da componente masculina da turma) de que a resposta certa para o feminino de bode era... bodessa! Não podia deixar que a esperteza colhesse assim, de forma tão descarada, a admiração de tão apetecível fruto. Soltei um riso tão zombeteiro que lhe cerceei os ímpetos exibicionistas alicerçados numa esperteza sem qualquer tipo de respeito pela verdade. Imperou o poder do conhecimento. No entanto, eram frequentes as vezes em que nenhum dos poderes se sobrepunha de forma tão clara, e só a intervenção do Rolando (ou algum dos seus pares) punha cobro às diversas contendas.

O Rolando manteve-se, ao longo da vida, fiel ao que sempre foi: terminada a escolaridade obrigatória, enveredou pela carreira de porteiro na discoteca local e vive hoje de uma reforma precoce, motivada por uma lesão cervical contraída no pleno exercício das suas funções. O Chico Nelo, em contrapartida, nunca teve uma noção exata daquilo que é, mas familiares influentes fizeram-no ascender socialmente, sendo hoje figura de proa na cena política da autarquia local. Consta até que se encontra bem encaminhado para um salto até Lisboa. De Oliveira, Francisco de Oliveira, é o nome afixado na porta do seu gabinete. Mas apostaria que o seu nome completo continua a ser Francisco Manuel Oliveira Barbosa.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Ex

Na língua portuguesa, o prefixo ex é normalmente utilizado para designar algo que deixou de ser aquilo que era ou de exercer o cargo ou função que tinha. Supostamente, traduz esse prefixo a ideia de menor propriedade ou conhecimento sobre a substância daquilo que fez ser mas já não é.

Caso flagrante é o de ex-marido (ou ex-mulher ou de forma mais moderna e abrangente, ex-companheiro(a)). Concentrar-me-ei apenas no caso do ex-marido, para mais claramente explanar as minhas ideias sem necessidade de recorrer a um número excessivo de parêntesis, mas advirto que a situação não é específica deste género. Ex-marido nenhum, em seu perfeito juízo, se julga melhor conhecedor da pessoa que o levou à função e posteriormente o eximiu, após ser etiquetado com o prefixo de ex. Ex-marido nenhum, em estado de sã consciência, avança com palpites sobre o melhor caminho a seguir pela ex-mulher. Pelo contrário, é frequente ouvir-se afirmações do tipo «fiquei sete anos casado com aquela mulher e não a conhecia». Ou então, «não reconheço a pessoa com quem estive casado». Ou até, «mudou muito, nem sei o que dizer».

Pensar-se-á que o significado do prefixo ex fica totalmente explicado com este exemplo. Lamento informar, mas tal não é verdade. Nem por sombras. As ambiguidades da língua portuguesa são de tal forma profundas, que esse mesmo ex também pode ser utilizado para designar precisamente o contrário do acima ilustrado. Pode-se, sem margem alguma de erro, utilizar o ex para transmitir a ideia de que o sujeito conhece mais do assunto, reconhece melhor o seus males e, mais do que ninguém, prescreve com mestria e precisão as terapias acertadas.

Nessa nova categoria de ex, destaco a função de ex-ministro das finanças. Alguém me aponta um que, após etiquetado com o tal prefixo, não tenha passado a sumidade em assuntos de finanças? É ver os gurus desfilarem nos órgãos de comunicação social, consultados a toda a hora, sem o menor questionamento sobre nenhuma das suas opiniões. Opiniões essas, devoradas com sofreguidão, como se de mandamentos divinos se tratassem. As opiniões presentes, claro está, não as passadas. Revelam-se, no cargo de ex-ministro, profundíssimos conhecedores dos detalhes mais íntimos das finanças da nação, detetando na perfeição os seus males e avançando com terapias supostamente infalíveis.

Não sei que bênção divina (só pode ser divina) lhes confere tamanho banho de sapiência após o desempenho do cargo ministerial. Num golpe sagrado, passam de verdadeiros inaptos que engrossam um extenso rol de ministros falhados, a verdadeiros oráculos na matéria. No caso de Teixeira do Santos, parece-me que a bênção divina já o ungiu: as suas últimas medidas foram apresentadas de forma tão convicta e com terapias tão acima de qualquer suspeita, que me parece justo encaminhá-lo, o mais rapidamente possível, para o merecido lugar de ex-ministro, no Olimpo dos profundos conhecedores das mais íntimas finanças da nação.