quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Três grandes desilusões

Não sei que poder mágico possui o número três, mas coisas verdadeiramente importantes acontecem com muita frequência aos trios: três desejos, três poderes, três reis magos, três mosqueteiros (mesmo sendo quatro....), santíssima trindade, ménage à trois, trilogias aos molhos! É inequívoco que existe algo de transcendente no número três. De um ponto de vista meramente matemático, no máximo do brilhantismo, consigo chegar à conclusão de que três é o primeiro primo ímpar. Sim, e daí? Tem que haver algo mais para lá da Matemática!

Querendo também eu aproveitar o enigmático simbolismo numeral, resolvi abordar o tema das grandes desilusões da vida em número de três. A primeira digna de registo ocorreu num chuvoso fim de tarde de Dezembro, aos sete anos de idade. Chovia de forma tão copiosa que a professora resolveu reter-nos na sala de aula mais alguns minutos além do tempo regulamentar. Para nos entreter, pediu-nos que falássemos sobre o Natal. Nem foi a revelação de que o Pai Natal não existe que me causou tão grande desilusão, mas a forma como o meu colega Baptista começou a abordagem: «Toda a gente sabe que o Pai Natal não existe». Pouco importa o que disse a seguir. O que realmente importa, a ponto de me marcar para sempre, foi a forma como assumiu que TODA a gente sabia. Toda a gente?! Eu não sabia... e nem desconfiava! Senti-me um tremendo idiota. Apesar da tenra idade, dificilmente voltei a sentir-me tão desiludido comigo mesmo. Como pude andar anos (não muitos, tinha só sete) a acreditar que aquela fugaz visão de algo escuro na chaminé, numa anterior madrugada de 25 de Dezembro, eram os pés do Pai Natal? No mínimo, devia ter desconfiado que pudesse haver remela no olho!

Depois dessa, muitas outras desilusões: amorosas, desportivas, profissionais, religiosas, de tudo um pouco, mas quase nenhuma que me venha à memória sem a árdua tarefa de ter que puxar por ela. É então, por volta dos meus trinta anos, que surge aquela que pode ser guindada ao mesmo patamar da desilusão provocada pelo Baptista. A expectativa era tão grande nos momentos que antecederam aquela minha primeira visita ao museu do Louvre que, mal entrei no museu, dirigi-me apressadamente para a sala onde estava exposta a Mona Lisa. Eu já devia saber que o quadro tinha apenas 77cm × 53cm, e assim ter evitado o primeiro impacto negativo. Mas o pior foi a inacessibilidade e a falta de ambiente para apreciar, frente-a-frente com a obra original, o sorriso enigmático da retratada, a posição das mãos, as pinceladas do Leonardo da Vinci. Aquele magote de japoneses que não arredava pé venceu-me de forma implacável e deitou por terra toda a minha expectativa de um momento de raro deleite artístico.

Quanto à terceira grande desilusão... Bem, aflorá-la é complicado. Tenho uma vaga ideia de que, entre as duas já citadas, o Veloso falhou um penalti que ditou uma derrota numa final da Liga dos Campeões. Mas essa levou tanto tempo a curar que continuo a preferir não entrar em detalhes.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um Natal singular

A Alzira não conseguia entender o que provocara no Nicolau tão profunda mudança de comportamento nos dias que antecederam este Natal. Sempre lhe dissera que nem em criança atribuiu muito valor à data: digno de registo, apenas uma ligeira motivação religiosa, mas apenas enquanto a promessa da avó de um chupa-chupa após a missa se revestiu de algum interesse. Daí para a frente, só as filhoses da avó conseguiam despertar-lhe igual interesse pela data. Chegou a propor à avó filhoses noutras datas, mas em vão. Até aos últimos dias de vida, a avó mostrou-se sempre renitente: filhoses só no Natal e Natal só em Dezembro. Nem em Maio, no aniversário do Nicolau.

A Alzira acreditava que o ambiente familiar onde crescera teria contribuído de forma decisiva para a postura do Nicolau. Especialmente a forma relativamente austera com que os pais encaravam os bens materiais que não eram considerados estritamente necessários. Do lado espiritual, nem a religiosidade da avó empolgara o Nicolau mais do que nos anos do chupa-chupa. Rapidamente deu por perdida a tentativa de catequização de mais uma geração.

Este ano, algo de anormal se passou nos dias que antecederam o Natal: primeiro, a revelação de que pretendia trajar de Pai Natal para distribuir os presentes pela família; depois, a forma abnegada como procurou os adereços para trajar a preceito. Não pareceu à Alzira que o Nicolau tivesse feito isso para agradar aos filhos, pois havia já dois anos que o mais velho deixara de acreditar no Pai Natal e já se pressentia que também o mais novo estava a ponto de converter-se em descrente. Teria que haver motivo mais forte para que o Nicolau tivesse percorrido meia cidade à procura de botas, calças, casaco, gorro e, especialmente, a barba. Esta última, particularmente difícil de encontrar. Foi quase rude a indignação dele perante a sugestão da Alzira para que improvisasse uma barba em algodão. O desentendimento só não tomou maiores proporções, porque estavam ambos sem tempo para discussões.

A morte dos pais do Nicolau no curto espaço de um ano e o crescente cansaço da mãe da Alzira contribuíram de forma decisiva para que, após nove anos de casados, passassem a primeira noite de Natal em casa. A azáfama foi muito maior do que a previsão inicial da Alzira, mas tinha valido a pena. Esteve tudo perfeito: as entradas, o bacalhau e as sobremesas. Recebera elogios dos pais, da irmã, do cunhado e até do Nicolau (pelas filhoses). Até o ingrediente extra do enigmático trajar do Nicolau conferiu um colorido inesperado à noite.

A irmã e o cunhado já tinham voltado para casa. No andar de cima, os pais da Alzira dormiam num quarto e os meninos no outro. Restavam apenas a Alzira e o Nicolau, lado a lado no sofá. A Alzira observava o Nicolau ainda com as vestes vermelhas e a enorme barba branca. Sentia-o distante, mas era inequívoco o seu olhar de felicidade por entre o emaranhado de pelos na cara. Chegava a cofiar a barba! A Alzira acreditava que com algum tempo para conversarem, finalmente ouviria do Nicolau explicação razoável para mudança tão radical do seu comportamento neste Natal. No exato momento em que se aprestava para abordar o tema, o Nicolau abandonou o seu ar introspetivo e, numa observação em ligeiro tom de lamento, deixou-a desarmada: 
— Faltaram as renas...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Fédération Nationale d’Achats des Cadres

A FNAC, tratando-se de uma multinacional de grande sucesso, é natural que encerre alguns mistérios. A começar pelo seu nome, que em francês é sigla para algo como Federação Nacional de Compras dos Quadros (não se infira do nome que a FNAC surgiu como uma federação de galerias de arte pictórica, ou algo do género, pois a palavra "quadro" é aqui utilizada para designar gerente de empresa). Quem visita alguma das atuais lojas da cadeia não imagina que na génese daquele lugar esteve uma federação com esses objetivos. Mas o maior e mais ambicionado dos mistérios será, certamente, a sua fórmula de sucesso para a captação e fidelização de clientes.
 
Há dias, recebi uma mensagem eletrónica da FNAC anunciando uma pré-venda. Ciente de que tais pré-vendas são, normalmente, lançadas para os produtos mais desejados pelo grande público (produtos esses que rapidamente chegam à condição de esgotados), é com satisfação que me sinto brindado por tais anúncios. Aberta a mensagem, constato que se trata de um CD+DVD do Tony Carreira, incluindo (como brinde) um CD single da nova balada do artista, com a possibilidade de (pagando mais cerca de 50%) receber uma edição especial limitada, num exclusivo FNAC, autografada pelo artista. Tentador, muito tentador!

Duas reflexões me surgiram na sequência dessa mensagem. A primeira delas, o titulo da obra fono/videográfica: «O Mesmo de Sempre». A reflexão foi mais ou menos nos seguintes termos: «Ora, aí está um artista honesto. Assume aberta e francamente que não traz nada de novo: o mesmo de sempre. E daí? Quantos não se perpetuam em sequências de trabalhos que nada acrescentam de novo? Muitos o fazem e disfarçam, este tem a honestidade de o confessar. Boa Tony, os fãs apreciam um artista com caráter. Pena eu não ser fã, senão comprava!»

A segunda, e última, reflexão (convenhamos que para o artista em causa até já foram reflexões a mais), surgiu sob a forma de questionamento: «Julgava que uma empresa como a FNAC, que até tem um cartão de fidelização de clientes, pessoal e intransmissível, tinha uma política de publicidade direcionada. Mas, pelos vistos, enganei-me. Ou não me enganei? Se não me enganei, que diabo de produtos andei eu a comprar para agora receber esta proposta com o produto do Tony?» 


Com tais questionamentos, fica claro que continuo pouco esclarecido sobre a fórmula de sucesso da FNAC para a captação e fidelização de clientes: se, por um lado, no caso do Tony a mensagem eletrónica falhou redondamente, por outro lado, não esqueço que há uns anos funcionou na perfeição, pois foi precisamente por essa via que tive o meu primeiro contacto com a Carla Bruni. A intermediação da FNAC foi de tal forma eficiente que, num ápice, ela passou a invadir-me as noites com a sua voz quente e sensual e, em privado, fazer-me sentir Le Ciel Dans Une Chambre. Isso antes, muito antes do Nicolas Sarkozy lhe ter posto o olho em cima!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O cafeteiro Mr. Clooney

Aquém e além fronteiras nunca me canso de enaltecer os méritos do café expresso que se pode tomar em Portugal. A par da Itália, o país onde mais facilmente se encontra (quase ao virar de cada esquina) um excelente café com notas altas em sabor, aroma, concentração, temperatura e preço. Sendo certo que não temos o mérito de produzir o grão, nem de ter inventado a máquina, temos o grande mérito de saber utilizar o que outros produzem de bom. Pode parecer fácil, mas, a grande verdade, é que muitos tentam e só poucos conseguem.

No entanto, há algum tempo que sinto pairar no ar uma forte ameaça a essa nossa excelente tradição: um número significativo de portugueses, quiçá com sede de modernidade, têm resolvido dar protagonismo desmesurado a um americano que por aí apareceu a apregoar um tal de nespresso, ameaçando colocar em risco a verdadeira arte do café que tão bem aprimorámos. Se se tratasse de uma mulata tropical, até entendia que tivesse chegado para dar um sabor mais apimentado ao grão, mas um americano? Esses americanos lá sabem o que é um bom café? Nos Estados Unidos, pede-se um café e recebe-se em troca um balde de água quente, onde, na melhor das hipóteses, pode ter sido lavada uma chávena de café.

Custa-me a entender o sucesso desse nescafé expresso em pastilhas coloridas e máquinas futuristas. Estarão os portugueses e as portuguesas assim tão rendidos ao charme e à presunção de Mr. Clooney? Confesso que só encontro essa explicação para que, Natal após Natal, continuem a formar-se extensas filas de sedentos do produto que o americano apregoa no interior de templos nespressados. Caramba, se fazem isso para poderem continuar a ver com frequência o grisalho em campanhas publicitárias de TVs e painéis publicitários, contratem-no para vender muffins... Ou donuts.  Disso os americanos entendem! E, no caso dos donuts, até os sabem confecionar com suficientes variantes para, de igual forma, conferirem um belo colorido às prateleiras.

Há quem alegue, em defesa desse tal nespresso, a forma prática e higiénica como tudo se processa. Veja-se o ponto que isto chegou: ameaça-se dar cabo de uma excelente tradição de longa data só para se economizar no trabalho de colocar o pó, deitar fora a borra e lavar o filtro de uma tradicional máquina de café expresso. Continuando a enveredar por esse caminho abstruso, temo muito que, a breve trecho, tenhamos, na boa tradição da mesa portuguesa, a alheira de Mirandela substituída por alguma barra de cereais!

domingo, 12 de dezembro de 2010

Entre o garrote e a intervenção cirúrgica

O garrote foi um método de execução introduzido em Espanha no início do século XIX. Consistia esse método em colocar uma ligadura, corda, arame, ou similar, em torno do pescoço da vítima e apertar até ao estrangulamento. Hoje em dia, o garrote é apenas um artifício de primeiros socorros visando a compressão de um membro corporal afectado por uma hemorragia grave. Trata-se de um recurso extremo, que deve ser aplicado com grande precaução e por um curto período de tempo, até que intervenção cirúrgica possa ser assegurada.

Em sentido metafórico, não será difícil conceber a aplicação de garrotes nas mais diversas situações. Assim podemos considerar os casos da intervenção militar nas favelas do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e as medidas de austeridade financeira aplicadas a algumas faveladas economias europeias. Lá, como cá, houve nos últimos anos traficantes confortavelmente instalados no alto do morro, de lá ditando leis sobre um território aparentemente sem lei e perante a complacência daqueles que tinham por obrigação controlar o espaço. Traficantes de droga, no caso carioca, e traficantes da alta finança, no caso europeu. Aplicar um garrote a qualquer uma destas zonas problemáticas e deixá-la a definhar é sempre uma opção fácil, se não houver preocupação com o dia seguinte. Difícil é ter engenho e arte para reunir os meios indispensáveis de complementá-la com uma intervenção cuidadosa visando sanar a origem do mal.

No caso carioca, foram vários os governadores que passaram pelo estado do Rio de Janeiro e prolongaram o abandono a que vinha sendo deixado o povo nas favelas, constantemente oprimido pelo poder bélico (entenda-se lei) dos traficantes de drogas. Cabe o grande mérito na mudança de rumo ao atual governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, em colaboração com o Ministro da Defesa brasileiro, Nelson Jobim. Resulta já dessa ação algumas dezenas de traficantes neutralizados e uns quantos que escaparam pelo esgoto. Ficará para o futuro um morro mais limpo, que proporcionará uma vida mais digna a uma larga maioria de gente trabalhadora e honesta que durante todo este tempo tem habitado a favela.

No caso europeu, dada a complexidade do emaranhado poder da União Europeia e a necessidade de uma posição firme para "acalmar os mercados", seria quase inevitável que o comando de uma bem sucedida intervenção financeira ficasse a cargo de um dos líderes das quatro grandes potências que integram a União. Quase por exclusão de partes (e alguma vontade própria), essa responsabilidade acabou por cair nos ombros de Angela Merkel. Nicolas Sarkozy, ainda no rescaldo de uma lua-de-mel, e a braços com inúmeros problemas internos causados por um povo reivindicador e contestatário, mostrou-se sem tempo para esse papel; Silvio Berlusconi, pública e reconhecidamente vivendo numa onda de consecutivas luas-de-mel, menos tempo tem ainda; David Cameron, fiel aos preceitos da velha política britânica, quer primeiro resolver os problemas da ilha, depois os problemas da ilha e, só no final, os problemas da ilha  apesar de algumas singularidades vigentes na ilha, os dias por lá continuam a ter apenas 24 horas.

A tarefa sobrou inevitavelmente para a zelosa chanceler alemã, aquela que é descrita pelos diplomatas americanos como "contrária à tomada de riscos e raramente criativa". Se, numa primeira fase, é plausível admitir-se a adoção do garrote como solução de emergência para acudir ao sangramento das problemáticas finanças de alguns países da União, urge também que esse seja complementado com uma minuciosa ação cirúrgica, de modo a fazer descer pelo esgoto os traficantes da alta finança e, ao mesmo tempo, assegurar dias melhores aos habitantes das zonas afetadas, vítimas maiores dos ímpetos gananciosos desses mesmos traficantes. Contudo, Angela Merkel tarda em dar mostras de querer aliviar o garrote que, aplicado de forma cruel e cega, estrangula as já deprimidas economias e, inevitavelmente, acabará por causar sérios danos às zonas financeiramente mais problemáticas.

E assim vai  uma parte significativa do nosso mundo nos tempos que correm: entre a cirúrgica intervenção militar nas favelas do Complexo do Alemão e o garrote financeiro aplicado às faveladas economias europeias sob comandado da simplista alemã.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A lógica do dragão

Acredito que seja necessária alguma capacidade filosófica para entender que o todo é maior do que a soma das partes. No entanto, já não acredito que seja necessária mais do que mediana capacidade lógica para entender que o todo é maior do que qualquer uma das partes. Acredito eu, mas pelos vistos, nas estruturas diretivas do FCP impera um outro tipo de lógica. Pensarão desde já alguns que impera a lógica da vitória; pensarão outros, muitos mais, que impera a lógica da vitória a qualquer preço. Desta vez vou abster-me dessas polémicas aparentemente subjetivas e focalizar-me em questão lógica e inequivocamente objetiva.

A estrutura do FCP encontra-se organizada essencialmente em quatro categorias: dirigentes, associados, atletas e árbitros. Faz parte da filosofia dessa agremiação acariciar os interpretes destas três últimas categorias com prémios. Anualmente, no caso dos associados e atletas, e com maior frequência, no caso dos árbitros. Sabe-se, com base em irregularidades atrozes perpetradas por juízes e agentes judiciários que as decisões sobre os árbitros acariciados e as formas de acariciamento são tomadas diretamente por quem está no vértice mais alto da pirâmide organizativa, entre eles vulgarmente designado por «meu presidente». Presidente esse, já em si, dotado de uma lógica muito especial. Na vida pessoal, por exemplo: rapaz muito namoradeiro (nada de anormal), troca frequentemente de namorada (continua normal), leva a relação ao extremo (normalíssimo), mas acaba sempre por casar com uma mesma que tem numa espécie de reserva.

Acredito que, também no caso de associados e atletas, a decisão sobre os premiados seja tomada nas mais altas instâncias. Para associado da época 2009/2010 escolheram Rui Moreira, associado que acabava de abandonar, de forma abrupta, o local onde acerrimamente defendia os interesses do clube. Premiação relativamente estranha, mas há pior. As modalidades praticadas na agremiação desportiva são as mais variadas, o que provoca, inevitavelmente, a existência de diversos tipos de atletas. Relativamente à época 2009/2010, decidiram que o distinguido como atleta do ano seria Falcao. Neste particular, também me pareceu estranho que tivessem decidido premiar o atleta de uma modalidade cuja equipa ficou em terceiro lugar no respetivo campeonato, mas o pior veio depois: Hulk é premiado como... futebolista do ano!

Alto. Parece-me que aqui, além de falcão, também há gato. Então os futebolistas não são atletas? Como pode Falcao ser o atleta do ano sem ser o futebolista do ano? Entendo que queiram também premiar um futebolista que andou três meses a mandar bolas para a bancada e, por ter espancado um segurança, tenha passado outros tantos meses sentado nessa mesma bancada a ver os colegas suarem as estopinhas. Mas não havia necessidade de pontapearem a lógica dessa forma. Se a vontade de premiar o Hulk era assim tão grande (ou seria receio de um novo espancamento?), podiam tê-lo incluído noutra modalidade. Carateca, por exemplo, nem me parecia muito despropositado.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Carta aberta a Mira Amaral

Ex.º Senhor
Dr. Eng.º Mira Amaral,

Sabendo de antemão que o senhor tem habilitações académicas em Engenharia e Economia, e na dúvida sobre qual o título onde recai a sua preferência, optei por brindá-lo com os dois. Estamos em época natalícia e não devemos poupar na generosidade para com os outros, não é mesmo assim?

Mas é precisamente devido a uma certa falta de generosidade da parte do Sr. Dr. Eng.º que resolvi escrever-lhe. São já diversas as vezes que o ouço nos meios de comunicação social apregoando as suas doutas verdades, de forma genérica e abstrata, sobre o mau comportamento profissional dos portugueses. Hoje de manhã foi na Antena 1. Chamado a pronunciar-se sobre os feriados (e algumas prováveis pontes) de 2011 e os mais do que previsíveis malefícios desses ociosos dias para a nação, afirmava o Sr. Dr. Eng.º, em tom de mandamento do dia, que os portugueses devem "trabalhar mais e melhor", ao invés de continuarem numa vida "calma" e "doce". Assim, sem meias palavras nem exceções, a frio (como o tempo).

Coincidiu estar eu, nesse preciso momento, na padaria da esquina a comprar o pão da manhã. Em simultâneo, observava o Sr. Silva, padeiro em torno dos seus 50 anos, por detrás do vidro que separava a área de produção da área de venda. Era segunda-feira, manhã cedo, e ele acabava de passar mais uma noite amassando e cozendo o pão que muitos como eu iriam comer. Tinha o ar de alguém profundamente cansado. As palavras do Sr. Dr. Eng.º fizeram-me pensar na vida profissional daquele homem que eu observava do outro lado do vidro, num local confinado e quente, suando abundantemente, apesar do rigoroso inverno que se fazia sentir lá fora. Pensei em como, seguindo a sua douta opinião, poderia resgatá-lo daquela vida "calma" e doce" e fazê-lo "trabalhar mais e melhor". Confesso que, nas condições em que vi o Sr. Silva, não vislumbrei até agora outra forma de seguir o mandamento do Sr. Dr. Eng.º sem que tivesse que o sujeitar a algo mais do que humanamente razoável. E, da mesma forma que aqui  refiro o caso específico do Sr. Silva da padaria, poderia também referir muitíssimos outros casos de profissionais sérios e competentes a quem, sem exceção, acabam sendo dirigidas as suas palavras.

Perdoe-me se, na minha modesta posição, respondo a uma afirmação genérica, resultante de ato ponderado de alguém tão bem recompensado financeiramente pela nação, com o caso específico de um profissional remunerativamente tão insignificante como o padeiro. Mas, convenhamos, na mesma medida em que peco pela especificidade do exemplo que contraponho a uma afirmação genérica e abstrata, peca também o Sr. Dr. Eng.º pela leviandade com que atesta a malandrice e incompetência de muitos casos como o que aqui especifico. A grande verdade é que pouco importa quem mais peca, pois estamos em época de Natal e ambos seremos facilmente perdoados.

Mas vamos ao que considero realmente importante e me motivou a escrever esta carta. Dado o à vontade com que o Sr. Dr. Eng.º se movimenta em Portugal, tanto no meio económico-financeiro como no meio político (perdoe-me a redundância, trata-se apenas de uma figura de estilo para reforçar a direção do meu apelo), rogo-lhe, encarecidamente, que se reúna com alguns dos seus amigos mais competentes para redigirem umas diretivas mais precisas sobre o sentido em que devemos avançar: setores improdutivos, profissionais incompetentes, malandros de cada setor e terapia específica. Uma espécie de tábua da lei para o avanço de Portugal. Há-de convir que afirmações genéricas sobre a malandrice e a incompetência de um povo têm o sério defeito de desmotivar quem já trabalha a preceito (o Sr. Silva da padaria, por exemplo). Numa primeira fase, não precisam de ser muito exaustivos, basta uma meia dúzia de setores. Depois, seguindo o saudável hábito dos meios onde o Sr. Dr. Eng.º tão facilmente se movimenta, cria-se um instituto específico, nomeia-se uma boa dúzia de gestores públicos com horário leve e principesca remuneração (estímulo necessário para a boa execução das suas tarefas) e a coisa fluirá.

Escusado será pedir-lhes que cumpram a tarefa com honestidade e competência, pois sei perfeitamente que o Sr. Dr. Eng.º e os seus pares colocam sempre esses atributos em tudo que fazem e dizem, principalmente quando é em prol do bem público. Contudo, não ficaria de bem comigo mesmo se não lhes pedisse para, nas muitas variáveis que serão forçados a considerar num estudo sério deste tipo, levarem em consideração que as capacidades de trabalho deste malandro e incompetente povo (refiro-me à arraia-miúda, não às elites, claro) são frequentemente apreciadas pelos gestores das empresas nos sete cantos do mundo para onde costumam emigrar.

A todos um bom Natal!

sábado, 4 de dezembro de 2010

A televisão do Almeida

Logo nas primeiras conversas do Almeida com a Clarisse sobre o casamento que os viria a unir, decidiram que abdicariam da televisão. O tempo em casa seria para se dedicarem um ao outro, diziam eles. Dedicarem-se e entregarem-se, dizia o Almeida no círculo mais íntimo de amigos.

Coincidiu passar a haver menor frequência das entregas com a entrada do computador em casa. O aparelho que deveria servir para comunicar mais frequentemente com os familiares distantes, contribuiu, por outro lado, para uma mais deficiente comunicação entre o casal. Sob a pior das formas: falta de tempo para a expressão corporal. Aquilo que anos antes lhes custara algum desconforto no carro e muito dinheiro em motéis, e que parecia ser o farol da vida e o sentido da existência, convertera-se agora numa atividade tão banal (e muito menos frequente) quanto as entradas no Facebook ou os comentários no Público Online.

O Almeida não teve logo perceção de qual era a causa e qual era a consequência. Na verdade, ele era pródigo em confundir causas com consequências. E vice-versa. O Almeida também nunca foi muito dado a pensar sobre as grandes questões da vida. E para tudo tentava arranjar uma solução simples. Nunca o Almeida conversara aberta e francamente sobre o problema matrimonial que o preocupava, mas percebia-se nas conversas entre amigos que puxava o tema de forma recorrente. E tema recorrente só pode significar preocupação.

Quando a Clarisse engravidou, o Almeida pressentiu que o problema só poderia agravar-se ainda mais. No futuro, não seriam apenas as dores de cabeça da Clarisse e o apelo do computador que lhes roubariam o tempo que outrora fora precioso. Com o nascimento do Carlinhos, haveria alguém em casa que lhes monopolizaria tempo e atenção. E assim foi durante os primeiros anos de vida do pequeno: computador e Carlinhos roubaram quase todo o tempo que serviria para o Almeida e a Clarisse se dedicarem um ao outro. Dedicarem-se e entregarem-se.

Contudo, o Carlinhos cresceu. Subitamente, o computador e o pequeno que cresceu tornaram-se dois males que se anularam um ao outro: o Carlinhos ocupava o computador e o computador entretinha o Carlinhos. Mas o Almeida constatava que algo continuava errado na sua vida. Sentia necessidade de fazer alguma coisa para preencher o incontornável vazio. Tinha tomado uma decisão: iria comprar uma televisão!