quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A panificadora doméstica

O grau de desenvolvimento de uma sociedade é inversamente proporcional à capacidade demonstrada pela sua classe média para contratar uma empregada doméstica: algo muito fácil nos países subdesenvolvidos, mais difícil nos países em vias de desenvolvimento, praticamente impossível nos países desenvolvidos.

Para auxiliar a classe média na execução das tarefas domésticas, nas sociedades mais desenvolvidas foram surgindo em força os abençoados eletrodomésticos. Uns, indubitavelmente, para compensar a falta de capacidade financeira para contratar auxílio humano para a execução dessas tarefas, outros apenas para dar largas a hábitos consumistas: quem nunca comprou um eletrodoméstico que nunca usou? Eu, por exemplo, tenho há alguns anos uma faca elétrica numa prateleira de inutilidades.

Agora que se vota para eleger tudo e mais alguma coisa, já dei por mim a pensar — em momento de pouca capacidade intelectual, é certo — qual seria o resultado de uma votação para eleger o eletrodoméstico mais maravilhoso da atualidade. Talvez o inevitável frigorífico. Restringindo a eleição a aparelhos de auxílio nas tarefas domésticas, acredito que as respostas pudessem andar maioritariamente entre a máquina de lavar louça e a máquina de lavar roupa. Excluo aqui, propositadamente, a aclamada Bimby: primeiro, porque nunca tive qualquer tipo de contacto com esse prodígio da sociedade contemporânea; depois, a julgar pelos relatos entusiasmados de quem a descreve com todo o seu poder multifuncional, tendo a considerá-la não tanto como um eletrodoméstico mas mais como uma empregada doméstica   e longe vão os tempos em que a fraca consciência social permitia olhar uma empregada doméstica como uma mera máquina.

Na mesma prateleira de inutilidades da já citada faca elétrica, tive durante largos meses uma máquina de fazer pão. Mas em boa hora a resgatei dessa prateleira. E hoje nem tenho dúvidas em elegê-la como um dos meus eletrodomésticos favoritos. Acordar pela manhã com o cheiro a pão quente  sempre tive um certo fascínio pelo cheiro das padarias  sem ter que descer para comprá-lo, é algo que só uma máquina superdotada poderia proporcionar-me. Com a programação certa — e abrindo mais ou menos portas entre a cozinha e o quarto — consigo o aroma com a intensidade ideal para me invadir agradavelmente as narinas ao despertar. Invasão essa que, é certo, me conduz a dúvidas pungentes: deixo-me inebriar pelo aroma e durmo mais uns minutos? Ou saio já para barrar a manteiga no pão quente? Ou será que hoje prefiro geleia?

E, convenhamos, haverá forma mais agradável de começar o dia do que com dúvidas como estas? Haver há, mas não muitas.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O jantar de Natal com o Madeira

«Geralmente são os bens que provêm 
do acaso que provocam inveja»
Aristóteles

Ia já para 10 anos que o Madeira jantava com a família Figueiredo na noite de Natal. Depois que enviuvara, passara a ser presença habitual na casa dos Figueiredo nessa noite, mesmo após terem perdido a cumplicidade de vizinhos porta com porta, quando os Figueiredo se mudaram para outra parte da cidade.

Nos últimos anos a família Figueiredo tinha aumentado. Ao senhor Figueiredo, à dona Adozinda, ao filho e à filha juntavam-se agora o genro e a nora. E, na noite de Natal, o Madeira.

No telefonema da praxe para confirmar a presença do Madeira, foi com surpresa que a dona Adozinda notou da parte dele alguma resistência para cumprir aquilo que já podia ser considerado como uma tradição de longa data. Apercebeu-se depois que o Madeira arranjara uma namorada e não se sentia muito à vontade para aparecer com ela. Por certo, pensou a dona Adozinda, cedera à insistência de alguma viuvinha ou solteirona — frequentes assediadoras do Madeira — e sentia-se inibido para aparecer com ela. Coitado do Madeira, é tão bom, pensou ainda a dona Adzinda. Mas ela conhecia bem o Madeira e sabia que com alguma insistência o convenceria a aparecer com a namorada. E assim foi.

Na noite de Natal, enquanto aguardavam a chegada do Madeira, a dona Adozinda contou à família sobre a ligeira resistência do Madeira para aparecer naquele ano. Quando souberam do motivo, todos, sem exceção, soltaram um «coitado do Madeira, é tão bom». E concordaram que o importante era que fosse feliz. Os mais propensos a comentários inoportunos foram advertidos para que contivessem os impulsos. Independentemente de como fosse essa namorada, o Madeira era praticamente da família.

Foi já perto da hora do jantar que apareceu o Madeira acompanhado da sua namorada na casa dos Figueiredo. E foi com indisfarçável surpresa que todos constataram que a suposta «viuvinha ou solteirona» se tratava afinal de uma bela e airosa mulher na flor da idade — aproximadamente da mesma idade da filha e da nora dos Figueiredo — exalando sensualidade. Doutorada em psicologia, de conversa fluente, tornou-se naturalmente o alvo de todas as atenções nessa noite.

Quando o Madeira e a namorada saíram, ficou a família Figueiredo em alvoroço, exibindo sentimentos que denotavam uma clara falta de espírito natalício: eles com inveja do Madeira, elas com inveja das qualidades da namorada do Madeira. Houve discussões entre os casais mais jovens por causa do deslumbramento masculino pela namorada do Madeira. E tentativas — frustradas — das esposas depreciarem as óbvias qualidades da namorada do Madeira. Mesmo o senhor Figueiredo, poucos anos mais velho do que o Madeira, foi apanhado a divagar sobre atributos da namorada do Madeira. Naquela noite de Natal a harmonia da família Figueiredo ficou seriamente abalada.

Já mais tarde, na cama, o casal Figueiredo conversou bastante sobre a namorada do Madeira. E a dona Adozinda decidiu que enquanto o Madeira estivesse com aquela mulher não voltaria a ser convidado para o jantar de Natal. Em nome da harmonia familiar. Mas que diabo teria o Madeira para estar com aquela mulher?

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Os Conzet

O seu nome era Conzet. Louis Conzet. Vendo-o ali estendido, com a alma já entregue ao criador e pronto para seguir na viagem eterna, é difícil imaginar a vida de luxo e luxúria pela qual acaba de passar o Conzet. Especialmente nas décadas de 60 e 70, quando o seu estilo marcou uma geração e a sua degeneração marcou um estilo. Houvesse no seu período áureo a quantidade de publicações rosa e rosa choque de hoje em dia e a sua influência no meio dos socialmente relevantes da capital e arredores – ilhas dos Açores e Madeira incluídas – teria atingido ainda maior protagonismo.

Velam o corpo do Conzet menos de uma dúzia de amigos: os poucos que lhe sobraram dentre as várias centenas que já possuiu. Ainda os pais do Mark Zuckerberg não sonhavam ir um com o outro para a cama  – ou lá onde o sujeito foi feito – e já o Conzet preconizava amizades aos centos no bom estilo facebookiano. Com a decadência física e os problemas financeiros, os amigos começaram a escassear. Naturalmente. Comparecem agora, na hora da grande despedida, apenas os autênticos, aqueles que verdadeiramente sentirão falta da sua existência alegre e das suas excentricidades.

Da sua família nunca muito falou. E, em momento algum, entrou em grandes detalhes sobre enredos da sua teia familiar. Apenas uma ou outra referência esporádica a origens na Riviera francesa, mencionando inclusive um ligeiro parentesco à família real — ou dir-se-á principal? — do Mónaco. Tendo em conta a forma esquiva como sempre abordou o tema, várias foram as conjeturas de que a sua ascendência entroncasse em algum galho bastardo da árvore dos Grimaldi. Mesmo assim, algo bem visto no seu meio social, sem dúvida. Mas não a ponto de permitir a alguém com a classe e o orgulho do Conzet conversar aberta e francamente sobre o tema.

Viveu e padeceu de inúmeros amores, mas nunca se casou. Só muito recentemente, e já depois do coração do Conzet ter perdido por completo a capacidade de amar, o Estado português permitiu que o amor sem impedimentos de género pudesse livremente firmar contrato nupcial. Quanto a filhos, o impedimento sempre foi biológico. E continua a vigorar.

A última frase que proferiu foi um surpreendente e revelador «avisem a minha irmã...». E ainda no mesmo fôlego, apontou para o telemóvel sobre a mesa de cabeceira e murmurou, já com visível dificuldade, duas palavras que os presentes entenderam como «Louise Conzet». De imediato, algum deles se aproximou do telefone e tentou, dentre a extensa lista de nomes, descortinar uma tal Louise. Em vão. O nome mais próximo que encontrou foi uma tal de Luiza. Sem grande alternativa, acabou por fazer o telefonema para essa mesma Luiza. E confirmou que efetivamente se tratava da irmã do Conzet. O mistério adensou-se.

Foi com alguma expectativa que cerca de meia dúzia de horas depois receberam na pequena sala do velório a até então desconhecida irmã do Conzet. Aparentava ser uns anos mais velha que o irmão e, surpreendentemente, revelava-se aos amigos do Conzet com um ligeiro acento beirão.
— Faça favor de se sentar — diz algum dos presentes com ar grave.
— Muito obrigada. Agradeço por me terem avisado.
— Ora essa, foi o último pedido do seu irmão.
— Pouco quis saber de mim em vida, pesou-lhe a consciência na hora da morte. Talvez por eu nunca ter gostado dessa farsa dos Conzet.
— Como assim?
— Mas nas horas de aperto dos últimos anos foi sempre a mim que recorreu.
— Farsa dos Conzet? Quer dizer que os Conzet não existem?
O ar pesaroso da sala foi nesse instante interrompido por um leve sorriso da senhora, que explicou:
— Existem sim: Luiz e Luiza, com "z" em vez de "s" — afirma com alguma graça, em parte conferida pelo acento beirão que muito se fez notar ao proferir as letras "z" e "s". E prosseguiu: — A história é simples. Na sua primeira visita ao Porto, o meu pai ficou de tal forma impressionado com a ponte D. Luiz que prometeu prestar-lhe homenagem atribuindo esse nome a um filho. Eu nasci primeiro. Não sabendo se viria filho varão, jogou pelo seguro e despachou-me logo com o nome de Luiza. Luiza com z. Mais tarde nasceu o meu irmão e, aí sim, o meu pai teve oportunidade de cumprir a contento a sua promessa. Anos mais tarde, a história teve novo desenvolvimento quando o Luiz entrou no colégio. Para distingui-lo de um outro Luís que por lá andava, os colegas começaram a apelidá-lo de «Luiz com "z"». E o meu irmão afeiçoou-se ao nome. Afeiçoou-se tanto que nunca mais o largou. Estilizou-o quando veio para Lisboa estudar Direito, mas os estudos deram para o torto. O Luiz rapidamente descobriu mais interesse em alguns colegas da vida boémia da capital do que nos estudos. O resto vocês devem saber melhor do que eu...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Estudos de equilíbrio

Os estudos são como tudo: valem o que valem (e utilizo aqui um recurso lapalissiano por não ter encontrado maneira mais interessante de começar este texto). Dependendo de quem os realiza, da forma como os realiza ou das conclusões que deles são extraídas, tanto podem surgir para acrescentar informação de valor, como redundar num desastre total.

Para ilustrar o que pretendo dizer com desastre total, podia aqui referir as recentes conclusões de João Duque e seu naipe de ases na sequência de um suposto estudo sobre a RTP. Contudo, aquilo pareceu-me mais um documento produzido com segundas intenções para agradar a terceiros do que um estudo sobre a RTP. Por conseguinte, não merece ser aqui citado, nem na categoria de estudo que redundou num desastre total.

Nessa categoria, prefiro recordar um estudo feito há uns anos — não sei onde, nem por quem, mas talvez até seja melhor assim —, cuja conclusão ditava algo como: «descafeinado faz mal ao coração». O estudo foi divulgado nos media e, como a conclusão era surpreendente, o estudo foi repensado — nem sei até que ponto já tinha sido pensado antes, mas concedo aqui o benefício da dúvida aos seus autores. Repensamento feito, concluiu-se que, afinal, não era bem assim: o que sucedia é que pessoas com problemas do coração — e não me refiro aos mal de amores — tinham já, à partida, uma certa tendência para substituir o café pelo descafeinado. É evidente que uma inversão entre causa e efeito pode desvirtuar um pouco o valor de um estudo.

Exemplos inequívocos — pelo menos para mim — de estudos com valor são regularmente levados a cabo pela CareerCast.com sobre as melhores profissões nos Estados Unidos. Nesses estudos são tidas em conta as características de cada profissão, entrando em consideração fatores como a remuneração, a responsabilidade e o stress. O estudo de 2011 revelou a profissão de matemático como a segunda melhor do ranking, apenas atrás da de engenheiro de software. Surpresa? Só para quem não tem estado a par dos resultados desses estudos, pois a profissão de matemático já tinha ocupado a sexta posição em 2010 e a primeira em 2009!

Trabalho num país muito diferente dos Estados Unidos, onde a valorização profissional não é necessariamente a mesma — em Portugal a coisa funciona mais a sério e não se dá valor por aí além a esses alucinados matemáticos —, mas nos tempos que correm não posso deixar de considerar como excelente um estudo que revela resultado tão animador. E manda o meu manual de equilíbrio psíquico e emocional que encare tal estudo como bem pensado, bem realizado e bem concluído! Mais não seja, para ter o conforto de saber que quando a situação por aqui apertar para valer, ainda há lugares neste belo mundo onde um exílio pode compensar.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Bolero de Ravel

Se é verdade que a paixão intensa por diferentes clubes de futebol pode transformar alguns machos da espécie humana — claramente, parece-me ser mal que ataca apenas os machos — em autênticos inimigos mortais, não é menos verdade que a paixão por um mesmo clube pode ser fator de saudável convívio e integração social. Que me perdoem as mulheres por tal comparação, mas diria mesmo que o comportamento entre homens por causa da paixão por um clube se encontra nos antípodas do seu comportamento por causa da paixão por uma mulher: sendo a partilha algo muito apreciado no primeiro caso, salvo em eventuais exceções de gosto swingueiro, dificilmente o será no segundo.

Ninguém duvide que foi precisamente essa partilha da paixão por um mesmo clube — de elevado quilate, diga-se em abono da verdade — fator preponderante — e essencialmente único — para que o Gonçalo Luís e o Quim tivessem conseguido manter fortes os laços de amizade que os uniram desde a infância. A vida transformou o Gonçalo Luís num homem de sucesso na alta finança e o Quim em herdeiro natural da modesta mercearia do pai. De comum entre eles sobrou apenas um profundo amor pelo Benfica. Os dribles do Chalana, as arrancadas do Isaías, a geometria do Rui Costa ou a magia do Aimar foram, ao longo dos tempos, interpretados e descritos de forma quase coincidente por esses dois amigos de recursos vocabulares e intelectuais tão distintos.

O Estádio da Luz era o lugar onde melhor se entendiam. E onde, de longa data, iam com muita frequência juntos. Sempre no carro do Gonçalo Luís. Numa dessas deslocações para o estádio o rádio ia sintonizado numa dessas emissoras onde passa regularmente música clássica — acho que só há uma e chama-se Antena 2. Em dado momento começou a tocar o Bolero de Ravel.
— Um filme do caraças — diz o Quim.
O Gonçalo Luís estranhou que pudessem estabelecer conversa através do cinema. Ainda menos tendo como intermediária a música clássica. Mas não deixou de responder:
— Sim, sem dúvida, um grande filme!
— Quantos anos?
— Tínhamos uns 15, não?
— Cena espetacular com esta música!
— É, o final é espetacular.
— Final?!
— Sim, a cena da dança e o grande plano sobre a cidade.
— Cidade? Qual cidade?!
— Paris!
— Paris?!
— Sim, a capital da França.
— Eu sei que Paris é a capital da França, pá!
— Mas a cena não é em Paris?
— Não, é na cama!
— Na cama?!
— Sim. Nunca me esqueci. Foi um dos filmes da minha vida durante cinco dias. E só deixou de ser depois que a cassete encravou no leitor de vídeo.
— Estou intrigado. De que filme estás a falar?
— Daquele... com aquela gaja... a Boa Derek, não te lembras?
— Ah... esse filme: «10 - Uma Mulher de Sonho»!
— Isso!
— Não, eu estava a falar de «Uns e os Outros», do Claude Lelouch.
— Esse não vi... é bom?
— Muito. Mas demasiado longo e com pouca ação para o teu gosto.
— Ah...

Não foi ainda esta vez que o Gonçalo Luís e o Quim encontraram outros pontos de contacto que lhes permitisse reforçar a já longa amizade entre eles. O saudável convívio entre os dois continuaria a ser alimentado exclusivamente pela intensa paixão desportiva em comum.

sábado, 26 de novembro de 2011

Notas da semana

Num texto com este título, seria impossível não me referir à Greve Geral desta semana. Na lavagem dos cestos, o que mais se discute são percentagens, infiltrações e quem deu tareia em quem. Infelizmente sinto que, à distância a que me encontro, não posso dar contribuição de valor para o esclarecimento de nenhuma dessas grandes questões. Assim sendo, prefiro dedicar-me a outra não menos importante e vezes sem conta repetida: «greve para quê se não tem efeito prático?»

Convenhamos, dificilmente uma greve terá outro efeito que não seja o de conferir força à luta dos trabalhadores descontentes. O efeito prático de uma greve é quase sempre indireto, e esta não poderia deixar de fugir à regra. Serviria, especificamente, para aquilatar o grau de descontentamento dos trabalhadores em relação às medidas que estão a ser tomadas pelo governo.

Mas talvez a maioria não esteja ainda muito descontente; ou então, acredite piamente no discurso oficial do caminho inevitável; ou então, esteja sem capacidade de prever os efeitos secundários destas medidas austeritárias; ou então, já não se sinta suficientemente protegida pela fraca democracia que temos hoje para ousar fazer greve.

Acresce que os funcionários públicos estão a ser apontados pelos detentores do poder como o grande problema do país e os seus sacrifícios a nível salarial a tábua de salvação. Sem mais. Claro que, sendo por enquanto um problema essencialmente dos funcionários públicos, os outros ainda assobiam para o lado.

O que não sabem é que lá bem no fundo já é um problema de todos. Tanto à escala europeia, como à escala nacional, a similaridade com a situação retratada no poema de Martin Niemöller (muitas vezes erradamente atribuído a Bertold Brecht) já me parece grande:

«Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me,
porque, afinal, eu não era comunista.
Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, 
porque, afinal, eu não era social-democrata. 
Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, 
porque, afinal, eu não era sindicalista. 
Quando levaram os judeus, eu não protestei, 
porque, afinal, eu não era judeu. 
Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse.»

E para que consigamos fazer «da nossa falência uma vitória, uma coisa positiva e erguida, com colunas, majestade e aquiescência espiritual», como bem recomendou o desassossegado Bernardo Soares, nada melhor do que deixar aqui referência para aquelas que me pareceram ser as melhores notas desta semana, através voz desse maravilhoso cantor, músico e poeta dos nossos tempos, de seu nome Leonard Cohen: Show Me The Place. Sim, alguém que nos mostre outro lugar, porque a coisa por estes lados está cada vez mais complicada.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O Beaujolais Novo chegou!

Que os franceses têm uma relação muito especial com o vinho eu já sabia. Não tinha era noção de algumas variantes nas manifestações dessa relação afetuosa. E não se pense que a afetuosidade é dedicada apenas às castas mais nobres, pois até o Beaujolais, vinho produzido numa região com o mesmo nome, situada ao norte de Lyon, em geral sem qualidades que o guindem a patamares muito elevados, tem direito a honrarias. Por ser um vinho que deve ser bebido jovem, tem a seu favor a primazia na chegada às lojas, escassos dois meses após a colheita. E manda a tradição que a sua chegada seja anunciada com a frase «le Beaujolais Noveau est arrivée!». Desconhecendo o ritual em torno do Beaujolais Novo, há dias fui vítima da minha própria ignorância, primeiro metendo os pés pelas mãos e depois tendo que meter a mão no bolso.

Cena 1: os pés pelas mãos.
Quarta-feira, 16 de Novembro.
Passando por um pequeno supermercado próximo da minha residência marselhesa já perto da hora do fecho, noto uma mesa estrategicamente colocada junto à entrada, onde alguém arrumava cuidadosamente sobre essa mesa garrafas de várias marcas de Beaujolais Novo. Notando que se tratava da colheita de 2011, pareceu-me boa ideia levar uma ou duas garrafas para casa. Como a nível de preços não havia muita variedade, deixei-me levar pelo poder de atração de um dos rótulos e peguei (erro 1) uma das garrafas. Prontamente, fui repreendido pelo sujeito que arrumava essas garrafas sobre a mesa: só podia comprar desse vinho no dia seguinte. Saí de lá conjeturando que as garrafas não estavam ainda catalogadas para venda (erro 2). Mais tarde vim a saber que a comercialização do Beaujolais Novo começa religiosamente na terceira quinta-feira de novembro. Que profano tentei ser!

Cena 2: a mão no bolso.
Quinta-feira, 17 de novembro.
Saindo com uns amigos (não franceses) para jantar num restaurante, aprecebemo-nos de um movimento anormal em frente a algumas lojas de vinhos na cidade, com mesas sobre a calçada e taças para degustação. Degustação de quê? Do Beaujolais Novo, bien sûr! Chegando ao restaurante, um folheto sobre cada mesa anunciava a presença do ansiado Beaujolais Novo naquele restaurante. Gerada a expectativa, perante a sugestão do empregado para tomarmos daquele vinho, nem paramos para perguntar o preço (erro 3). Sabendo que o Beaujolais não era normalmente vinho para preços muitos elevados (erro 4), a imprudência não podia ter sido muito grande (erro 5). Felizmente, antes de pedirmos a terceira garrafa alguém teve  a sensatez de perguntar o preço. Devo dizer que após termos sido informados dos 27 euros que custava cada garrafa saboreei com outro respeito um último trago que restava no meu copo. Saímos do restaurante com a conta significativamente afetada pelo preço do vinho, mas com a boa sensação de termos tomado um Beaujolais Novo muito especial. Se há prazeres que não se explicam, este foi provavelmente um deles!

Epílogo.
Sexta-feira, 18 de novembro.
Sabendo que, agora sim, estava autorizado a levar para casa o Beaujolais Novo, no fim do dia passei novamente pelo pequeno supermercado perto de casa. Dada a pouca sofisticação do local, nem por sombras muito otimistas esperava ver lá (erro 6) um Beaujolais Novo tão especial quanto o tomado na véspera (a 27 euros a garrafa, é bom lembrar). Mas, para meu grande espanto (entre outras sensações...), nem precisei de procurar muito para facilmente notar a mesmíssima garrafa do vinho tomado no restaurante, agora pela módica quantia de aproximadamente cinco euros! Considero normal tomar vinho num restaurante a duas ou três vezes o seu custo nas lojas, mas esse Beaujolais Novo foi multiplicado por um fator muito próximo dos 5.5. Levando apenas em conta a valorização entre o supermercado e o restaurante, é seguramente o vinho mais fantástico que alguma vez tomei!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Pensamento é fogo (que arde sem ceder)

Pensamento é coisa deveras difícil de controlar. Tanto pode crescer de forma desgovernada até ao limite do absurdo, como estacar num pequeno detalhe e não deixar que nada mais de valor brote do cérebro que o produz. E, por contraditório que possa parecer — tratando-se de pensamento não é —, é facilmente sugestionável: vamos supor que lhe digo para pensar em flores vermelhas. Pensou, não é? E lhe disser para não pensar em flores vermelhas? Também pensou, não é? Em suma, facilmente sugestionável mas dificilmente controlável.

Uma das tarefas mais árduas que conheço é, seguramente, a de tentar adivinhar pensamento — esqueça todos os números de circo que já viu, porque aquilo é tudo combinado. Pior mesmo, só tentar adivinhar pensamento de mulher. Quantas vezes, meu caro amigo, em meio a uma conversa com a sua cara metade — ou lá quanto ela vale —, lhe apeteceu perguntar: «como diabo te foste lembrar agora disso?». Não pergunte, pois parecerá que está — e estará mesmo — a desvalorizar o assunto por ela despoletado em favor do processo lógico que o desencadeou. Por mais interessante que isso lhe pareça, ela não vai apreciar. Nem, tão pouco, tente entender essas coisas por si só: na complicada e singular lógica feminina há um encadeamento de ideias quase inacessível mesmo aos mais dotados cérebros masculinos — homossexuais incluídos. No universo masculino, os objetivos são sempre muito mais claros, os processos são sempre muito mais simples e os temas andam quase sempre à volta dos mesmos (dois ou três) tópicos.

O Francisco, que era um sujeito pouco avisado para essas coisas, conduzia o carro a alta velocidade — praticamente à mesma velocidade com que se espalhava em pensamento... —, enquanto a Glorinha seguia calada a seu lado. E por que motivo se espalhava em pensamento o desavisado Francisco? Ora, sentindo a Glorinha estranhamente calada durante largos minutos, resolveu tentar adivinhar-lhe o pensamento. Pior do que isso: tentou adivinhar a causa e o pensamento. Recuou às últimas palavras que trocaram e, rapidamente, achou que tinha descoberto: «está assim por causa de uma palavrinha azeda que me escapou... é óbvio que só pode ser isso... mas não pode ser isso... que mal tem isso de uma palavrinha azeda aqui ou ali?... um homem não é propriamente uma refinaria de açúcar!... estas reações dela por palavrinha de nada são cada vez mais irritantes!!... estão a tornar-se insuportáveis!!!... como é que a Glorinha pode agir assim comigo?!!!...»

Tudo isto e muito mais foi produzido numa súbita enxurrada de pensamentos pelo Francisco. Quando o crescendo de pensamentos — espiralando em torno do mesmo tema — já o levava perto da situação absurda de pensar pedir o divórcio da mulher que amava, surge uma inesperada interpelação:
— Chico?
— Sim.
— Vinha aqui a pensar...
— Sim?
— Sobre aquele problema que te falei ontem: acho que vou fazer como sugeriste.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O negócio dos saquinhos

Mesmo quem muito viaja de avião poderá não estar consciente de todas as variantes possíveis no filão dos negócios aeroportuários. Especialmente fulanos como eu que, com muita frequência, por lá passam exilados no mundo das ideias.

Há dias fiz uma viagem entre Marselha e Lisboa, com ida num domingo e volta na terça-feira seguinte. Para abreviar procedimentos na partida e na chegada, optei por levar apenas bagagem de mão. Ciente das restrições para certo tipo de produtos a bordo, tive o cuidado de deixar as armas brancas (e outras) em casa e de não levar líquidos em volumes superiores aos 100ml permitidos por lei. Em Marselha, coloquei a pequena mala na esteira rumo ao raio X e nem o facto de ser eu o único passageiro por lá naqueles minutos fez com que quisessem mostrar serviço. «Bon voyage!», foi tudo quanto me disseram.

Dois dias depois, o embarque em Lisboa: uma enorme fila de passageiros antes do raio X e um grande contingente de seguranças da Prosegur junto às esteiras para rastreio da bagagem de mão. Instruíam os passageiros que devia ser retirada da bagagem de mão todo e qualquer líquido, mesmo líquidos em volume abaixo dos 100 ml permitidos. Ordem recebida, ordem cumprida: de imediato, retirei o pequeno estojo com os objetos de higiene, asseio e perfume do interior da minha pequena mala. 
– Não não, meu senhor, tem que colocar essas coisas dentro de um saco transparente! – esclarece o diligente segurança.
– Bom... mas... não tenho nada disso.
– Lá atrás – aponta o segurança para um primeiro ponto de controle de passageiros – tem uma máquina com sacos.

«Lá atrás» significava ter que regressar ao ponto de partida e voltar a encarar aquela enorme fila. Sem outra opção, lá fui eu, de mau humor, em busca da tal máquina dispensadora de sacos. É bom que fique claro que não me refiro a sacos num material muito especial ou com um fecho não sei das quantas. Não. Refiro-me àqueles banais saquinhos plásticos que facilmente se encontram aos pacotes de 50 ou 100 em qualquer supermercado, ao preço de um ou dois euros (os 50 ou 100, claro), muito úteis para guardar produtos no frigorífico ou no congelador.

No aeroporto de Lisboa (imagino que noutros também, mas foi este o primeiro onde senti o problema) esses saquinhos tornaram-se uma boa oportunidade de negócio. A ideia da máquina é a seguinte: deposite um euro e receba em troca um saquinho. Como tenho uma certa aversão a alimentar ideias oportunistas, optei por me dirigir de novo ao balcão da companhia aérea e despachar como carga a bagagem que deveria ser de mão. Correndo o sério risco de ver danificada (e nem sempre ressarcido pela companhia) a frágil mala, é certo. Mas preferi arriscar ter que gastar 50 euros numa mala nova, a contribuir com um euro para um negócio obsceno como esse. No final das contas, em caso de má sorte, o prejuízo já só seria de 49 euros (2% de desconto estava desde logo garantido!).

A mala chegou bem, obrigado.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Entre a loucura do telefone e os encantos da powerbox

«Insanidade: fazer a mesma coisa repetidas vezes 
e esperar resultados distintos»
A. Einstein

O casal encontra-se confortavelmente instalado no sofá da sala a explorar os inúmeros encantos da powerbox, quando o telefone toca. Ele levanta-se e vai atender. Regressando ao sofá – e aos encantos da powerbox – é interrogado por ela:
– Quem era?
– Ninguém... foi engano.
Volvidos alguns minutos o telefone volta a tocar. Ele levanta-se e, mais uma vez, vai atender. No retorno ao sofá – e aos encantos da powerbox – é novamente questionado por ela:
– Quem era?
– O mesmo de há pouco. Procura um tal de Dr. Amorim.
– Perguntaste-lhe para que número estava a ligar?
– Sim.
– E então?
– Disse o nosso.
– Estranho...
Não demorou muito para o telefone voltar a tocar. Ele levanta-se pela terceira vez e, com cara de poucos amigos, vai atender. Quando regressa ao sofá, nem espera que ela o questione para lhe dizer com visível irritação:
– Que fulano louco! Insiste em ligar para cá à procura do tal Dr. Amorim.
– Muito louco...
Já sem ambiente para explorarem os encantos da powerbox, a atenção do casal fica agora centrada nos enigmáticos telefonemas. E o telefone toca pela quarta vez. Desta feita, ela levanta-se primeiro e vai atender. Na volta confirma:
– O mesmo. Procurando o Dr. Amorim.
– Que loucura! Melhor desligar o telefone.
– Deixa, pode ser que agora não ligue mais.
– OK.
Os minutos passam, o telefone não volta a tocar e eles podem de novo desfrutar dos encantos da powerbox. Aos poucos, a serenidade do casal começa a ser ameçada por uma certa inquietação dele. Notando-o inquieto, ela pergunta:
– Que tens tu?
– Estou intrigado...
– Com quê?
– Com a história dos telefonemas.
– Imaginei...
– Como é que conseguiste despachá-lo?
– Fácil: já atendi dizendo que era do consultório do Dr. Amorim, especialista em psiquiatria.
– Que disse ele?
– Que precisava de falar com o Dr. Amorim.
– E como é que o despachaste?
– Disse que o Dr. Amorim tinha ido de férias e só regressa no final do mês.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O Restaurador Olex ®

A publicidade televisiva tem atualmente ao seu dispor meios que seriam praticamente impensáveis há algumas décadas atrás, com recursos para a criação de filmes publicitários que, por vezes, são autênticas produções hollywoodianas. Apesar do muito aparato (ou talvez pelo exagero do aparato), fico com a sensação de que nessas produções escasseia capacidade para se imporem no imaginário coletivo da mesma forma que se impunham algumas publicidades (ou reclames, como era costume dizer-se) do passado com recursos muito mais limitados.

Quem se encontra numa faixa etária acima dos trinta-e-muitos, certamente ainda guarda na memória (e, quem sabe, também na despensa) produtos como Boca Doce ®, Fantasias de Natal ®, Mokambo ® ou Trinaranjus ®. Apesar da produção simples e dos orçamentos irrisórios, todos eles se tornaram profundamente marcantes, fosse pela doçura dos seus intérpretes, pela cançãozinha que facilmente (até demais) se colava ao ouvido, ou até mesmo pela ligeira graçola.

Igualmente dessa época, igualmente inolvidável (porém, sem nenhuma das características atrás mencionadas) é a publicidade do Restaurador Olex ®. Não sei até que ponto foi intencional, mas se alguém tentou, conseguiu: impera o mau gosto do princípio ao fim. Apesar disso (ou talvez por isso), marcou o imaginário de uma geração. Quem a viu e ouviu dificilmente esqueceu que «um preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha não é natural; o que é natural e fica bem é cada um usar o cabelo com que nasceu».

Nunca pratiquei yoga (por manifesta falta de tempo, obviamente), mas sou totalmente favorável à filosofia do ser como uno, corpo e mente em saudável harmonia. Em algumas intervenções orais do (jogador de futebol) Hulk, ficava com a sensação de que ele era naturalmente loiro. Sentia que o disfarce capilar em tom escuro não combinava. Finalmente, no passado fim de semana, ele resolveu seguir o conselho (quiçá, utilizando o produto) do Restaurador Olex ® e devolver a cor natural ao seu cabelo. Fica assim mais harmoniosamente preparado para enfrentar as agruras de um campeonato onde já deu mostras de sentir dificuldades de autocontrolo, principalmente na penumbra dos túneis.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Já nem o diabo os quer

Não tenhamos ilusões, do outro lado eles sabem tudo o que se passa por cá. E, dependendo do comportamento dos figurões deste lado, podem acontecer negociações entre um e o outro. Por estes dias houve uma interessante chamada telefónica de Deus para o Diabo:
 Estou.
 Aleluia! Finalmente atendes.
 Calma, Deus, temos a eternidade à nossa frente!
 Que estavas tu a fazer?
 Coisas do Diabo...
 Ai, ai, essas tuas coisas... Mas vamos ao que interessa: como estás de reservas?
 Que tipo de reservas?
 Para governantes portugueses.
 Nem pensar!
 Nem pensar?!
 Sim, por duas ou três gerações não aceito mais reservas.
 Oh Diabo, complicas-me a missão!
 Porquê, mais algum se portou mal?
 Sim, esse novato, o Passos Coelho.
 Que aprontou?
 Mentira.
 Mentira?
 Sim, mentiu.
 E queres mandá-lo cá para baixo por uma coisinha dessas?
 Coisinha?! Mentira descarada com a clara intenção de tirar benefício pessoal. Um grande aldrabão!
 Ah, Deus, perdoa-lhe.
 Não posso, Diabo, enganou milhões de fiéis. Aceitá-lo aqui dá-me cabo da reputação da casa.
 Bom, dessa casa sabes tu.
 Mas, deixa-me que te diga, isso de não aceitares reservas nem parece coisa tua.
 É verdade, mas esses governantes portugueses são do pior.
 E não é do mal que te alimentas?
 Sim, sim, claro. Só que esses gajos são insuportáveis!
 Por que dizes isso?
 No sistema deles, qualquer medíocre bem-falante apadrinhado num tal de centrão ganha facilmente protagonismo na cena política nacional.
 E daí?
 Depois transita do mundo da política para o mundo empresarial, como executivo topo de gama, enquanto eu esfrego um olho.
 E não gostas de promiscuidade?
 Claro que gosto! O chato é que esses governantes portugas se dão tão bem por lá, vão tão além das expectativas que os méritos pessoais recomendariam, que depois lhes custa demasiado abandonar as mordomias da vida na terra.
 E que mal tem isso para ti?
 Ora, com a alma deles, com o tal do fado enraizado, esses medíocres bafejados pela fortuna terrena chegam aqui demasiado chorões. Podes crer, vão muito além do razoável!
 E isso incomoda-te?
 Claro! Choram tanto que me estragam a fogueira. Depois que queimo um, há um trabalhão do Diabo para fazê-la voltar ao normal.
 Ai essa tua preguiça!...
 Pouco importa, preguiça ou não, já decidi não aceitar mais reservas para esses fulanos por uns tempos.
 E que faremos então com o Passos Coelho e mais uns quantos na forja?
 Sei lá, tu que és Deus resolve!
 Não estou a ver como... Em punições tu costumas ser melhor.
 Bom... surgiu-me uma ideia.
 Que ideia?
 Aumentamos o tamanho do purgatório e deixamo-los por lá a purgar na incerteza para todo o sempre.
 Só tu para te lembrares de uma coisa dessas!
 Modéstia à parte, não gosto de deixar os meus créditos por mãos alheias. E, neste caso, a necessidade aguçou-me o engenho!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A chama oculta

O Júlio e a Teresa visitavam pela primeira vez o Mendonça no apartamento onde este tinha recentemente ido morar com a Mariela. Tratava-se do primeiro encontro do casal com essa tal Mariela. «Um pouco sem sal», pensou o Júlio após as primeiras impressões colhidas. E acrescentou para consigo mesmo: «Não entendo que chama viu o Mendonça nesta insulsinha para ter abandonado o lar daquela forma». Para ser mais exato, além do lar, tinha também abandonado a esposa e dois filhos menores.

O Mendonça teve sempre no Júlio um parceirão à altura a quem invariavelmente contava todos os detalhes  ou talvez apenas os mais sórdidos  sobre a sua vida conjugal e extra-conjugal nos momentos mais importantes. No entanto, para grande desapontamento do Júlio, desta vez tinha sido muito parco em palavras e mais ainda em explicações: «Preciso de uma nova chama na minha vida», foi apenas o que disse o Mendonça quando comunicou ao Júlio o seu novo rumo.

Tomados os aperitivos da praxe na sala de estar, os anfitriões sugeriram que se dirigissem para a mesa de jantar. O Júlio e a Teresa sentaram-se de um lado da mesa — com a Teresa à esquerda do Júlio —, o Mendonça e a Mariela do outro lado. Tendo o Júlio ficado em frente à Mariela  e o Mendonça em frente à Teresa, mas isso pouco importa para o caso , uma apreciação mais detalhada da Mariela tornou-se praticamente inevitável. «Mesmo muito sem sal», pensava novamente o Júlio para com os seus botões, quando sentiu um ligeiro roçar — da batata de uma perna, supôs  na sua perna direita. A Teresa não podia ser  longe ia o tempo em que a Teresa dava largas aos seus dotes de contorcionista para roçar os membros do Júlio. O Mendonça nem pensar. Só podia ser... acidental. E era a batata da perna da Mariela, claro. «Acidental? Mas desta forma? Queres ver que a mosca-morta afinal tem vida?», pensava o Júlio, quando sentiu um novo roçar na sua perna.

Vítima de tais atrevimentos sob a mesa, o Júlio ficou naturalmente por fora da conversa que os outros três mantinham por cima  algo que todos notaram sem necessidade de recurso a especiais dotes no campo da perspicácia. Sentindo o alheamento do amigo, pergunta provocatoriamente o Mendonça:
 Não é Júlio?
 O quê? O quê?  responde o Júlio visivelmente atrapalhado para risada geral.
 O Júlio é sempre assim calado?  resolve acrescentar a Mariela.
A pergunta da Mariela funcionou como lenha na fogueira para o pobre Júlio: «Grande safada, não só me assedia por debaixo, como ainda me provoca por cima!»

A avaliar pelo comportamento da Mariela na primeira vez que se encontravam, o Júlio começava a entender onde podia o Mendonça ter descoberto nela a chama que lhe faltava. Mas continuava sem vislumbrar justificação para a leviandade com que tinha abandonado o lar  com a esposa e os dois filhos menores  e mergulhado de cabeça numa relação séria  seria? — com tal galdéria. Nesse momento já os outros três comentavam  com alguma preocupação  sobre o ar ausente e preocupado do Júlio. Tentando distrair o amigo, pergunta o Mendonça:
 Já te disse que temos uma gato?  E dirigindo-se à Mariela:  onde está ele?
 Senti-o há pouco roçar-me a perna debaixo da mesa  responde a Mariela.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

But!

É claro que quem fala bem francês  acredito que seja esse o seu caso  não precisa de ler este parágrafo preliminar. Mas se não se sente à vontade com essa língua  tudo bem, há muito que deixou de ser grave , recomendo-lhe que comece por praticar o som da letra u: faça um biquinho — como se fosse dar um beijo  e diga u sem desmanchar o biquinho. Imagino que você, amigo macho, com receio de ver a sua virilidade posta em causa, vai sentir-se um pouco perturbado. Mas, fique tranquilo, se o seu chefe ou o seu vizinho o apanharem com expressão facial menos recomendável, conte a verdade: que está apenas a praticar francês  mas se lhe apetecer contar algo mais, aproveite o ensejo!

Longe vão os tempos em que a língua francesa dominava o mundo e falar francês se tornava quase obrigatório para quem queria ter boa formação. Ficaram-nos no português diversas marcas desse domínio linguístico, algumas bastante claras, outras mais ou menos disfarçadas: por exemplo, a palavra equipe  e outras do mesmo tipo  vem do francês e teve no português de Portugal a devida (?) adaptação para equipa. Adaptações dessas não aconteceram entre os brasileiros, sempre muito propensos a manterem fidelidade à sonoridade da palavra na língua original na introdução de qualquer neologismo. Com exageros, como é característica desse bom povo: por exemplo, nessa tentativa de afrancesar o u, em vez de menu dizem meni— na Bahia, pelo menos  até o puré vira pirê!  com tanta doçura no u, suspeito que o façam com batata doce.

Infelizmente para os francófonos, há muito que a língua inglesa passou a perna à língua francesa — algo a que os francófonos ainda não se adaptaram  e os anglófonos que se preparem pois os hispanohablantes avançam a olhos vistos — mas isso já são contas de outro rosário. Por causa desse domínio, temos também os anglicismos disseminados pelo nosso bom português, mais uma vez com as devidas (?) adaptações deste lado do Atlântico.

Uma área na qual os anglicismos predominam é a desportiva. E, por maioria de razão, no futebol — boa adaptação! Nunca entendi o motivo pelo qual os meus antepassados lusitanos desviaram o goal para golo, se gol — como se diz, e bem, no Brasil  até é uma palavra com alguma naturalidade em português, com a vantagem de manter fidelidade ao som original. Mas, enfim, nessa palavra em particular, antes golo do que o correspondente galicismo. Imagine-se no despontar do grande êxtase conferida pelo golo (ou gol) da sua equipa (ou equipe): como se sentiria se, em meio a tal êxtase, abraçando o parceiro de torcida, gritasse a plenos pulmões  com o tal u francês em biquinho  buuuuuut? No mínimo, um pouco comprometedor.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A confissão

Havia já alguns dias que a Isaurinha vivia enclausurada no seu quarto. Saía apenas para as refeições — mera exigência parental —, apesar de quase nada comer. Também quase não falava. A Isaurinha alegre e comunicativa de outros tempos tinha dado lugar a um ser pouco mais do que contemplativo. 

«Mal de amores», comentava a mãe. «Falta de ocupação», acrescentava o pai. Inicialmente encararam o alheamento da Isaurinha como algo típico do fim da adolescência. Contudo, com o decorrer dos dias, a preocupação foi aumentando. Especialmente na mãe. Ao terceiro dia a mãe entrou no quarto da Isaurinha com a intenção de ter uma conversa de mulher para mulher. Após muita insistência para que a filha se abrisse, da boca da Isaurinha não ouviu mais do que um singelo e estranho pedido: «quero o padre».

Ao saber do inesperado pedido da Isaurinha, finalmente soou o alarme do pai com todo o exagero que caracteriza o género masculino:
 Extrema unção?  perguntou.
 Não digas disparates!  atalhou a mãe.
 Então só pode ser pecado... Pecado capital!  acrescentou o pai.
 Calma  disse a mãe , o padre é jovem, de mente aberta, alguém com quem os jovens gostam muito de conversar. Provavelmente quer abrir-se com ele.

Imediatamente contactado, poucos minutos depois o padre dava entrada na casa da Isaurinha. Posto ao corrente da situação, pediu para ficar a sós com ela. Para diminuir a ansiedade nos longos minutos de espera, o pai tentou escutar algo através da porta  ato liminarmente condenado pela mãe. Mais tarde, a própria mãe colou o ouvido à porta. Tudo isso em vão, porque do cómodo onde o padre e a Isaurinha estavam reunidos nem uma palavra escapou para o exterior.

Assim que o padre saiu da conversa com a Isaurinha, pai e mãe correram pressurosos em busca de explicação para o mal que atormentava a filha. O padre escudou-se no dever de sigilo da confissão. Após alguma imploração, deixou escapar que, de fato, se tratava de «mal de amores».
 Bem me parecia!  disse a mãe.
 E é preciso isto tudo?  questionou o pai.
 Amores impossíveis...  contrapôs o padre.
 É no que dá ver muita televisão  comentou o pai. E prosseguiu: — Precisa de se envolver mais com a paróquia, ir mais à missa!
 Não, não, isso não! Basta que cumpra a obrigação da missa dominical. E que não fique lá muito na frente...  rematou o padre.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Caminhos do norte

Não diria que se tratava de um sonho de infância, pois nessa idade não cheguei a conhecer os trolls noruegueses, mas a minha recente visita à Noruega foi, inequivocamente, o cumprir de um sonho de longa data. Entre fiordes, lagos, vales verdejantes e montanhas de tirar o fôlego que não me defraudaram as expectativas, foi no padrão de desenvolvimento que tive as maiores surpresas. Consegue imaginar um país com uma área cerca de quatro vezes maior do que a de Portugal com pouco mais do que algumas dezenas de quilómetros de autoestradas? Pois esse país existe e chama-se Noruega. A julgar por esse detalhe, e se não soubesse que se tratava de um dos países mais ricos do mundo, asseguraria que por lá não tinha ainda passado a prosperidade. Claro que isso tem o seu preço e eles não têm uma Brisa ou uma Mota Engil que os encham de orgulho.

Ainda antes de sair de casa, num mínimo de estudo prévio sobre a Noruega (indispensável para quem se propunha percorrer uma boa parte desse paíde carro), constatei que por lá havia (e há) um sistema de portagens muito similar ao que recentemente foi implementado em Portugal nas chamadas (agora só por ironia) estradas Sem Custo para o Utilizador. Não para pagar a autoestradas que, como já disse (e eu nunca minto, mas quando o faço disfarço bem) quase não existem, mas para entrar nas principais cidades ou para passar em alguns túneis. Viadutos quase não vi. Vi sim muitas travessias que em Portugal teriam dado origem a faustosas pontes por lá ainda funcionarem através de ferryboats. Vi também muitos túneis, uns muito longos, outros nem tanto, uns pouco iluminados outros totalmente às escuras. Sem luxo nenhum. Num desses túneis, ao cair da tarde, quando sobre o planalto caía o frio no aproximar de mais uma noite de fim de verão, deparei-me com um rebanho de ovelhas descansando.

Voltando às portagens. «Estou tramado», pensei, «se o sistema de pagamento for como o português, a coisa não está preparada para turistas». «Não vou», pensei de novo. «Mas... e o sonho?», pensei mais uma vez. Não precisei de me alongar muito na sequência de pensamentos, pois rapidamente descobri que os noruegueses, afinal, não tinham montado um sistema de pagamento não preparado turistas. Vejam lá do que eles se lembraram: o visitante estrangeiro vai à página web da Autopass (uma empresa assim tipo Via Verde, mas melhorada) e lá preenche um formulário onde regista a matrícula do carro, o número do cartão de crédito e as datas de vigência para esse registo. Os noruegueses são muito espertos, não são?

Claro que por causa disso acabam por não ter uma indústria de chips (não me refiro às batatas, até porque a culinária foi coisa a que por lá não me dediquei muito a fundo) tão desenvolvida como a nossa. Consequentemente, também não têm uma Via Verde com o sucesso da nossa. Em contrapartida, e para que não se sintam inferiorizados de todo, têm um país quase todo verdejante. Um país profundamente rural. «Como é possível que um país com tamanho grau de desenvolvimento continue a apostar fortemente na agricultura?», pensará Cavaco Silva e seus correligionários. Sem mencionar a preponderância das pescas, pois toda a gente sabe de onde vem grande parte do nosso tão querido bacalhau. Se não soubesse que se tratava de um dos países mais desenvolvidos do mundo, à luz do cavaquismo que de longa data nos ilumina, juraria que apostaram num modelo de desenvolvimento completamente errado.

Um ligeiro desapontamento surgiu na componente mais encantadora da espécie humana que povoa qualquer país: a feminina. Talvez pela profunda admiração que nutro pelas vizinhas suecas, esperava algo de similar na qualidade da menina norueguesa que vem e que passa no doce balanço a caminho do bar. A realidade ficou um pouco aquém das expectativas, mas penso que tal é compreensível: muito provavelmente, com o grande domínio que durante séculos exerceu na região, o império sueco açambarcou para as proximidades de Estocolmo o que de melhor por lá existia na genética feminina. Conjetura minha, mera conjetura.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O tímido por cima da vizinha de baixo

O Abreu foi sempre muito tímido. Já próximo dos trinta anos de idade, tinha ainda quase imaculada a sua folha de registo das relações sentimentais. Não que lhe tivessem faltado oportunidades para ter maculado a sua existência nesse capítulo, mas uma timidez exagerada tirava-lhe capacidade de intervenção na hora em que a ação se tornava imprescindível.

O Abreu andava de olho  e normalmente não passava dessa fase do olho  na vizinha de baixo, desde que há algumas semanas ela se mudou para o seu prédio. Rapidamente lhe identificou qualidades que a tornaram merecedora de uma observação mais cuidada. E em alguns encontros fortuitos no elevador notou nela recetividade para algo mais do que os meros cumprimentos da praxe. Mas a timidez... A timidez é que singularizava o Abreu!

Mais um encontro no elevador. Ele entra no rés do chão, ela já vem da garagem.
— Boa noite.
— Boa noite.
Na sua qualidade de observador tímido, o Abreu coletava informações relevantes sobre a vizinha. Em particular, detalhes que confirmassem a inexistência de homem por perto. Não deixou de notar um dado que lhe pareceu significativo: que mulher com homem na sua órbita teria necessidade de subir com uma caixa de ferramentas da garagem até ao seu apartamento? Animado por esse detalhe, pensou dizer algo mais do que meramente circunstancial. E voltou a pensar. Doze andares não foram suficientes para tanto pensamento.
— Boa noite.
— Boa noite.
Ela saiu no andar anterior ao dele. E o Abreu confirmou o que já anteriormente tinha confirmado: ela morava no apartamento exatamente por debaixo do seu.

Gorava-se mais uma oportunidade para algumas palavras mais do que meramente circunstanciais. «Que esperas tu, Abreu? Que esperas?», pensava ele revoltado consigo mesmo. Logo hoje, que trazia consigo um CD da Madeleine Peyroux, teria sido tão fácil conseguir dois ou três dedos de conversa: «Um CD muito bom! Conhece? Madeleine Peyroux. Americana, apesar do nome. Canta uma música do Leonard Cohen parecendo Billie Holiday».  Depois das oportunidades goradas era costume tudo lhe parecer muito simples. Mas a timidez, essa maldita timidez, estava a tornar-se insustentável. Iria tomar uma atitude!

Alguns minutos mais tarde, estava ele sentado no sofá quando escutou como acompanhamento da bela voz da Madeleine Peyroux a campainha do seu apartamento. O Abreu sabia que, mais cedo ou mais tarde, a campainha iria tocar. Respirou fundo e dirigiu-se à porta. Lá estava a vizinha de baixo com ar de muito preocupada.
 Desculpe incomodar, mas o meu teto está a pingar!
 Como?!
 Alguma infiltração no seu apartamento, presumo.
 Estive a lavar umas coisas no tanque, será que deixei a torneira aberta?
O Abreu abriu a porta da cozinha e viu que a água já vinha da área de serviço até meio da cozinha.
— Ai Jesus, foi mesmo! — disse ele com desfaçatez. E correu para fechar a torneira.
— Traga algo para enxugar a água que eu ajudo-o! — ofereceu-se ela.
O Abreu rapidamente apareceu com duas toalhas de banho e um balde. Quando a situação já estava sob controlo, ela mesma observou:
 Que música é esta? Parece Billie Holiday... Mas cantando Leonard Cohen? Não pode ser!
 Muito bem observado!
 Quem canta?
 Madeleine Peyroux. Não conhece?
 Não.
 Americana, apesar do nome afrancesado.
 Linda versão do Dance Me to the End of Love.
 Fantástica!
Rapidamente descobriram um imenso gosto musical em comum. Nessa mesma noite jantaram em casa dela. Enquanto ela preparou o jantar ele fez os furos e colocou um quadro na parede.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Só no trânsito...

— Pai.
— Que foi?
— Por que é que levantaste aquele dedo?
— Aquele dedo? Qual dedo?!
— O dedo do meio.
— O dedo do meio? Eu levantei o dedo do meio?!
— Sim.
— Não. Eu levantei a mão toda!
— Hum...
— Verdade!
— Sim, mas mais o dedo do meio.
— Mero acaso.
— Então por que é que levantaste a mão toda mais o dedo do meio?
— Ora, porque conhecia o senhor do outro carro.
— Ah... então foi por isso que ele buzinou!
— Estás a ver?
— Hoje estás a encontrar muitos senhores conhecidos.
— É verdade.
— Logo hoje que vais com mais pressa...
— É... muita gente conhecida só atrapalha.
— E por que é que disseste aquela palavra?
— Aquela palavra? Qual palavra? Eu disse alguma palavra?!
— Disseste. Duas... aliás... três!
— Ia a cantar, não?
— Não. Disseste só três palavras!
— Se calhar só sabia o refrão.
— Hum...
— Alguma dessas canções minimalistas.
— Não me venhas com cantigas, tá?
— Tá, tá bom.
— Então por que é que disseste aquelas três palavras?
— Mas quais palavras?
— Uma delas eu não posso dizer.
— Um palavrão?!
— Sim!
— Qual?
— Aquele sobre a mãe do senhor do outro carro.
— Ah, meu filho, o pai não diz dessas coisas!
— Não, não...
— Diz?!
— Só no trânsito...