terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Alto plano de autoajuda

Tenho um plano (quase) infalível para que consiga ser superior a praticamente tudo que o apoquenta: vizinha, mulher, filhos, prestação da casa, leasing do carro, resultados do Benfica e tudo mais no plano da sua vida. Deixe-se de lamentações e suba ao telhado — só não o faça num dia de chuva, sob pena de este alto plano de superação pessoal poder redundar num fatal descanso eterno, em plano inferior; fora esse detalhe, o plano é infalível. Verá lá de cima o entra e sai da vizinha, a mulher e os filhos saírem de sua casa no tal carro a leasing e o vizinho a fumar, perturbado pelo resultado do Benfica. E você lá em cima, superior a tudo. Se gosta de fumar, fume. Mas descontraído. Não conhece o resultado do jogo, porquê preocupar-se com algo que não conhece?

Aproveite para pensar na vida, mas não na realidade comezinha que o apoquenta, como (o advérbio, não o verbo) vizinha, mulher, filhos, prestação da casa, leasing do carro, resultados do Benfica e tudo mais no plano da sua vida. Agora está num plano superior. Pode dedicar-se a meditar sobre questões muito mais relevantes para a humanidade: «Qual a origem do universo?», «Deus existe?» ou «O que pensam os mercados?», por exemplo. Diga-me uma coisa: há quanto tempo não para para pensar nessas questões realmente importantes? Tudo o resto é supérfluo. Pense na idade do universo. A sua vida dura menos do que um infinitesimal grão de areia nessa imensa praia do tempo e os seus problemas quase sempre duram menos do que a sua vida.

Leve mantimentos para uns dias e cobertores para umas noites. Vai poder apreciar, lá de cima, as preocupações de alguns que o amam (e provavelmente não sabia) e as de outros que não o amam (e provavelmente também não sabia) e lhe causam muitos problemas. Esqueça que este é um plano relativamente egoísta, pois é só por uns dias. Quando descer, será internado para avaliarem o seu estado de saúde e curarem a sua gripe ou pneumonia. No pior dos casos vai passar uns dias num hospital psiquiátrico para averiguarem a sua sanidade mental. Mas, acima de tudo, vai sentir o amor, o carinho e a preocupação de todos aqueles que gostam de si. Vai sentir-se novamente amado. Vizinha, mulher e filhos vão fazer questão de demonstrarem um amor infinito e incondicional.

Acha que não? Por mais paradoxal que possa parecer, teme receber confirmação da falta de amor da parte de alguns que julga que o amam? Então não leve comida nem cobertores e suba só por uns breves minutinhos. Leve apenas as questões «Qual a origem do universo?», «Deus existe?» ou «O que pensam os mercados?» para meditar. Depois desça e verá como volta mais leve. Resolver problemas relacionados com vizinha, mulher, filhos, prestação da casa, leasing do carro, resultados do Benfica e tudo mais vai parecer-lhe muito simples.

Detalhe importante: o plano só resultará se subir ao telhado de forma convicta e realmente empenhado em responder às questões «Qual a origem do universo?», «Deus existe?» ou «O que pensam os mercados?». Ou questões similares que já lhe tenham passado pela mente em momento especialmente filosófico. «Onde deixei o meu telemóvel?» não serve.

1 comentário:

  1. Ótimos textos! Sua escrita flui de uma maneira a misturar humor e profundidade na análise de traços tão cotidianos da vida...

    Parabéns!!

    Um abraço forte!

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