segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Inglês com H

A letra H poderia ser facilmente omitida no alfabeto português, dado que não tem som próprio. A sua importância resume-se aos casos em que é precedida das letras C, L ou N. Para substituir o CH, temos o X; para os outros casos, na língua espanhola resolveu-se facilmente o problema escrevendo LL para algo muito parecido com o nosso LH e Ñ para o NH. Podíamos fazer a mesma coisa e, dessa forma, economizar nos teclados de computador e no enfado das nossas criancinhas a aprender o abecedário. Os italianos, por exemplo, baniram J, K, W, X e Y e continuam a expressar-se melhor do que ninguém — compensam com as mãos!

Pode parecer brincadeira (e até é), mas o assunto tem alguma (ainda que ténue) seriedade: o H, sem um som próprio no português, cria-nos um falso sentimento de inutilidade da letra em outras línguas. Vejamos o caso do inglês, por exemplo. Um português típico fala um inglês de nível muito aceitável (José Sócrates não é típico), com esse grande senão da sonoridade (ou falta dela) do H. Pensa-se, erradamente, que também no inglês o H é o parente pobre do abecedário e esquece-se que nesse idioma o H tem quase sempre vida própria. O H tem um som relativamente próximo do nosso R — o de garganta, não aquele emitido com a ponta da língua —, mas muito mais suave. Para melhor ilustrar a coisa, digamos que um som a meio caminho entre esse tal R bem suavizado e um suspiro bastante acentuado.

Falamos o nosso idioma de um jeito tão arrevesado que, com exceção de algumas línguas orientais, temos similar a praticamente todo e qualquer som em outra língua estrangeira. O problema dos orientais é que resolveram simplificar na variedade de sons e complicar no modo como atacam as sílabas. Aquilo é feito com base na intensidade, com um sobe e desce quase constante. Em chinês, por exemplo, com muita persistência e sofrimento da minha parte (e da parte de quem pacientemente me ensinava), consegui chegar a razoáveis ataques às palavras nihao, xiexie e pijiu. Digamos que, as duas primeiras para poder ser simpático, e a terceira para não morrer à sede por aqueles lados.  No caso da pijiu — que nunca atingi o requinte de conseguir pedi-la bem gelada —, achei por bem nem solicitá-la com muita frequência, sob pena de começar a enrolar a língua.

Estas subtilezas linguísticas trazem-me à memória uma das muitas piadas que no Brasil surgiram na sequência da morte do Ayrton Senna — eles têm um jeito muito peculiar de mitigar a dor. Rezava assim: «no funeral de Ayrton Senna todos choraram, só o Damon Hill» (note-se que para os brasileiros o L no final tem som de U). A piada é ligeiramente subtil e não tão ligeiramente boba, mas ilustra o esforço dos brasileiros na tentativa de evitarem o erro lusitano com o H inglês. Infelizmente, exageram no tal suspiro. É pena.

1 comentário:

  1. Sócrates não é um Português Típico mas é um Inglês Técnico....
    :)

    ResponderEliminar