sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A normalidade

Caetano Veloso

O Teixeira era um fulano que com elevada frequência (mais do que o normal) se auto-definia como normal. Assumia-se até como um dos poucos normais de que ele próprio tinha conhecimento. Enquanto os outros viviam de forma mais ou menos intensa frequentes dramatizações de situações quotidianas e eventuais espirais de loucura, o Teixeira planava como águia altaneira sobre o vale de todos esses males.

O Teixeira tinha crescido num ambiente familiar complicado: mãe alcoólica, pai incógnito, padrastos toxicodependentes e quatro meio-irmãos numa casa de apenas dois quartos. Tudo a favor de uma personalidade carregada de traumas. Mas não. O Teixeira teve logo desde tenra idade um sentido de auto-orientação suficientemente forte para não se deixar contaminar pelos fatores adversos do meio que o rodeava. Cresceu fidelizando-se ao lema «mente sã em corpo são» e ia fazendo disso cavalo de batalha.

Por força dessa postura, tinha muito pouca paciência para qualquer manifestação de drama pessoal não devidamente fundamentado da parte dos que com ele conviviam. Sabia quem melhor o conhecia que o Teixeira encarava qualquer problema do foro psicológico como doença contagiosa. Não foram poucas as vezes em que abandonou cervejadas com amigos só para não ter que ouvir lamúrias sentimentais. Abria apenas uma pequena exceção para a tristeza e, mesmo assim, só convivia com a tristeza alheia por mais de um dia quando essa era provocada pela morte de parente próximo (não mais do que parente em primeiro grau, entenda-se).

Como designar uma mulher que entra na vida de um homem de forma intensa e íntima por escassas duas tardes e sete noites? Namorada? Pois bem, o Teixeira teve uma namorada nessas circunstâncias, pela qual deu indícios de estar profundamente apaixonado. Dizia ser ela a mulher com a cabeça mais limpa que encontrara em toda a sua vida. Cabeça limpa, pele limpa, casa limpa, tudo limpo, uma perfeição! Nesses dias de intensa proximidade não lhe notou qualquer tipo de distúrbio na vertente psicológica, excetuando uma relativa preocupação com a pele (especialmente a pele do rosto). Algo normal, pensou o Teixeira.

Contudo, ao cabo das tais duas tardes e sete noites, notou que essa preocupação com a pele do rosto se manifestava com uma frequência muito maior do que inicialmente lhe tinha parecido. E, por vezes, nos momentos mais inoportunos. O caso entre eles deu para o torto quando o Teixeira  tomou consciência de que sempre na hora H, quando a noite aquecia e ele começava a segredar-lhe ao ouvido coisas que só ao ouvido é costume segredar, ela invariavelmente lhe pedia: «Vai fazer a barba». Hipocondria dermatológica o Teixeira não podia tolerar!

3 comentários:

  1. Vou fazer minha barba senão a patroa me mata.... :)

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  2. Muito legal seu texto!

    Vim retribuir sua visita e gostei do espaço. Sou sua mais nova seguidora.

    Agradeço sua visita ao meu blog (Mundo Psi)!Volte sempre e, se gostar dos posts, torne-se seguidor. :)

    Karina.

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  3. Interessante o texo. Agora o Teixeira deve ser a perfeição humana né? rsrs

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