segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

As flores do Ramos

O Ramos e a Palmira não necessitavam de grandes manifestações de romantismo para se sentirem felizes um com o outro. Em nove anos de casados ele nunca lhe ofereceu flores. Ela não sentia falta, ele não se lembrava e a vida do casal evoluía agradavelmente sem necessidade desse adorno perfumado entre os dois. Para a felicidade do Ramos bastava a felicidade da Palmira e para a felicidade da Palmira bastava a fidelidade do Ramos — a fidelidade da Palmira nunca foi sequer posta em causa pelo Ramos.

Com o aproximar do 14 de Fevereiro de 2009 a estabilidade dessa relação sofreu um forte revés. No seu novo emprego o Ramos sentiu-se fortemente pressionado: de todos os lados lhe chegavam sugestões de lingerie, velas, flores, perfumes, chocolates, jantares românticos! Todos os seus colegas de trabalho tinham feito reservas para jantar. A única exceção — além do Ramos — era o Carlos Alberto, que tinha rompido com a namorada há cerca de três meses e ainda não tinha encontrado substituta. Mesmo assim, tentou um reatamento na base do «só uma noite», mas foi informado de que as noites dela já estavam entregues a outro.

Namorados, noivos, juntados, casados, em união de facto, todos faziam algo nessa noite. Tinham que fazer algo nessa noite! Como era possível um casal não fazer algo nessa noite? A pressão sobre o Ramos foi tão acentuada que ele se sentiu na necessidade de também fazer algo nessa noite. Ligou para uma lista de restaurantes. Baratos, caros, em barco, em hotel, todos reservados — a restauração não era definitivamente a solução.

O Ramos decidiu então que, simplesmente, ofereceria flores à Palmira. Uma dúzia de rosas vermelhas. E aproveitaria a hora do almoço para ir comprá-las. Assim, de tarde, os seus colegas de trabalho teriam oportunidade de ver que o Ramos estava na moda. E estar na moda, nesse dia, significava mostrar que estava atento à relação conjugal.

O Ramos não estava acostumado a comprar flores. Menos ainda estava acostumado a andar com elas na rua. Para atenuar um ligeiro embaraço, resolveu colocar as mãos atrás das costas e segurar as flores de cabeça — se assim se pode dizer — para baixo. Se há momentos e gestos aparentemente insignificantes na vida de um homem que acabam por ganhar uma importância primordial, este era seguramente um deles. A ponto de mudar o rumo da vida do Ramos para sempre. E para pior.

Pouco tempo depois de ter saído da loja com as flores atrás das costas o Ramos deu de caras com a Palmira. Como podia o Ramos imaginar que a essa hora a Palmira andava por aquela parte da cidade? Na mesma rua, no mesmo passeio, mas em sentido contrário — prenúncio do que os esperava a seguir?

Teria sido tão simples oferecer-lhe logo as flores, mas o embaraço da situação, a intenção de exibi-las no escritório e o inesperado encontro com a Palmira fizeram-no perder a capacidade de raciocínio e a pronta reação que se lhe exigia perante a inevitável pergunta dela:
— Que levas tu atrás das costas?
— Nada — respondeu o Ramos.
Imediatamente, após ter dado esta resposta, o Ramos teve o pressentimento de que entrava em apuros. Tentando remediar — e piorando — a situação, deixou que as flores caíssem no chão atrás de si. Lenta e silenciosamente. Mas não invisivelmente. E é claro que a Palmira as viu. O Ramos tentou o retorno à verdade:
— São flores... para ti!
— Então porque as deitas ao chão?
Não houve explicação. Nem houve mais conversa. O Ramos viu apenas a Palmira dar de costas e desaparecer rapidamente entre os transeuntes.

O momento justifica um parágrafo extra. Que motivo pode levar um homem a achar que a verdade é mais inverosímil do que a mentira? Malformação genética? Malformação social? Inabilidade para lidar com a pressão? Para cúmulo, recorrendo a uma mentira completamente desnecessária e com prova irrefutável atrás das costas. Nesse momento, teria dado jeito ao Ramos que alguma intervenção divina tivesse operado um milagre contrário ao consagrado na História e as rosas tivessem sido transformadas em pães. Uma dúzia de pães não teriam levantado suspeitas. Mas, para má sorte do Ramos, a história dele foi outra.

Quando regressou a casa, o Ramos encontrou todas as suas roupas remexidas em cima da cama e duas malas do lado para que as empacotasse e saísse de casa. A Palmira procurou e encontrou uma prova inequívoca — além das flores, é claro — de que o Ramos a traía: um cabelo loiro e comprido na manga do seu blêizer azul-marinho. De nada adiantou ao Ramos tentar explicar-lhe que cabelos loiros e compridos andam por aí à solta, no ar, nos transportes públicos, nos bancos de jardim. Para a Palmira eram provas mais do que suficientes de que o Ramos a traía.

Valeu ao Ramos a generosidade do Carlos Alberto que o deixou ficar no sofá por uns dias — jantaram os dois nessa noite — e de nada lhe valeram os insistentes telefonemas para falar com a Palmira. Ela só aceitou falar com o Ramos uma semana depois. E para lhe comunicar que entrasse em contacto com o seu advogado para tratar do divórcio. Hoje em dia o Ramos é um homem só e amargurado. No limiar da depressão. Ganhou trauma a flores e nunca mais conseguiu colocar as mãos atrás das costas. Daí para cá o Ramos mete baixa no dia de S. Valentim. Baixa psiquiátrica, claro está. Nesse dia não sai de casa.

3 comentários:

  1. Ramos, Ramos....

    Podias ter optado por um serviço mais prático, consentâneo com a vida do séc XXI... tipo:

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  2. Foi uma pena o Ramos não ter êxito na sua manifestação de amor e carinho pela Palmira quando resolveu oferecer flores.Esse ato da Palmira nos faz refletir que podemos fazer muito mais e constantamente para aquele (a) que está ao nosso lado, para não causar surpresas nos atos que poderiam ser recebidos com toda naturalidade, vale a pena a construção gradativa desses gestos!!!

    Adorei a crônica, parabéns!

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  3. Uma história muito interessante, que li agarrada até ao fim. Gostei da crítica velada ao Dia dos Namorados, que, por vezes, obriga as pessoas a fazerem aquilo que até nem lhes apetece. Por outro lado, talvez faltasse substância ao casamento:

    "Para a felicidade do Ramos bastava a felicidade da Palmira e para a felicidade da Palmira bastava a fidelidade do Ramos — a fidelidade da Palmira, por sua vez, nunca foi sequer posta em causa pelo Ramos."

    Soa muito a acomodação, hábito, "deixa andar". O percalço das flores teria sido apenas o detonador da explosão iminente. Se a Palmira ainda amasse o Ramos, tentaria esclarecer a situação, depois de passadas a suspeita e a fúria iniciais.

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