quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Imprecisas impressões musicais nacionais

com uma melodia pouco inspirada e uma letra nada de mais os deolinda deixaram a nu a superficialidade da atual música portuguesa, o momento crítico devia inspirar, mas o mais profundo e atual continua ser o zeca a lembrar que eles comem tudo e não deixam nada, que o pão sabe a merda, que o que faz falta é avisar a malta, que falta também o fausto a alertar a rapariguinha para que cosa a saia velha de cambraia, ou a rosalinda para que o pé não lhe descaia, o godinho a anunciar primeiros dos últimos dias do resto das nossas vidas e baladas da rita, o mário branco contra o charlatão e contra a força do fmi, o rui veloso, o carlos tê e o chico fininho sem máquina zero, a café e bagaço num bairro do oriente, o palma a passar em bairros do amor ou em santa apolónia a abarrotar de gente, a pedir que o deixem rir, perdemos a irreverência do variações, nem para hoje nem para amanhã, não o temos aqui nem além, temos um represas desinspirado, um gil sem ala de namorados, perdemos o trovante na xácara das bruxas dançando, o tordo não diz nada sem o ary, o paco entrou na ternura dos quarenta e ficou-se por aí, o carvalho já não fala de ninis, do mendes nem rock em stock, o cid perdeu a alma pop, adio, adieu, aufwiedersehen, goodbye, as doce provocadoras deram lugar à pimbérica ágata, até os pimbas são piores que o marco paulo de antes ou o meira dos emigrantes, o tony carreira é o maior, o mais banal e o mais pobre, apesar do dinheiro que anda a ganhar, ninguém tem nada para cantar, e quando cantam não contam nada, perdem-se em emaranhados de palavras que nada dizem, nada acrescentam, nem mexem o fundo à panela, amália partiu sem deixar rasto para novos poetas que falem do povo que lava no rio, que dêem de beber à dor e cantem malhoa, mas os malhoas que não cantem, a inspiração da mafalda ficou-se pelos pássaros do sul, joão afonso, toranja, ornatos violeta foram artistas de um disco só, mesmo quando lançaram mais, as do xaile eram boas mas arrefeceram, os da mesa esmoreceram, o donna maria perdeu a voz, a dulce pontes parou no primeiro canto, o madredeus morreu em lenta agonia e partiu com a banda cósmica, o carlos do carmo não traz novos homens das castanhas, nem cacilheiros para a lisboa menina e moça, ana moura, camané, joana amendoeira, katia guerreiro, mafalda arnauth, mariza, tantos fadistas, todos cantam bem mas de novo nada dizem, o sardet ainda não sabe que não existe, o pedro pais não devia mas insiste, a sara tavares perdeu o gingado, o abrunhosa é chato, pretensioso, ouvi-lo é um enfado, o gonzo já disse quase tudo, agora há ídolos, talentos, chuvas de estrelas, vozes e mais vozes, falta quem escreva, quem escreva e diga, quem use a palavra para alertar, cantar em inglês é o que está a dar, não querem saber dos de cá e ninguém os ouve de lá, melhor um intuitivo blá blá blá, as bandas debandaram, não há táxi para o cairo, nem chicletes para mascar, nem patchouly para cheirar, amor e paixão dos heróis do mar, uhf na rua do carmo, gnr com pronúncia do norte, trabalhadores do comércio que chamem a polícia, xutos não pontapeiam nada, o tim enfia letras à martelada, os delfins definharam, o clã eterniza dificuldades de expressão, a resistência não resistiu, o vitorino, o janita, a filipa pais e outros mais cantam o que já cantaram e voltam a cantar, reinterpretam amália, ouro negro, variações, revisitam-lhes sempre as mesmas canções, falta alma na novidade e novidade na alma, melodias com novas roupagens, letras com mensagens, venha um novo zeca, venham mais cinco, mais seis, mais sete, venham ajudar-nos a pintar o sete

9 comentários:

  1. Este texto está cheio de um saudosismo atravessado e propõe-se a negar uma evidência: a música continua a ser um pilar desta cultura. A prova está dada pelo impacto desta canção dos Deolinda. É desonesto negá-lo. Como é desonesto negar o valor melódico desta canção e o poder social da letra. Ou esquecer o trabalho de renovação que os Deolinda têm operado não só na música como na forma de pensar a nossa portugalidade, de forma original, inteligente e com qualidade. Como pianista, não podia estar mais em desacordo com a referência que faz à música dos Deolinda, que se fosse superficial, jamais teria o impacto que está a ter.
    Cumprimentos
    IQ

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  2. Saudosismo? Tem, é claro. Mas acho que encarou a minha mensagem do jeito errado. A música é inequivocamente uma pedrada no marasmo em que foi caindo a música portuguesa e louve-se por isso! Mas daí até guindá-la a outros patamares vai uma grande distância. Enfim, sinto vontade de escrever, mas não de deixar manual de instruções...

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  3. Então está na hora de actualizar esse manual...
    IQ

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  4. Para um matemático.... consegues definir muito bem o panorama da musica nacional .... gostei

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  5. Texto interessantíssimo, que me trouxe muitas recordações e diz grandes verdades (em relação à Mafalda Veiga, por exemplo, ou aos Trovante). Esqueceu-se do "Surrealizar" do Zé Loureiro (é Zé, não é? Ouvi dizer que tornou a cantar, mas, como vivo no estrangeiro, sou poupada a certos incómodos).

    Gostei de conhecer o seu blogue e não só dos textos. Adorei o "visual" :)

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  6. Que parvo que eu sou.....

    A musica "portuguesa" é uma chatice! Vira o disco e toca o mesmo... como os governantes, que estão no governo para se governar, assim como darem-nos música diariamente e fazerem de nós Parvos...

    É bem melhor ouvir Márcio Mello

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  7. ó páh!...esta eu não esperava!

    Apesar de eu já ter tocado com algumas destas bandas, acho que tens muita razão.
    O teu artigo demonstra, acima de tudo, amor e respeito pela música. Gostei.
    Parabéns.

    ps. Devo dizer-te que na área do Jazz, há muita coisa boa a acontecer!!Sobretudo bons (competentes) músicos.

    1 abraço

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  8. Achei o texto excelente e a forma como o escreve é cativante!

    Apesar de não concordar com a referência sobre a música do primeiro grupo, compreendo o que quis dizer: que a euforia dos portugueses só mostra a pobreza em que se encontra a música nacional. Eu acrescento ainda, o sentido crítico dos jovens portugueses.

    Entretanto, apesar da grande qualidade dos Deolinda, só este grupo não vai salvar a música nacional. Mas aos poucos os bons artistas vão aparecendo e o panorama vai se renovando... "Que venham mais cinco..." É o que espero sinceramente.

    Mais uma vez, parabéns pela crónica!

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  9. Se fosse superficial, jamais estaríamos a falar dela aqui. Mas texto não deixa de ser interessante e a sua forma de escrever agradável.

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