segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ubíquos mercados

 São os mercados!
Foi a única explicação que o Chico Paulo ouviu do patrão quando este o demitiu. O Chico Paulo absorveu a informação como mandamento divino e nem reclamou. Já tinha ouvido várias referências a esses tais mercados na televisão e nos jornais, e sabia que eles andavam por aí. Só nunca pensou que os mercados lhe caíssem em cima desta forma tão impiedosa. Os todo-poderosos mercados agora atacavam. Sabia também que não adiantava reclamar. Tinha que se resignar.

O trabalho do Chico Paulo não era muito decente (entre outros biscates que fazia no local, limpava casas de banho num café/restaurante perto da estação), mas o emprego — informal  rendia-lhe cerca de 200 euros por mês. O dinheiro chegava essencialmente para os gastos pessoais com cerveja e cigarros e para dar uma ou outra por fora (coisa de homem, claro). Com o pouco que recebia, nunca pensou (na verdade, pouco pensava em geral) fazer descontos para o que quer que fosse. O patrão também o desestimulava:
 Porquê dar ao estado o que podes deixar no teu bolso, Chico Paulo?

A salvação do Chico Paulo era — agora mais do que nunca — a sua mulher, que conseguia um bom rendimento mensal com um negócio caseiro de venda de bebidas — praticamente só cerveja  num aposento da casa com acesso direto do exterior. Agora, para ocupar o tempo do Chico Paulo, a mulher dava-lhe uma lista de compras para fazer pela manhã (o abastecimento de bebidas do negócio caseiro tinha ficado a cargo dele) e recomendava-lhe umas saídas vespertinas para espairecer  jogar cartas no parque ou assistir aos treinos do FCP no Olival passaram a ser as ocupações mais frequentes. Convém não esquecer que o Chico Paulo andava muito perturbado com essa história dos mercados lhe estarem a dar cabo da vida. Espairecer tornava-se imperioso. A perturbação chegara a tal ponto que não entrava mais no Bolhão ou no Bom Sucesso, e só fazia compras em supers ou em hipers  a respeito desses não ouvira ainda más referências.

Chovia muito. Nessa tarde o Chico Paulo resolveu regressar mais cedo. Mal entrou em casa, escutou uns ruídos estranhos vindos do quarto e viu a mulher — suada e mal vestida — correndo em direção a ele:
— Foge, Chico Paulo, os mercados entraram no nosso quarto!
O Chico Paulo imediatamente virou costas e correu para bem longe. Estava muito apavorado com a ideia dos mercados lhe terem invadido o quarto. Nem sabia quando teria coragem para voltar a entrar em casa.

2 comentários:

  1. Gosto muito da forma como às vezes brinca com coisas sérias. Irónico e subtil... Parabéns!

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  2. Logo achei estranho a mulher lhe recomendar umas saídas vespertinas para espairecer...

    Enfim, os mercados...

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