quarta-feira, 23 de março de 2011

Aproximadamente catorze

Há algumas semanas, numa viagem de comboio entre Coimbra e Porto, acabou-se-me a bateria do iPod. Adormeci ao som do Madredeus e acordei, alguns minutos depois, ao som da voz de deus (ou do povo, que embora não sendo igual, dá no mesmo). Perto de mim, dois casais de meia-idade lamentavam-se sobre a situação político-económica do país, concordando que PS e PSD são uma e a mesma coisa. Concordavam entre eles e comigo também, pois há muito que esses partidos me parecem farinha do mesmo saco. Levando em conta todos os fatores ponderáveis e imponderáveis, não consigo notar-lhes mais do que a ténue diferença do dêzinho na sigla de um deles. Um dêzinho para distrair o povo incauto, penso eu: tirando dêzinho e colocando dêzinho, pensará o povo que consegue verdadeiras alternativas no poder.

Se dúvidas houvesse quanto à flagrante falta de diferença que os atinge, essas teriam ficado completamente dissipadas com as pseudo-negociações para o acordo sobre o orçamento de estado de 2011. Alguém negará que aquilo foi uma prova cabal de que o ambiente reinante entre esses partidos é do mais puro companheirismo e comunhão de ideias? Fingem zangar-se com base numa discrepância de 0,1%, amuam, são chamados pelo senhor professor e imediatamente fazem as pazes. E, para o quadro ficar completo, terminam abraçados numa foto de telemóvel. Que linda amizade!

Até aqui coincidia a generalidade dos comentários dos meus ocasionais companheiros de viagem. A coisa divergiu no ponto da conclusão. O meu espírito inconformado jamais poderia admitir que são «todos iguais»! Menos ainda admitiria que, finda a governação do sem dêzinho, a alternativa será votar de novo no dêzinho. Todos iguais? Quais todos? Temos alternado apenas entre dois (e meio) que, esses sim, são todos iguais. Mas, não esqueço: nas últimas eleições legislativas contei as opções no boletim de voto e, posso assegurar, eram aproximadamente 14! (é ponto de exclamação, não é 14 factorial, sem exageros...).

Para não ter que me imiscuir em conversa alheia, resolvi apear-me em Gaia e caminhar até ao Porto (a aragem vinda do mar e a vista panorâmica da ponte D. Luís costumam fazer-me bem nestas ocasiões). Já mais arejado e consciente dos problemas nacionais, surgiram-me dúvidas sobre qual poderia ser o verdadeiro problema dos meus ex-companheiros de viagem. Talvez não fosse um problema de consciência política, mas um problema de matemática, ou até de iliteracia: será que não sabem contar até mais do que dois (e meio)? Será que não sabem interpretar as siglas?

Revoltei-me comigo mesmo: devia ter interferido na conversa alheia e alertado que há mais do que os tais dois (e meio) partidos todos iguais. Podia até ter tentado ajudar na hipotética questão de iliteracia, sugerindo votarem num qualquer partido que não tenha a letra S na sigla (curiosa e ironicamente, são partidos com o tal S, de aparente preocupação com o social, que nos têm dado cabo da sociedade). Cheguei a casa arrependido pela minha saída precipitada daquela carruagem. Adormeci de consciência pesada e acordei três vezes durante a noite. Com pesadelos horríveis.

6 comentários:

  1. Bem visto. As pessoas queixam-se de falta de alternativas, ignorando que o boletim de voto costuma ter mais de dez partidos. Ainda por cima, como acham não haver alternativas, nem se dão ao trabalho de ir votar!

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  2. iliteracia? não é redundância?&&&&

    alternativas significa projectos e poder

    ausência de qualquer destes não é alternativa

    se os homens pretendem ganhar o céu

    sem sacrifício sem projectos veros ou falsos
    sem esforço e só com vozearia

    estas interrogações oratórias do povo
    revelam que este tem mais siso

    o certo é que a salvação no povo dá-lhes cuidados naqueles a quem podem escolher como amos
    aos outros que amos são tanto se lhes dá

    num compreende

    esperança e resignação só existem naqueles que não se exilam das gentes
    e compreensão ...

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  3. O seu comentário ficará visível após aprovação

    obviamente num necessito

    para quê

    isto é só um jogo com seres inexistentes
    o space invaders é mais chato

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  4. PSD: Pois Somos Diferentes...

    PS: Pois Somos...

    CDS:Certos De Sermos...

    PC: Pouco Certos...

    BE: Bamos Estragar....

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  5. O nosso problema não é os ésses mas sim os éfes...
    Com a demissão do governo saímos da fritadeira para entrarmos no fogo (segundo Gerónimo de Sousa), antes do 25/04 era Futebol, Fátima, Fado. O meu gato, quando o chateiam diz f...

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  6. Para a próxima relatas os pesadelos, certo? é que o pesadelo do PS e PSD está gasto e sem ponta de interesse. principalmente por já ter passado um ano sobre o post :))

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