Um verdadeiro pesadelo. Eu tinha
lido na véspera que
hackers haviam invadido o iPhone dela e de lá retirado
fotos muito comprometedoras, mas não me passou pela cabeça que o meu nome
pudesse estar em causa. Só passei a levar em conta essa possibilidade depois
que o meu sobrinho me telefonou. Entre elogios à proeza do tio — até
aí totalmente desconhecida — e aos dotes físicos da
Scarlett, eu deduzia que nas fotos roubadas pelos hackers ela
não estava só. Mas não podia ser eu. Estava seguro que o telemóvel dela era um
Nokia!
Conheci a Scarlett quando decorriam as filmagens do Vicky
Cristina Barcelona. Tinha bem presentes os detalhes do nosso encontro: eu a
desfrutar a tranquilidade do meu entre safras e ela a necessitar urgentemente
de uma boa colheita. Ambos solitários naquele restaurante perto de Las Ramblas.
O meu olhar rapidamente se fixou na mesa ao lado: primeiro na paella e
logo depois só para ela. Apesar de uns ligeiros toques de disfarce, não tive
dúvidas de quem se tratava. Abordei-a com um «are you lonesome tonight?» e nem
precisei de esperar que a conversa avançasse muito para saber que já encaixava
bem o «do you miss me tonight?». Inexplicavelmente — ou
talvez nem tanto —
a ambas as perguntas corresponderam respostas afirmativas.
Soube depois que ela acabava de ser rejeitada pelo Bardem — que
optara pela Penelope —
e precisava urgentemente de afogar as suas mágoas. E o meu aspeto
de encorpado moreno latino a expressar-se num inglês com ligeiro sotaque
ibérico era exatamente o que ela estava a precisar. Começamos por afogar as
mágoas — eu
não as tinha, mas imediatamente me solidarizei com ela — num
Vega-Sicilia e terminamos, já manhã alta, com um Moët Chandon numa suite do
Hotel Hilton onde ela estava hospedada. Pelo meio muita loucura. As fotos
incluídas.
Depois da chamada do meu sobrinho, o telefone começou incessantemente
a tocar: família, amigos, colegas e, finalmente, a comunicação social! Acabavam
de considerar-me o português mais bem-sucedido da década, com honras e
deferências de ilustre cavalheiro. Um feito inigualável!
Rapidamente me apercebi que o pior tinha acontecido: a
Scarlett tinha transferido as fotos do Nokia para o iPhone, comprado — lembro-me
de lhe ter recomendado a compra — tempos depois do nosso affair.
Quiçá, para com mais frequência recordar o português mais bem-sucedido da
década, que lhe proporcionara uma das noites mais memoráveis de sempre.
Palavras dela. Em inglês, claro.
Mas isso não podia estar a acontecer comigo! A minha vida de
modesto matemático exilado no mundo que tanto preza o sossego do anonimato para
ir alcançando os seus resultados não mundanos estava irremediavelmente
comprometida. Que terrível agonia!
Foi neste ponto que o pesadelo acabou: o meu cão veio
avisar-me que estava na hora de acordar. Já passava das nove e fazia parte do
nosso trato levá-lo para o passeio matinal. Desci feliz e agradecido por ter
sido resgatado daquele pesadelo tão agoniante. Passeei-o incógnito pela
vizinhança, na minha vida recatada de sempre. Aproveitei os primeiros minutos
da manhã para acrescentar uma inesperada boa ideia a um problema que me sobrara
de véspera. Sentia-me anormalmente inspirado!

Muito bem escrito. Diverti-me imenso. Obrigado.
ResponderEliminarEste blogue é uma lufada de ar fresco...
Muito obrigado. Comentários elogiosos são sempre (muito) apreciados! :)
ResponderEliminarque homem brutal, voce. aproveitar de uma garotinha fofinha souzinha nas ramblas.....
ResponderEliminarEla é que se aproveitou de mim, ora! :)
EliminarUm passeio com o cão costuma pôr muitas coisas em ordem ;)
ResponderEliminarPrincipalmente as necessidades do cão... ;)
EliminarPor vezes é bom acordar!
ResponderEliminarGostei de descobrir este blog, vou visitar mais vezes! :)
Será sempre bem vinda! Mesmo que o que aqui lê a leve a falar (escrever, no caso) mal do autor :)
ResponderEliminar:))
ResponderEliminarOlá, Exilado
Do meu sonho ao seu pesadelo ou vice-versa... ou do seu pesadelo ao meu pesadelo... :))
Encontrou-lhes alguma semelhança? Talvez no aspecto de que serão situações inatingíveis, em determinados aspectos, não sei...falo por mim. O que acha?
Devo dizer que gostei bastante deste seu texto. Escrito de uma forma excelente e que convida à leitura.
Sabe? Quando se insere o endereço que me deixou, na pesquisa do Google, o resultado que aparece é que não existe. Tive de procurar pelo tema constante do referido endereço. Aí apareceu em todo o seu esplendor.
Outra coisa: tive dificuldades em pesquisar no seu blog. Acho que é um bocado avançando para mim. Mas com a prática talvez lá chegue...porque penso voltar.
Abraço
Olinda
Obrigado pela visita! O que me fez lembrar do meu texto não foram os factos em si, mas sim a falsa realidade sonhada. Apesar de, no meu texto, eu ser mais perverso com o leitor :)
EliminarQuanto ao formato do blogue, no começo é um pouco estranho mas depois que se entende a orgânica, acaba sendo funcional. Na lateral direita há uma pequena barra auto-ocultável com arquivo e tópicos, entre outros. Na barra superior horizontal, à esquerda, há a opção de escolha entre vários formatos de apresentação. Enfim, coisas do Dynamic Views que me agradaram.
Volte sempre!
Mas que aborrecido; visitei Barcelona na altura da rodagem do Vicky Barcelona e só me calhou o fuinha do Woody; o chapéu dele cativou.
ResponderEliminarPorém, o exilado, mesmo em sonhos,tem uma história e tanto. A Scarlett é bonitíssima e tb a Uma Thurman, se eu homem, não desdenharia. Mas Penélope Cruz derrama charme por tudo quanto é sitio. Uma Audrey Hepburn com banho de sensus.