segunda-feira, 11 de abril de 2011

As metáforas do amor

Não será necessário recorrer a estudos muito aprofundados sobre o assunto para que facilmente possamos chegar à conclusão de que o tema preferido da grande maioria dos poetas é o amor. Poetas fracos — por vezes bem sucedidos financeiramente com a produção de letras para canções — usam e abusam da visão do amor como uma flor. Grandes poetas, por seu turno, conseguem com facilidade metáforas bastante mais originais, nem sempre através de associações especialmente românticas. Luís de Camões, por exemplo, afirmou num dos seus sonetos que «o amor é ferida». A comparação não é particularmente atraente, mas o poeta adornou-a de forma tão magistral, que os aspetos mais repugnantes associados à ideia de ferida dificilmente se acercarão do pensamento de quem leia esse soneto — exceção feita a mim mesmo neste momento, claro... Você também?

Recorrendo a um algoritmo simples que desenvolvi com base nas pesquisas do Google, cheguei à conclusão de que até agora não houve poeta — de língua contemplada pelo Google Tradutor — que tivesse espalhado a sua arte sobre aquela que me parece ser a metáfora mais óbvia: o amor é cola. Apresentada assim, a comparação não será porventura nada poética, mas acredito que um Camões relativamente inspirado facilmente arranjasse forma de transformá-la numa belíssima imagem.

Fatores como a emancipação da mulher, o descaramento do homem e, acima de tudo, a felicidade de pelo menos um dos dois, têm deixado evidente a cola que mais une o casal dos nossos dias: uma cola aguada. Grande parte dos amores modernos são como uma dessas colas que facilmente se encontram em loja de chinês e com a qual se tem dificuldade para colar até duas folhas de papel. Num estado menos aguado, há amores cola branca, que gruda por um tempo, mas depois — por razões de temperatura inapropriada entre os corpos unidos, por exemplo — deixa desprender aquilo que anteriormente uniu. Cada vez mais raros são os amores cuja cola resiste a todas as intempéries e perdura forte e firme até que a morte os separe. Uma cola de sapateiro, por assim dizer.

Será seguramente uma dessas colas de sapateiro que tem unido a dona Gertrudes e o senhor Ernesto ao longo dos 57 anos de casados. Especialmente a que brota da parte da dona Gertrudes. Frequentemente sujeita às maiores intempéries de mau humor do senhor Ernesto — que por vezes discorda até na hora de concordar —, o amor da dona Gertrudes resiste. Lá está ela agora, levantando-se da cama a meio da noite para ir buscar um copo de água e um comprimido para amenizar um ataque de vesícula do senhor Ernesto. Enquanto ele bebe a água, ela afaga-lhe o cabelo e, com muita ternura, diz: «vai passar, vai passar...» A dona Gertrudes já nem se lembra que poucas horas antes ele teve um dos seus frequentes acessos de mau humor, só porque à saída da missa ela lhe perguntou:
— Quem era aquele alto e loiro parecendo alemão lá na fila da frente?
— Mas, Gertrudes, tu és completamente louca! — A palavra «louca» foi pronunciada com um prolongar da letra L que doeu fundo na alma da dona Gertrudes; o senhor Ernesto prosseguiu: — Na fila da frente não tinha ninguém alto e louro parecendo alemão!
— Não?!
— Não! O alto e louro parecendo alemão lá na fila da frente era o filho mais novo do falecido Manuel Antunes!

Alguém vai negar que só uma cola de sapateiro suporta frequentes acessos como este?

6 comentários:

  1. A analogia da cola de sapateiro que une o casal eternamente reforça-se ao nos lembrar-mos que esse material tem efeito entorpecente quando aspirado...

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  2. É... gosto mais desta metáfora. Não gosto quando se complica... Quando se ama, não há intempérie que faça desgrudar!
    (vim agora da Sinusite, obrigada pela deixa ;))

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  3. Obrigado pela preferência, L. Maria. Há quem goste de ligar o complicómetro das palavras para embrulhar ideias. Eu (e pelos vistos você também) prefiro o contrário...

    Quanto às metáforas, gostos não se discutem e a minha opinião é claramente tendenciosa, mas você tem bom gosto! :)

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  4. o senhor Antunes é só um bocadinho bronco. Nada a que alguma mulher não sobreviva.

    As colas dos chineses servem para fazer outras coisas que não colar. há umas com que se pode desenhar. quem sabe o que se pode fazer de bom com se os casamentos que usam esse tipo de cola....

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  5. Eu quero um príncipe! E um casamento de cola de sapateiro! quem souber de um principe pouco exigente e muito bonitinho pode enviar-mo sff em envelope registado daqueles almofadados com papel de bolhinhas que é para não amolgar nada coitadinho, que o quero intacto do dedinho do pé ao ultimo cabelo. Suspiro por um príncipe, suspiro tanto que estou em vias de entrar no Pulido Valente por suspeita de parvoeira suspirante.

    Exilado, desculpe o desabafo, mas a sua história foi o meu ensejo; é que há mil anos que espero deitada num caixãozinho e isto é muito incómodo, não dá espaço para ter um pesadelo nem nada senão entorno-me toda daqui abaixo e não convém que estrago o penteado e as pregas da saia e dou logo cabo da história. E se ele chegar, que não se ponha feito palerma a olhar que eu só acordo se me beijar e nem que seja um beijo na cara serve muito bem, ora essa, acordo logo, logo, e ponho o caixãozinho à geada que estou farta dele até aos ossos. E depois logo se vê se o principe me convém ou não, que tenho de tratar de mim que os meus pais já morreram há mil anos, sou orfã por inteiro.
    E mais uma vez peço desculpa por abusar do seu blogue mas olhe que vir aqui parar morta dá um trabalho que nem imagina. E muito obrigada pelo espaço. o caixãozinho incomoda? sorry, vou virar este bico para outro lado; os anões não sabiam da peça de fazer os cantos redondos, o que é uma grande de uma chatice. Se eu ocupar muito espaço e o principe não aparecer atire-me fora que assim como assim estou morta por inteiro e não dou por nada.

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