quarta-feira, 27 de abril de 2011

A inexorabilidade dos números

Ainda muito jovem me apercebi de que não era especialmente dotado para a atividade política. Para ser mais preciso, por volta dos meus dez anos de idade. Lembro-me perfeitamente daquela tarde em que fui incumbido pelos meus colegas para negociar a devolução de uma bola com o proprietário do terreno vizinho àquele onde costumávamos jogar futebol. De nada valeu ao meu povo carente de bola a minha suposta capacidade de negociação, pois o resultado prático da missão foi termos que desatar todos a correr — sem a tal bola — e nunca mais ganharmos coragem para colocar os pés naquele terreno. Claro que daí em diante o grupo nunca mais me incumbiu de missões com necessidade de alguma habilidade política — e eu até agradeci — e aí comecei a desconfiar que o meu caminho talvez pudesse passar mais pelas ciências exatas.

Claro que o ser humano vem dotado de uma certa capacidade de evolução e eu nem fujo muito à regra. Posso até dizer que com os anos fui desenvolvendo o pouco jeito que tinha e hoje já começo a considerar a possibilidade de abraçar uma carreira política. Obviamente, porque a atividade política de hoje em dia pouco tem a ver com a atividade de outros tempos. Ter boa capacidade política nos tempos que correm consiste essencialmente em ter alguns dotes de teatralização na campanha eleitoral com a palavra a certa — de preferência enigmática — e o sorriso perfeito. A isso juntando bom aspeto físico — a minha mãe acha-me muito bonito — e uma boa equipe de marketing por trás a orientar os passos, podemos dizer que temos a fórmula certa para o sucesso político na atualidade.

Se dúvidas houvesse, com a chegada a Portugal do triunvirato — a nossa comunicação social aderiu em massa a uma tal de troika, mas eu confesso que ainda não senti necessidade de recorrer à língua russa — de peritos internacionais em finanças públicas e a completa passividade dos nossos governantes, tivemos a prova cabal de que a governação de um país não se faz agora com habilidade política para negociar, mas sim com total subjugação à inexorabilidade dos números. O papel do governante é, hoje em dia, ceder à chantagem dos mercados e dos banqueiros, estando para ele reservada apenas a mera função de justificar  — quase sempre a posteriori — o limitado leque de opções possíveis, quase sempre com base em números e dados estatísticos.

E, se o assunto é números, porquê restringir o recrutamento de líderes políticos a engenheiros e economistas e não chegar àqueles que melhor conhecem e entendem as suas subtilezas? Estão a ver onde quero chegar não estão? Sem puxar muito pela memória, posso assegurar que tenho conhecimento profundo em números naturais, inteiros, racionais, irracionais, reais, complexos, quaterniónicos, primos, compostos, perfeitos, algébricos, transcendentes e muitos outros que nem vêm ao caso!

É óbvio que uma candidatura minha neste momento a um cargo político da nação já não viria a tempo das eleições que se avizinham. Mas, com tempo, vou amadurecer a ideia e, quem sabe, nas eleições seguintes — que nem deverão andar muito longe, dada a grande instabilidade política — apareço com uma equipe e o marketing certo para o sucesso. Até já tenho um discurso alusivo à minha qualidade técnica na nobre ciência dos números para tentar convencer o povo a votar em mim:
«Vocês conhecem o meu trabalho: eu provei que sistemas dinâmicos com decomposição dominada nos quais um dos fibrados exibe contração uniforme e o outro comportamento não uniformemente expansor possuem alguma medida de Sinai-Ruelle-Bowen!»
Que se acautelem os pouco preparados intervenientes da cena política nacional, pois o lugar deles começa a ficar em perigo!

10 comentários:

  1. Com discursos desses, já ganhaste! Quem se atreverá a contra-argumentar?

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  2. Cristina, o nível da Matemática em Portugal tem melhorado muito, mas acredito que a minha proposta seja irrefutável. O Orlando, por exemplo, é um grande especialista que me apoia!

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  3. Ok, também te apoio, mas temo que talvez te falte o dominio dos números mais importantes na política de hoje em dia: os números de circo.

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  4. Boa Filipe! Tinha pensado na teatralização, mas talvez seja mesmo necessário ir mais longe.

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  5. Considerando seu discurso, Acho que haverá alguma estabilidade estatística nas intenções de votos em ti. Seria bom que ganhe logo na primeira vez, então!

    Lembro também que discursos similares foram usadas no Brasil...rs.

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  6. O Brasil sempre foi muito inspirador!...

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  7. Ola José,

    Tá ótimo o seu discurso para ingressar na política, se aqui do Brasil pudessémos votar em você, saiba que teria muitos votos (rs)... Com seu talento natural de escrever, expressar suas idéias,a arte da política e o domínio dos números com certeza " o lugar deles começa a ficar em perigo".

    abraços,

    Heliete

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  8. Bem vejamos:Os nossos políticos também conhecem por inteiros e naturais,os números que asi próprio se atribuem. São todos muito racionais,ao contrário dos irracionais numeros da função pública e quejandos. Quaisquer números que o governo apresente são reais mas demasiado complexos, , compostos e transcendentes para serem entendidos pelos comuns mortais. Já os números para os primos são perfeitos. Estou em crer que também dominam os algébricos e cá pra mim são todos uma cambada de quaterniónicos. Resumindo: pela sua saúde NÂO SE CANDIDATE!!!!

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  9. Na minha opinião parece-me errado ingressares na politica.

    Os Independentes devem manter-se sempre Independentes e não fazer como outros que se diziam independentes.
    Diziam Eles à boca cheia e com convicção que nunca ingressariam em partidos políticos e muito menos seriam deputados, no final das contas e passado 3 meses aceitaram ser cabeça de lista... Atitude que não os ENOBRECE em nada!

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