quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sem preconceito

A Dulce acabava de pousar o telefone.
Outra vez?!
Outra vez o quê?
A tua tia...
O que é que tem a minha tia?
Já vem para cá outra vez?
Como “já”?
Ainda há pouco tempo cá esteve.
Há pouco tempo?
Não é?
Na Páscoa do ano passado... Há mais de um ano!
Parecia-me menos tempo...
Ó Proença, não sejas assim com a minha tia.
E vem por quanto tempo?
Uma ou duas semanas...
Tudo isso?!
Não mais de três!
Ah não, três semanas sem sofá a partir das 10?!
A tia é uma mulher só.
Só? Porque quer...
A história do pai do Borges de novo?
A tua tia tem à mão um bom partido e rejeita-o! Depois é uma mulher só, claro.
Não sejas preconceituoso!
Eu?!
Sim. Achas que tinha que se sujeitar ao primeiro que lhe apareceu só porque já tem mais de 60 anos?
Não tinha que se sujeitar. Só tinha que lhe dar uma oportunidade.
Ele tem aquele defeito...
Essa é boa! Ela rejeita-o porque ele tem um ligeiro defeito e eu é que sou o preconceituoso!
Ligeiro defeito?!
Sim. Uma perna ligeiramente mais curta. Mas sentado ou deitado nem se nota.
Não me referia a isso.
Não?! Tem outro?
Ora, Proença, não te lembras de quando o apresentamos à tia?
Um pouco vesgo? Com óculos escuros também não se nota.
Nem é tão pouco vesgo. Mas também não me referia a isso.
Não me digas que é por ele ouvir mal!
Desse defeito já nem lembrava...
Aliás, do jeito que a tua tia fala, é até uma virtude: não vai reclamar nunca!
Não, não é isso!
É por ser adepto do Porto?!
Não, Proença, que disparate!
Então, que diabo é?!
Não te lembras do jantar de apresentação?
Lembro... O que é que teve?
Ah, Proença, é difícil!
Difícil o quê?
Difícil até para eu falar.
Fala.
Ah...
Fala!
Flatulência é demais!
Ah, Dulcinha, para isso há remédio!
Não dá!
Um médico resolvia isso facilmente.
Não dá, não dá!
Acho que tu e a tua tia é que estais cheias de preconceito.
É, Proença, para resolver o caso da minha tia tu até és um homem muito despido de preconceitos!
O Proença achava-se um homem moderno. De mente aberta. Não gostou do «para resolver o caso da minha tia» na frase da Dulce. Ainda pensou argumentar que para resolver o seu próprio caso também se tinha despido de alguns preconceitos, mas pressentiu que seria mais prudente não entrar com a argumentação por esse lado. Achava-se um homem moderno e prudente. E totalmente sem preconceito!

5 comentários:

  1. Um homem dificilmente sobrevive sem saber
    - quando tem de estar calado.
    - quando não pode não abrir a boca.
    O resto é facil.
    Se não for preconceituoso:)

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  2. Caro on, só discordo do "O resto é fácil" no seu comentário :)

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  3. Como o dia 21 Abril é o dia de Tira Dentes, só falta à tia arrumar um banguela.... :)

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  4. "para resolver o caso da tia", "para resolver o seu próprio caso" - e andamos assim. Sentimentos?! O que interessa é resolver casos...

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  5. A resolver casos, e com (tentativas de) fórmulas universais! :)

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