— Outra vez?!
— Outra vez o quê?
— A tua tia...
— O que é que tem a minha tia?
— Já vem para cá outra vez?
— Como “já”?
— Ainda há pouco tempo cá esteve.
— Há pouco tempo?
— Não é?
— Na Páscoa do ano passado... Há mais de um ano!
— Parecia-me menos tempo...
— Ó Proença, não sejas assim com a minha tia.
— E vem por quanto tempo?
— Uma ou duas semanas...
— Tudo isso?!
— Não mais de três!
— Ah não, três semanas sem sofá a partir das 10?!
— A tia é uma mulher só.
— Só? Porque quer...
— A história do pai do Borges de novo?
— A tua tia tem à mão um bom partido e rejeita-o! Depois é uma mulher só, claro.
— Não sejas preconceituoso!
— Eu?!
— Sim. Achas que tinha que se sujeitar ao primeiro que lhe apareceu só porque já tem mais de 60 anos?
— Não tinha que se sujeitar. Só tinha que lhe dar uma oportunidade.
— Ele tem aquele defeito...
— Essa é boa! Ela rejeita-o porque ele tem um ligeiro defeito e eu é que sou o preconceituoso!
— Ligeiro defeito?!
— Sim. Uma perna ligeiramente mais curta. Mas sentado ou deitado nem se nota.
— Não me referia a isso.
— Não?! Tem outro?
— Ora, Proença, não te lembras de quando o apresentamos à tia?
— Um pouco vesgo? Com óculos escuros também não se nota.
— Nem é tão pouco vesgo. Mas também não me referia a isso.
— Não me digas que é por ele ouvir mal!
— Desse defeito já nem lembrava...
— Aliás, do jeito que a tua tia fala, é até uma virtude: não vai reclamar nunca!
— Não, não é isso!
— É por ser adepto do Porto?!
— Não, Proença, que disparate!
— Então, que diabo é?!
— Não te lembras do jantar de apresentação?
— Lembro... O que é que teve?
— Ah, Proença, é difícil!
— Difícil o quê?
— Difícil até para eu falar.
— Fala.
— Ah...
— Fala!
— Flatulência é demais!
— Ah, Dulcinha, para isso há remédio!
— Não dá!
— Um médico resolvia isso facilmente.
— Não dá, não dá!
— Acho que tu e a tua tia é que estais cheias de preconceito.
— É, Proença, para resolver o caso da minha tia tu até és um homem muito despido de preconceitos!
O Proença achava-se um homem moderno. De mente aberta. Não gostou do «para resolver o caso da minha tia» na frase da Dulce. Ainda pensou argumentar que para resolver o seu próprio caso também se tinha despido de alguns preconceitos, mas pressentiu que seria mais prudente não entrar com a argumentação por esse lado. Achava-se um homem moderno e prudente. E totalmente sem preconceito!

Um homem dificilmente sobrevive sem saber
ResponderEliminar- quando tem de estar calado.
- quando não pode não abrir a boca.
O resto é facil.
Se não for preconceituoso:)
Caro on, só discordo do "O resto é fácil" no seu comentário :)
ResponderEliminarComo o dia 21 Abril é o dia de Tira Dentes, só falta à tia arrumar um banguela.... :)
ResponderEliminar"para resolver o caso da tia", "para resolver o seu próprio caso" - e andamos assim. Sentimentos?! O que interessa é resolver casos...
ResponderEliminarA resolver casos, e com (tentativas de) fórmulas universais! :)
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