domingo, 1 de maio de 2011

O álbum de retratos

O amor da dona Lurdes pelo Marinho era de tal forma profundo que, em nome de um valor tão alto como a felicidade do filho, estava disposta a invadir a sua privacidade. O seu coração de mãe não aguentava mais ver o Marinho no estado de sofrimento em que tinha mergulhado depois que a Maria Helena o largou. Acima de que tudo, não podia permitir que ele continuasse a cultivar esse sofrimento: eram já sem conta as vezes que lhe batia à porta do quarto — nesse bater quase em simultâneo com o rodar do puxador — e o via esconder aquele maldito álbum vermelho no armário.

Foram também sem conta as vezes que a dona Lurdes avisou o Marinho de que não era normal o tempo que o Ricardo passava no apartamento deles. E, muitas dessas vezes, apenas na companhia da Maria Helena. Mas, de que adiantou? A todos os alertas o Marinho respondeu sempre com um «somos amigos de infância». E eram de facto amigos de infância. Três amigos de infância. Mas a dona Lurdes sabia — e o tempo veio comprovar que estava certa — que a amizade de infância nunca foi escudo para uma punhalada pelas costas. Foi assim que a dona Lurdes interpretou o modo como a Maria Helena abandonou a casa e a vida do Marinho para ficar com o Ricardo. Com um simples bilhete: «Fui viver com o Ricardo, não me procures».

O Marinho era um menino puro. Essa mesma pureza que anos antes fizera a Maria Helena optar por ele — em detrimento do Ricardo —, servia agora para ela facilmente descartá-lo como quem descarta uma peça de roupa sem utilidade. E para ficar precisamente com esse Ricardo, que outrora lhe parecera impuro. Sabia-se que, na época, o coração da Maria Helena tinha vacilado bastante entre o Marinho e o Ricardo e finalmente pendido para o lado da pureza. Mas, excetuando a dona Lurdes, ninguém vaticinaria que esse mesmo coração pudesse voltar a vacilar e pender agora para o outro lado.

O momento da dona Lurdes violar a privacidade do filho — em nome da sua felicidade, claro — tinha finalmente chegado. O Marinho tinha saído apressado para o trabalho e, inacreditavelmente, esquecido a chave na porta do armário onde zelosamente guardava o álbum de retratos. A dona Lurdes não deixou de notar esse detalhe enquanto arrumava o quarto do filho. Ainda pensou duas vezes, mas à terceira já estava com a porta aberta. E nem precisou de vasculhar muito para rapidamente descobrir o maldito álbum vermelho. Soltou um suspiro de alívio e abriu um ar de satisfação enquanto apertava o álbum contra o peito.

De imediato, dirgiu-se para o seu quarto. Antes de encerrar o álbum a sete chaves, a dona Lurdes sentiu a tentação de olhar o seu conteúdo. Sabia que havia a possibilidade do álbum conter fotos íntimas do Marinho e da Maria Helena, mas ao seu coração de mãe nem isso fez merecer a reprovação do intento. Abriu o álbum e começou a folheá-lo. À medida que avançava, o seu semblante, que minutos antes era de satisfação, rapidamente começou a ficar carregado. E, entre suores frios, surgiu-lhe a inevitável interrogação: «Porquê tantas fotos do Ricardo?!»

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