segunda-feira, 16 de maio de 2011

O GPS na relação conjugal

Não sei se já há dados estatísticos que o comprovem, mas acredito que um dos efeitos secundários do uso generalizado do GPS tenha sido uma valiosa contribuição para o decréscimo das situações de conflito entre casais que gostam de viajar (e utilizar o GPS).

Casal que tenha ultrapassado a lua-de-mel rapidamente começa a aperceber-se que não é por terem passado a formar um só corpo que daí em diante tudo funcionará na perfeição. A mulher, de um modo geral, atinge esse estado de consciência muito antes do homem. Muitas vezes, na própria lua-de-mel. Principalmente se essa envolver viagem de carro na qual se torne necessário recorrer a um mapa. Facilmente a mulher descobre que a sugestão de ignorarem o mapa e pedirem indicações a alguém é uma das ofensas graves para o homem: o verdadeiro macho sabe como tratar sozinho da orientação familiar e não precisa da ajuda de estranhos. Sugerir que se abdique deste princípio básico pode ser (e quase sempre é) interpretado como ofensa grave. Respeitado esse princípio, a viagem passa depois por várias fases.

Na fase 1, o homem coloca o mapa nas mãos da mulher e escuta a inevitável pergunta: «onde é que estamos?» Respostas objetivas do tipo «devias saber tanto quanto eu», além de dificilmente saírem no tom e volume certos para não parecerem ofensivas, também não vão contribuir em nada para a resolução do problema. Nessa fase, o mais recomendável é parar o carro e assinalar sobre o mapa (de preferência com uma cruzinha) o local onde se encontram nesse momento. Ainda com o carro parado, o homem deve colocar o mapa com a orientação certa nas mãos da sua companheira. Se o estado de espírito ainda permitir, pode também aproveitar para lhe dar um beijo e assim transmitir a ideia (falsa) de que não está tenso.

A fase 2 é um pouco mais demorada e, normalmente, envolve instruções do tipo «vira para lá» (com o correspondente acompanhamento de sinalética manual, claro está). Nesta fase o homem deve aumentar o mais que puder o alcance da sua visão radial. O ideal seria colocar a mulher no capô (e ela até agradeceria, mais não fosse para se livrar do sujeito mal-humorado que tem ao lado), mas isso não é permitido por lei (pelo menos nos países por onde tenho andado). Esta é a fase em que a tensão aumenta significativamente e deixa de ser possível disfarçá-la com um beijo. Aumentar o volume do rádio pode ajudar. Mesmo que isso faça com que as instruções deixem de ser escutadas, o efeito será praticamente o mesmo. E o volume alto sempre permite libertar alguma da tensão acumulada praguejando um pouco sem que se note a indelicadeza.

Entre as fases 2 e 3 há a tentação para uma fase 2.5, que envolve o mapa colocado sobre o volante e o acumular das funções de piloto e co-piloto. O homem jamais deve cair nessa tentação! Além de ser proibido por lei e contribuir de forma significativa para aumentar o risco de acidente (por vezes há sintonia entre as proibições e o perigo iminente), não costuma trazer resultados práticos: o desempenho de mais do que uma tarefa em simultâneo é qualidade exclusiva da mulher!

A fase 3 depende dos casais:

Nos casais onde o homem tem alguma inteligência prática (ou menos testosterona, dá no mesmo), chegando a esta fase (mas só nesta fase!), o problema já se resolve facilmente com o renovar da sensata sugestão feminina «vamos perguntar a alguém». No entanto, nesta fase de cedência à sensatez feminina, evitem-se os exageros: perguntando a grupos exclusivamente femininos, e sendo elas pelo menos quatro, com probabilidade alta se corre o risco de obter indicações com mãozinhas delicadas a apontar nas direções de (no mínimo) os quatro pontos cardeais.

Nos casais mais radicais, a mulher sai do carro e apanha um táxi. Muito tempo depois o homem chega ao destino visivelmente cansado e, com um sorriso idiota e ar triunfal, acrescenta: «estás a ver que consegui?»

6 comentários:

  1. Eu cá digo-lhe a ela para conduzir e dou eu as indicações.

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  2. Isso de dizer-lhe para ser ela a conduzir parece-me muito pouco digno de um verdadeiro macho! :)

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  3. Os imbecis sempre acham que são mais inteligentes que o resto do mundo!!!

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  4. Os meus pais sempre foram "especialistas" nessas discussões, admira-me terem aguentado o casamento. O problema é que não sei se o GPS, no caso deles, iria resolver alguma coisa. Já estou a ver o meu pai a culpar a minha mãe por o GPS não dar os dados pedidos, depois de ter sido ELE a programar a rota...

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