quarta-feira, 8 de junho de 2011

Dia D

Era inquestionável. Ambos tinham perfeita consciência de que, volvidos quase dois anos sobre a primeira vez em que se tinham encontrado, o passo mais importante nessa ainda relativamente curta história de vida a dois iria finalmente ser dado.

A Aurora acordou a pensar precisamente nesse dia em que se conheceram. O incidente da garrafa de água com gás — Frize, salvo erro — caída a seus pés no supermercado e o Neves tentando de um jeito muito desajeitado evitar o inevitável — inequivocamente, um traço marcante da personalidade do Neves. Por mais que ele lhe tivesse garantido que sim, até hoje ela não acreditava que a queda da garrafa tivesse sido meramente acidental. E não podia negar que aquela dúvida tinha funcionado como rastilho para uma curiosidade que lhe condicionara os passos seguintes. Sem também menosprezar o agradável cheiro a homem naquele levantar estratégico — quase violando a distância mínima exigida por lei — depois de ter apanhado os vidros estilhaçados a seus pés. A Aurora achou curioso que lhe tivessem ocorrido estes pensamentos hoje ao despertar. Mas tinha que se apressar, pois dentro de duas horas a Florbela estaria a bater-lhe à porta. Seguiriam juntas para cartório.

O Neves acordou a pensar na primeira noite na qual a Aurora concordou que estava demasiado calor para a roupa que traziam vestida, mas quanto mais roupa tiravam mais a temperatura aumentava. Como lhe pareceu bela naquele trajar de Eva sem folha de videira. Bela e nervosa. Nunca entendeu o motivo pelo qual estava tão nervosa. Afinal, não era a primeira vez da Aurora. E nem duvidava que nesse aspeto até fosse ela a mais experiente dos dois. O Neves até hoje denotava sérias dificuldades para entender determinadas idiossincrasias femininas. Tinham decorrido apenas algumas semanas desde que se tinham conhecido na loja de conveniência do posto de gasolina. Ou teria sido no supermercado? O Neves achou interessante que lhe tivessem ocorrido estes pensamentos hoje ao despertar. Mas tinha que se despachar, pois em menos de uma hora deveria estar no cartório. 

Poucos minutos depois da hora marcada, lá estavam a Aurora e o Neves, lado a lado, sendo confrontados com a inevitável pergunta:
— Por certo, pensaram muito bem no ato que aqui vão realizar. Digam-me: é realmente da vossa vontade consumarem este divórcio?
— Sim! — Responderam ambos em simultâneo.

3 comentários:

  1. Um dos grandes males dos tempos modernos: a facilidade em desfazer o tal compromisso! (ou será uma grande vantagem?...)

    Está muito bem escrito! Sim, senhor!

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  2. Após a assinatura do contrato de rescisão partiram ambos (em separado) rumo à "boite" mais "in" da cidade para os festejos.... :)

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  3. Bem escrito, com um final inesperado. Os primeiros pensamentos do dia estao bem "apanhados". E gostei ainda do "trajar de Eva sem folha de videira".

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