quarta-feira, 15 de junho de 2011

O tempo, segundo Elias

O Elias tinha ideias claras e firmes sobre o problema do envelhecimento: a idade era algo muito relativo que dependia essencialmente da forma como era encarada; ser jovem consistia na arte de saber manter uma mente eternamente airosa num corpo sempre em forma; atitude era o segredo para passar incólume às marcas do tempo. Segundo o Elias.

Há muito tempo posicionado na casa dos trinta — passara já bastante dos trinta e dez, segundo a sua própria mulher —, enfrentava os incómodos sinais de erosão provocados pelo tempo com abnegação e afinco. E para todos os sinais encontrava uma solução: para os cabelos brancos uma pintura, para a calvície um melhor aproveitamento dos cabelos restantes — e laca a segurá-los —, para as rugas um creme facial, para a protuberância abdominal uma ginástica. Assim se mantinha fisicamente em forma e sem dar quaisquer mostras de envelhecimento. Segundo o Elias.

A tal mente eternamente airosa no corpo sempre em forma proporcionava-lhe um sucesso quase inabalável no meio feminino. A ponto de se sentir frequentemente assediado por teenagers e vintagers — e se no assédio das teenagers poucos acreditavam, já no caso das vintagers poucos teriam as suas dúvidas. Convém ressalvar que o inglês do Elias era relativamente fraco — bastante mais fraco que a sua capacidade para controlar os efeitos nefastos do tempo —, mas realizava constantes upgrades linguísticos para mais eficientemente se comunicar com as gerações mais novas. Segundo o Elias.

Recentemente ocorreu um episódio digno de registo. O Elias caminhava ao encontro da sua mulher que o aguardava umas dezenas de metros mais adiante. A sua atenção foi capturada por uma bela jovem — numa idade compreendida entre o teenager e o vintager, segundo o Elias — que por sua vez nele fixou longamente o seu olhar. Em condições até aí normais esse detalhe teria sido considerado pelo Elias como um inequívoco sinal de interesse da jovem. Contudo, desta vez levou-o a abordar a sua mulher com a seguinte dúvida:
— Tenho alguma coisa errada?
— Como assim?
— Cabelo em pé, sorvete no bigode, baton na cara... algo do género?
— Não... deixa ver... não... está tudo bem!
— Ah!
— Mas porquê?
— Nada, nada... só para saber...

Algo de muito estranho acontecera desta vez na postura do Elias: tendo sido alvo do olhar fixo de uma jovem singularmente bela, ao invés do que seria habitual, suspeitou que pudesse haver alguma anormalidade no seu visual. E não se apercebeu que, de forma inconsciente, estava a dar os primeiros sinais de fraqueza perante o implacável tempo. Tinha encontrado forma de controlar cabelo branco, calvície, rugas e protuberância abdominal, mas precisava urgentemente de aprender a não cair nas armadilhas do seu próprio subconsciente. Sob pena de se tornar vítima daquilo que mais o repugnava: o peso da idade.

3 comentários:

  1. To vendo que esse Elias é um mau cliente de PPR.... Assim nunca irá chegar à idade da Reforma!!! kkkkk

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  2. Muito interessante.

    Sabe, eu tenho reparado que as pessoas que assumem as mudanças físicas da idade têm uma mente mais airosa do que as que tentam "controlar" o corpo. Não estou a dizer que desleixemos a aparência, eu própria venho disfarçando as brancas (o tema das brancas nas mulheres também dá pano para mangas). Mas há coisas que considero ridículas, como "um melhor aproveitamento dos cabelos restantes", à força da laca, por exemplo.

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  3. O problema não são os gestos, mas a intenção por detrás deles. Especialmente se neles há uma tentativa de dissimulação que funciona contra quem os executa.

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