quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sintomas de dislexia nacional

Há determinadas práticas que nos entram nos hábitos sem que por vezes se vislumbre motivo suficientemente forte que as justifique. Invade-me inevitavelmente uma certa impressão de estranheza quando para tais práticas não encontro explicação razoável ou, num caso mais extremo, nelas deteto alguma falta de lógica.

Uma das tradições portuguesas que aqui merece a minha ponderação está relacionada com a atividade imobiliária. Especificamente, na identificação dos apartamentos por andar. Para que fique claro o que aqui pretendo ponderar, pensemos num apartamento situado no oitavo andar de um determinado prédio. O mais comum em Portugal será talvez esse apartamento ser designado por 8º Direito ou 8º Esquerdo. Contudo, se o prédio tiver mais do que dois apartamentos por andar, já se podem ver designações como 8º Centro, 8º Centro Traseiro ou até 8º Centro Traseiro Direito. Essas são as designações por extenso, porque no intercomunicador do prédio podem surgir abreviaturas como 8º Dir, 8º Esq, 8º Ctr Trs ou até 8º Ctr Trs Dir — já para não falar na possibilidade de se baixar ao caso extremo de um R/C Ctr Trs Dir.

Quem, como eu, tiver o hábito de receber amigos estrangeiros em casa, sentirá por vezes a necessidade de lhes ministrar um curso prévio de português — com abreviaturas — para que os sinta perfeitamente capacitados de executarem um gesto tão simples como chamar no intercomunicador. No entanto, será justo ressalvar que já detetei em Portugal alguns prédios nos quais foi adotada a terminologia vigente em muitos outros países, nos quais se designam os apartamentos por 8A, 8B, etc. No Brasil, a preferência aponta para 801, 802, etc. Poder-se-ia pensar que bastaria 81, 82 e por aí fora, mas note-se a preocupação da terminologia brasileira ter ficado preparada para prédios com mais de 10 apartamentos por andar. Conhecendo o parque habitacional de Copacabana, acredito que a opção brasileira tenha ganho força com a urbanização desse bairro.

Até há cerca de 10 anos, altura em que troquei de apartamento pela primeira vez, pensava eu que a designação de Direito ou Esquerdo estava imbuída de uma certa lógica. Julgava eu que, olhando um prédio de frente, facilmente se saberia de que lado ficava um e outro — não via grande necessidade de tal conhecimento, mas digamos que essa correlação justificaria a terminologia. Na época morava eu num 3º Direito. Talvez por uma questão de orientação política que começava a despontar em mim, decidi que no novo prédio escolheria a minha fração no lado oposto. Como o prédio estava ainda mal começado — e mal vendido — eu podia dar-me a esse luxo. No dia em que escolhi o novo apartamento assim fiz: levei em conta a posição do apartamento em relação à frente do prédio e, por analogia com o prédio antigo, escolhi a minha fração no extremo oposto. Estava certo que iria morar no 8º Esquerdo.

Na minha primeira visita ao novo apartamento, que placa vejo eu por cima da porta? 8º Direito! A minha tentativa de explicação lógica para este hábito nacional foi irremediavelmente por água abaixo. E nem precisei de esperar pela governação de José Sócrates para me aperceber de que em Portugal uma suposta esquerda pode não passar de uma direita travestida.

3 comentários:

  1. Há quem more no 4º(com ele) Direito.... :)

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  2. A esquerda e a direita quer nos edificios físicos quer nas construções políticas, dependem do ponto de vista. Geralmente quando se está de fora tem-se uma ideia e quando nos deparamos face a face com a coisa vemos que afinal era exactamente ao contrário!!

    Mané ( Manuela Niza )
    PS- E sim sei o que significa Mané em brasileiro. Mas até ver sou portuguesa de gema e tal como nos prédios o nome neste caso também significa o contrário conforme o lado do oceano.

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  3. É interessante que aborde este tema. Desde que vivo no estrangeiro, dei-me conta de como os enderecos portugueses podem ser complicados. Nao sao só as abreviaturas deste tipo, sao os nomes de ruas/avenidas com 4 ou 5 palavras!

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