quarta-feira, 6 de julho de 2011

A fábula do coelho especial

Há muito, muito tempo (num tempo em que os animais ainda falavam) havia uma quinta no extremo mais ocidental do velho mundo, habitada exclusivamente por coelhos, galinhas e patos   demasiados patos; muito mais patos do que coelhos e galinhas. Apesar das constantes ameaças das glutonas raposas que circundavam a quinta, a população animal no seu interior conseguia defender-se razoavelmente bem e sobreviver com alguma tranquilidade.

Entre os animais da quinta havia naturalmente um líder. Líder esse que era eleito periodicamente em assembleia geral, através do sistema de voto mais natural: levantamento de asa, no caso de galinhas e patos, ou levantamento de pata, no caso dos coelhos. Fazia parte das atribuições desse líder zelar pela defesa dos animais na quinta, em particular, protegê-los das investidas das raposas. Como forma de diminuírem as tentativas de invasão, uma parte do que cultivavam na quinta era arremessado por cima dos muros para que as raposas se alimentassem  reza a lenda que há muito, muito tempo, as raposas eram animais com tendências tanto vegetarianas como carnívoras, mas já com clara preferência pela carne.

Durante anos, a organização da quinta funcionou na perfeição. O poder alternava quase sempre entre galos e coelhos; ora uns, ora outros. Os patos, apesar de em muito maior número, nunca conseguiam ascender ao poder  eram demasiado patos. Porém (há sempre um porém!), as condições de vida na quinta começaram a degradar-se seriamente quando um galo janota, de penas brilhantes e bem falante conseguiu ascender ao poder. A pouco e pouco, os humildes animais da quinta começaram a constatar que a contribuição dada para os manterem a salvo do inimigo externo (que dava pelo nome de raposa) era cada vez maior, e um grupo restrito de galos e galinhas engordava a olhos vistos. Em contrapartida, coelhos e patos (principalmente estes) emagreciam também a olhos vistos. O orgulho por terem um líder tão janota e bem falante rapidamente deu lugar ao descontentamento pelas condições de vida cada vez mais degradadas.

Um belo dia, para gáudio dos já inúmeros descontentes (principalmente patos), saiu da toca um belo coelho. Um coelho vigoroso, de pelo bem cuidado (ainda mais janota que o galo janota), com falas sábias e mansas. Esse coelho tornou-se na nova esperança para aquela população animal. Tanto fez, tanto prometeu, que a assembleia geral para nova eleição foi inevitavelmente marcada. No dia da votação, os coelhos nem pestanejaram e os patos (sempre muito dispostos a deixarem-se levar na onda das falas sábias e mansas) votaram em massa no coelho recentemente saído da toca. Até algumas galinhas se deixaram enganar pela lábia e aparente aura de boas intenções desse coelho tão especial.

Não demorou muito (menos de um mês) para que os patos mais desconfiados (alguns, poucos) e as galinhas sempre desconfiadas começassem a detetar no coelho uns certos tiques de raposa. Num ápice, já poucos acreditavam que sob a pele daquele coelho especial não houvesse uma raposa. E muitas outras raposas tinham saído da mesma toca sob peles de outros coelhos. O pânico instalou-se. Era tarde demais!

3 comentários:

  1. José,

    ...(num tempo em que os animais ainda falavam), muito boa essa frase.

    Esse coelho especial resume um pouco a atual política de Portugal do Passos Coelho? Foi o que entendi...

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  2. De repente senti -me uma ave de rapina, prestes a fazer uma razia no galinheiro.
    Ó mau feitio o meu!!!!
    Mas afinal qual foi o mago que tirou este coelho da cartola? Mais valia uma pombinha!!!

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