quarta-feira, 20 de julho de 2011

S'd'tor

A preferência do ministro recentemente empossado na pasta da Economia, Álvaro Santos Pereira, para o tratamento pelo nome próprio — abdicando do nome adornado pelo posto que ocupa — causou alguma estranheza e provocou discussão em determinados meios. Num país onde se crê que o hábito faz o monge, é difícil aceitar que alguém acabado de chegar a um dos mais altos cargos da nação possa abdicar das honrarias que lhe são devidas. Pior do que isso, pensarão muitos — que não Assunção Cristas, claro está —, só ver um político sem fato e gravata em época que não seja de campanha eleitoral — em campanha eleitoral é diferente, pois eles gostam de se mostrar mais perto do povo e o povo gosta de vê-los, despretenciosamente, como iguais.

Esta questão do tratamento é algo fundamental em Portugal, sendo mais frequente a deferência pelo título que alguém ostenta do que pelo mérito daquilo que possa — ou não — ter realizado. Apesar de há mais de cem anos república, ainda se presta reverência aos títulos nobiliários e os dons ainda circulam quase como parte integrante de alguns nomes. Há ilustres da praça pública que se encontram há décadas fora da carreira militar  nem sei até que ponto alguma vez lá estiveram dentro , mas em circunstância alguma abdicam do título militar no trato quotidiano. E, aos títulos pelo grau académico, deve acrescentar-se os conferidos por certas ordens: a pena para quem não trate arquiteto ou engenheiro de forma condigna é, no mínimo, a correção imediata, grande parte das vezes em tom de relativamente ofendido! Haverá país tão sui generis como este em questão de títulos?

Um tratamento que me causa alguma indignação é o de s'tor  aluno que me queira ver relativamente irritado, aqui fica a sugestão! A introdução desse tal de s'tor foi particularmente bem-sucedida como trato aos professores do ensino secundário  não estudei o problema a fundo, mas suponho que a inovação remonte ao período no qual a profissão passou a ser exercida maioritariamente por licenciados. É-me difícil entender que esses, exercendo profissão tão nobre, com papel preponderante na formação intelectual e cultural das novas gerações, tenham querido libertar-se do clássico tratamento por professor, em favor de outra coisa que veio a descambar nesse tal de s'tor

Sou de uma geração na qual o s'tor  talvez numa forma ainda não tão sincopada  já imperava como tratamento preferencial aos professores do ensino secundário. Na universidade, o tratamento dividia-se entre o senhor professor e o senhor doutor, aqui e ali já com tentações para formas mais sincopadas. Recordo, a propósito, um episódio com um dos meus professores — um daqueles verdadeiros mestres que nos ficam eternamente na memória —, tão zeloso com a Língua Portuguesa como com a Matemática — após a correção das provas, era frequente trazer anotações sobre os erros de Matemática e os de Português que mais lhe desagradaram. Um certo dia, uma das minhas colegas resolveu ceder à tentação de um tratamento a meio caminho entre o senhor doutor e o s'tor. Algo como s'd'tor. Perante tal forma de tratamento, o professor, no charme dos seus já quase setenta anos de idade, perguntou: «A senhora acha-me realmente sedutor?»

3 comentários:

  1. Também não sei se haverá outro país tão sui generis. De qualquer maneira, não se é doutor apenas por se ser licenciado e acho o tratamento por professor bem mais bonito (e mais distinto). O problema é que, se não lhe juntarmos o "senhor", soa um pouco abandalhado: "Ó Professor". Podia-se tirar o "Ó". Ou, pelo menos no ensino secundário, limitar o tratamento ao nome das pessoas: Sr. Santos; Sr. Silva, etc.

    Mas temos o caso das senhoras, não é costume tratá-las por Sra. Santos, Sra. Oliveira, é mais Dona com o primeiro nome: Dona Cristina. Além disso, há quem insista no Sra. Dona...

    Enfim, sui generis!

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  2. Se estamos a pensar no mesmo Professor eu recordo também o que disse na primeira aula de um curso: podem-me tratar por "professor", por "doutor", pelo meu nome próprio, enfim como quiserem, mas não me maltratem!

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  3. E a versão galinheiro: Xô tor ó Xô tor !!
    Já quando alguém me chama de Dona leva logo a respostinha: dona sim , mas do meu nariz. Tenho muito mau feitio tá visto!!

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