quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A relíquia

"Apenas homens excecionalmente racionais 
podem dar-se ao luxo de ser absurdos"
Allan Goldfein

Até hoje, a única vez que a dona Amélia conheceu o seu marido completamente irreconhecível aconteceu há mais de 30 anos num estádio de futebol. Jamais se esqueceu de um sujeito vestido de preto, vítima dos mais vis impropérios do senhor Raimundo e seus companheiros. A julgar pela forma como se dirigiam a ele, era filho de uma mãe com profissão nada honrada e casado com uma mulher de comportamento muito pouco digno.

Terminado o jogo, o senhor Raimundo voltou a ser o mesmo homem calmo, ponderado e educado que todos — especialmente a dona Amélia — muito apreciavam. A transformação durante aquelas quase duas horas dentro do estádio foi de tal forma radical que a dona Amélia jurou nunca mais acompanhá-lo a tal antro de desabrochamento do lado mais animalesco da espécie humana. Preferia não saber o que por lá se passava e fingir que não conhecera essa faceta do seu marido.

Mas que diabo teria acontecido para que o senhor Raimundo fosse hoje o grande motivo de alvoroço naquele prédio? «Está demitida, está demitida!», era a frase que a dona Amélia ouvia ininterruptamente desde que entrara no prédio. Chegando ao seu apartamento, o volume dos berros elevava-se a um ponto quase intolerável: «está demitida, está demitida!»

— Que se passa, Raimundo?
— Ainda perguntas o que se passa?!
— Naturalmente.
— Que instruções deste à Matilde antes de sair de casa?
— Disse-lhe para lavar uma roupa e preparar sopa para o jantar.
— Roupa? Qual roupa?!
— Ora, Raimundo, umas peças de verão. Coisas para levarmos na viagem.
— Peças? Quais peças?!
— Vestidos, calções, polos...
— Pois, polos...
— Roupas de verão que estavam na parte de cima do roupeiro.
— Só essas?
— Sim, claro.
— Então vai ao varal!

A dona Amélia foi.

E voltou sem palavras. Viu no varal aquele polo num encarnado berrante lavado e estendido ao sol como virgem acabada de desflorar. Não podia acreditar que a empregada tivesse decidido lavar o polo que o seu marido guardava religiosamente há tantos anos na gaveta dos objetos de culto da sua mesinha de cabeceira. Entre eles, o vídeo onde se pode ver a equipa encarnada a subir a escadaria do Estádio Nacional, os adeptos em êxtase, o ligeiro desequilíbrio do Chalana, a sua mão direita a ser colocada sobre o ombro do senhor Raimundo e o suor a marcar a mão do pequeno genial no seu polo. Nunca o senhor Raimundo permitira que aquele polo tivesse sido lavado. O seu santo sudário!

A dona Amélia pressentiu que a Matilde estava, inapelavelmente, a ponto de engrossar o imenso contingente de desempregados deste país. A demissão parecia ser, aos olhos do senhor Raimundo, pena demasiado branda para o crime perpetrado por aquela empregada.

2 comentários:

  1. Fanatismos...
    Serão os homens excecionalmente racionais mais propensos a eles? Não sei, é possível. Agora, se isso é um luxo...

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  2. A questão não é propriamente o fanatismo, mas a manifestação do absurdo, mesmo em alguém supostamente bastante racional. Ninguém está imune! O poder dar-se a esse luxo é, na minha perspectiva, fruto do grau de tolerância concedido por terceiros.

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