quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Trocando destinos


Não é fácil ficar indiferente à perspetiva de uma história de amor, principalmente quando nela há contornos pouco esclarecidos que estimulam a imaginação. Presenciei o episódio que relato a seguir no lounge de um aeroporto europeu.

A poucos metros de mim, um homem lia calmamente uma revista enquanto aguardava o mesmo voo que eu. A calma do momento foi interrompida por uma bela jovem — nestas coisas elas são sempre belas e jovens — que se aproximou dele perguntando (em inglês, claro):
— Posso sentar-me?
— Sim, faça favor.
— Mas... a sua bolsa.
— Oh, desculpe.
— Tudo bem.
Uns segundos depois:
— Adivinhe porque vim sentar-me ao seu lado.
— Não faço ideia.
— Bem... não sei se devo dizer.
— Por favor!
— OK. Eu pensei que você fosse um ator.
— Um ator?
— Sim. Eu estava ali sentada e pareceu-me que você fosse ele.
— Ele quem?
— George Clooney.
— Está a brincar.
— O seu cabelo, o seu estilo...
— Muito obrigado. Tomo isso como um elogio!
— À vontade.
Alguns segundos em silêncio. Ela cruza as pernas, tocando levemente a perna dele.
— Desculpe.
— Não tem mal.
— Qual é o seu destino final?
— Chicago. E o seu?
— Nova Iorque.
— Você chega primeiro.
— E você faz uma escala.
— Somos muito perspicazes!
Alguns risos.
— Tem a certeza de que não é mesmo o George Clooney?
— Para ser honesto, já começo a desconfiar.
— A sério?
— De tanto que insiste...
— E está realmente indo para Chicago?
— Claro que não!
— Ah, bem me parecia!
— Na verdade, também fico em Nova Iorque.
— E para onde vai?
— Para a sua zona.
— Que coincidência! Então podemos partilhar um táxi.
— Sim, claro!

Não sei se realmente chegaram a partilhar um táxi. Mas sei que no começo da viagem aérea diligenciaram para que se sentassem do lado um do outro, tendo mais tarde partilhado um mesmo cobertor — talvez tenham partilhado algo mais...

A partir daqui as interpretações podem divergir quanto ao rumo e à moral desta história.

Os românticos verão neste episódio o começo de uma história de amor à primeira vista — ou apenas uma noite de amor à primeira vista. Não querendo desvirginar-lhes a pureza de um olhar idílico sobre as relações humanas, recomendo aos românticos que parem a leitura exatamente neste parágrafo.

Continuou? Sinto muito.

Os desconfiados levantarão a possibilidade de um ingrediente extra: a traição. Esses trocaram já o olhar idílico sobre as relações humanas pela crença de que o sofrimento está muitas vezes à pequena distância de uma mentira improvisada que faz alguém trocar o destino.

Os informados — grupo no qual me incluo, por uns minutos antes me ter sido dado a escutar, sem opção de rejeição, um telefonema do viajante clooniano — sabem que em Chicago havia uma mulher aguardando a sua chegada. Dependendo da informação que essa mulher venha a receber, ou do grau de desconfiança que a caracteriza, muito provavelmente estará também ela prestes a trocar o destino.

2 comentários:

  1. Sei não.... essa estória não me é de todo estranha... :)

    Onde ficou o cafézinho??...

    Nespresso what else?

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  2. Muito interessante, tanto a estória, como a sua análise.

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