quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Um caso insólito

Freud trouxe nova luz ao mundo sobre diversos fenómenos psicanalíticos que até então careciam de alumiação. Não teria sido necessária a intervenção de Freud para alumiar psicanaliticamente o caso de uma jovem estar de caso com um homem bastante mais velho, pois isso era — e acho que continua a ser — visto como caso muito natural.

Mas se o caso era um jovem estar de caso com uma mulher bastante mais velha, já o caso mudava — e acho que continua a mudar  — de figura. À luz da teoria freudiana poder-se-á conjeturar que a paixão do jovem pela mulher bastante mais velha tem as suas raízes na infância e resulta de algo mal resolvido entre esse jovem e a sua mãe.

Poderá ter sido algo do género que esteve na origem do caso do Neca. A conjetura ganha maior consistência se levarmos em conta que a mãe do Neca partiu para exercer atividade profissional em ramo pouco honorífico ainda o jovem mal balbuciava as primeiras palavras. Por força das circunstâncias, o Neca acabou sendo criado pelos avós.

O caso do Neca começou na fase em que alguns dos seus amigos se apaixonavam pelas suas amigas, e outros amigos se apaixonavam pelas amigas de outros. Enquanto todos se entretinham com quem andava por perto, o Neca desenvolveu um intenso amor pela Júlia Pinheiro. Amor platónico, claro. Na época, devia estar ela em torno dos 48 anos de idade e o Neca em torno dos 17. Suspeitava-se que o caso nunca iria dar em nada. Mas o Neca sonhava. Sempre que as obrigações escolares o permitiam, o Neca passava as manhãs — ou as tardes, já não me lembro desse detalhe — em frente ao televisor a deliciar-se com os programas da sua amada.

O Neca não se contentou com um amor platónico. Quando atingiu a maioridade decidiu ir a Lisboa para assistir ao vivo ao programa que a Júlia apresentava. Foram cartas, telefonemas e e-mails em catadupa. Tanto insistiu que conseguiu ser selecionado. A expectativa criada foi tanta que, pouco antes de começar o programa, o Neca invadiu o camarim da Júlia Pinheiro e jogou-se a seus pés declarando todo o seu amor por ela. Primeiro a Júlia Pinheiro riu muito e agradeceu. Mas logo achou que era melhor chamar os seguranças.

Quem tem acompanhado de perto a carreira da estrela televisiva nas últimas décadas deverá lembrar-se de um programa no qual a Júlia Pinheiro apareceu a falar alto e num tom de voz muito estridente. Foi precisamente nesse dia. E por causa desse caso insólito com o Neca.

O caso tinha tudo para ter sido bastante comentado. Se a imprensa cor-de-rosa tivesse tido acesso a essa informação, não teria perdido a oportunidade de explorar esse lado negro do verde Neca. Contudo, a estação televisiva onde na época trabalhava a Júlia Pinheiro — suponho que a RTP, ou a SIC... talvez a TVI — conseguiu abafar o caso: chegaram à conclusão de que não seria nada bom para a imagem do canal que essa história se tornasse pública. Apesar dos muitos anos decorridos desde o aparecimento da teoria freudiana, o preconceito continuava — e acho que continua — a ser forte.

E como soube eu da história? Contou-ma um tio que trabalha com um irmão do cunhado da filha da vizinha de uma prima do Neca. Não a divulguei antes porque prometi guardar segredo. Estou convencido que, volvidos mais de 10 anos, promessas deste tipo prescrevem. Mas, pelo sim pelo não, peço-lhe encarecidamente, amigo leitor: não comente com ninguém sobre este assunto.

O Neca deve estar agora em torno dos 28 anos de idade. Pouco mais soube sobre ele. Apenas que os avós já morreram e ele ficou a morar com uma vizinha. Uns 20 ou 30 anos mais velha.

3 comentários:

  1. É realmente um preconceito difícil de eliminar. Acabamos por ser mais tolerantes com os homossexuais do que com este tipo de casos. (Claro que os homossexuais não têm culpa nenhuma).

    Admira-me a Júlia Pinheiro não ter aproveitado a ocasião. O Neca é assim tão feio? ;)

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  2. Creio que, na época, a Júlia Pinheiro estava (bem) casada :)

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