segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A volta por cima

Órfão de mãe à nascença e de pai cinco minutos após a mãe ter sido fecundada, o Tó Mendes cresceu sob os cuidados da avó, sem outros parentes próximos. Ainda muito novo enveredou por uma carreira — se assim se pode chamar — de trolha. Manhã cedo era apanhado pela furgoneta de uma construtora que, já tarde da noite, o devolvia a casa. Consigo levava a marmita do almoço preparado pela avó: sopa e um conduto — arroz, batata ou massa — adubado com carne de porco, muitas vezes rançosa.

O sonho de uma vida melhor começou a despontar no Tó Mendes quando uma noite, no café do centro, assistiu a uma reportagem televisiva sobre emigrantes em França. Aí viu trabalhadores do mesmo ramo de atividade que se aviavam ao almoço com chouriço, queijo, pão estaladiço e vinho. Aquilo mexeu por dentro — principalmente com o estômago — do Tó Mendes. Não restando mais motivo forte que o prendesse à aldeia, após a morte da avó aceitou a proposta do primeiro que lhe acenou com a promessa de uma vida melhor em terras francesas.

Depois que emigrou, nem o Tó Mendes nem a sua aldeia natal voltaram a ter notícias um do outro. Tinham já decorrido mais de dez anos quando o Tó Mendes decidiu reaparecer. Já a vida lhe corria de feição quando lhe ocorreu — não exatamente com estas palavras — que exibicionismo em terra natal causa sempre maior impacto. Nesse preciso momento, tomou a decisão de fazer alguns investimentos na aldeia que o viu nascer. Reapareceu acompanhado de Mercedes branco, corrente de ouro e uma robusta loura platinada. Admirável. Logo o Tó Mendes, que nos mais de vinte anos que viveu na aldeia não fora alvo da generosidade sentimental nem da mais enjeitada das suas conterrâneas, aparecia agora acompanhado de uma loira platinada!

Trazia como projeto construir uma enorme vivenda para férias no terreno da casa em ruínas que herdara da avó. Começou por fazer chorudos donativos para a junta de freguesia investir em melhoramentos na avenida principal e para o pároco melhorar a — sempre necessitada — igreja matriz. Todos naquela aldeia ficaram com a certeza — especialmente o pároco e o presidente da junta — de que o Tó Mendes tinha dado a volta por cima.

Recebeu efusivos abraços do pároco, do presidente da junta e de muitos outros amigos que nem imaginava possuir. Mostravam-se todos muito felizes com o retorno do Tó Mendes — especialmente o pároco e o presidente da junta —  e também muito curiosos sobre como chegara a tal estado de prosperidade. Naquele fim de tarde pediu-se silêncio no velho café do centro para que se escutasse a história de sucesso dos anos de emigrante do senhor António Mendes.
— Um grande homem — dizia o presidente da junta.
— Que deus o abençoe — acrescentava o pároco.

Começou por mencionar a tal reportagem televisiva que lhe fez despontar o sonho de uma vida melhor como emigrante em França.
— Um grande homem — dizia o presidente da junta.
— Que deus o abençoe — acrescentava o pároco.

Contou depois que nos primeiros anos se sujeitara a trabalhar ilegalmente por tuta e meia numa empresa da construção civil no sul de França. De sol a sol... no verão, porque no inverno era muito mais do que isso.
— Um grande homem — dizia o presidente da junta.
— Que deus o abençoe — acrescentava o pároco.

Referiu a seguir que anos mais tarde conseguiu contrato numa outra empresa, ainda mal pago, mas já a trabalhar apenas o de lei. De sol a sol... no inverno.
— Um grande homem — dizia o presidente da junta.
— Que deus o abençoe — acrescentava o pároco.

A história ia já longa, com o Tó Mendes a fazer menção a uma série de empresas onde trabalhou, mas sem avanços que indiciassem o que provocara melhoras tão significativas na qualidade de vida do Tó Mendes. Eis senão quando, um antigo companheiro de labuta — que tinha que acordar cedo para apanhar a mesma furgoneta que uma década antes apanhava também o Tó Mendes —, denotando alguma ansiedade resolveu pedir um atalho:
— Sim, Tó, mas diz logo como é que conseguiste dinheiro para tudo isto!
— Ah, sim — sorriu o Tó Mendes — essa parte foi fácil: há cerca de um ano acertei na Loto!

1 comentário:

  1. O Mercedes, há muitos que o conseguem arranjar (mesmo trolhas). Já a loura platinada só mesmo com a "Loto" :)

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