«Mal de amores», comentava a mãe. «Falta de ocupação», acrescentava o pai. Inicialmente encararam o alheamento da Isaurinha como algo típico do fim da adolescência. Contudo, com o decorrer dos dias, a preocupação foi aumentando. Especialmente na mãe. Ao terceiro dia a mãe entrou no quarto da Isaurinha com a intenção de ter uma conversa de mulher para mulher. Após muita insistência para que a filha se abrisse, da boca da Isaurinha não ouviu mais do que um singelo e estranho pedido: «quero o padre».
Ao saber do inesperado pedido da Isaurinha, finalmente soou o alarme do pai com todo o exagero que caracteriza o género masculino:
— Extrema unção? — perguntou.
— Não digas disparates! — atalhou a mãe.
— Então só pode ser pecado... Pecado capital! — acrescentou o pai.
— Calma — disse a mãe —, o padre é jovem, de mente aberta, alguém com quem os jovens gostam muito de conversar. Provavelmente quer abrir-se com ele.
Imediatamente contactado, poucos minutos depois o padre dava entrada na casa da Isaurinha. Posto ao corrente da situação, pediu para ficar a sós com ela. Para diminuir a ansiedade nos longos minutos de espera, o pai tentou escutar algo através da porta — ato liminarmente condenado pela mãe. Mais tarde, a própria mãe colou o ouvido à porta. Tudo isso em vão, porque do cómodo onde o padre e a Isaurinha estavam reunidos nem uma palavra escapou para o exterior.
Assim que o padre saiu da conversa com a Isaurinha, pai e mãe correram pressurosos em busca de explicação para o mal que atormentava a filha. O padre escudou-se no dever de sigilo da confissão. Após alguma imploração, deixou escapar que, de fato, se tratava de «mal de amores».
— Bem me parecia! — disse a mãe.
— E é preciso isto tudo? — questionou o pai.
— Amores impossíveis... — contrapôs o padre.
— É no que dá ver muita televisão — comentou o pai. E prosseguiu: — Precisa de se envolver mais com a paróquia, ir mais à missa!
— Não, não, isso não! Basta que cumpra a obrigação da missa dominical. E que não fique lá muito na frente... — rematou o padre.


